A Gruta do Lou

Utopias nossas de cada dia

Netuno - Cid. Ocian

O Netuno da Cidade Ocean (Praia Grande – SP)


Depois da minha recaída otimista no último post, enquanto aguardo Deus vir e me deixar com Cara de Tacho, retomarei minha caminhada pessimista, pois é onde me situo melhor, salvo engano.

Devidamente motorizado por um idiota que vi falando bobagens na TV, fiquei pensando em utopias. Ah, as utopias nossas de cada dia. Atlântida, Oceania, Comunismo, Socialismo, Paraíso, Igreja Ideal, Político Honesto, livre pensar, democracia, Corinthians* campeão do mundo e vai por aí. Incrível minha inocência, apesar de tudo que já vi e vivi, continuo sendo um tolo sonhador.

Quanto tempo e fosfato perdido com essas utopias. Quando era menino, tínhamos uma casa na Praia Grande, perto da cidade Ocean. Um cara chamado Andraus, que de bobo não tinha nada, criou um arremedo da Oceania, na visão dele era um empreendimento imobiliário capaz de lhe render uma boa grana, como rendeu de fato e, se não me engano, está lá, até hoje. Bem na frente da cidade, cravou um Netuno gigante, olhando para o mar. Muitas vezes sentei ali e fiquei admirando a estátua. Confesso que às vezes ela ganhava vida e eu levava uns papos com o Net. Sempre fui fascinado pelo mar.

Certa vez, fui ao borracheiro para o concerto de um pneu furado. O borracheiro começou com um papo estranho. Disse que eu era filho de Xangô, o deus candomblé dos intelectuais. Como não podia sair dali e não queria ser descortês com a figura, ouvi tudo aquilo impassível, com ironias e sorrisos amarelos. Entre outras coisas ele me disse: o senhor precisa do mar e da areia da praia como do ar. Confesso que isso me impressionou, pois eu acredito nisso desde criancinha. Na hora de ir embora, o borracheiro se aproximou, estendi uma gorjeta para ele, mas o mulato recusou dizendo: quando for à praia, traga uma estrela do mar para mim, não compre, apanhe na beira da água do mar.

Acho que fica fácil imaginar porque sou fã do Amir Klink e leitor das utopias e devaneios que ele escreve e pratica. Imagine dar a volta no polo sul em um barquinho a vela e voltar vivo para escrever a façanha. Se desse para resetar essa vida e começar ela outra vez, viveria como o Amir, o Marco Polo, Cristovão Colombo e os navegadores navegando os sete mares, conhecendo todos os portos e descobrindo o que é que as baianas têm, com todo respeito, claro. Minha utopia era viver e manter uma Pousada no litoral norte de São Paulo, ou sul do Rio de Janeiro, vindo aos centros urbanos para editar um livro novo, fazer umas palestras exóticas sobre um Deus ateu, somente e voltar rapidinho para junto do mar.

Mas a minha maior utopia é uma Igreja cristã onde as pessoas não fossem hipócritas, eu incluso, os pastores não fossem ladrões e adúlteros e todos vivessem para propagar o amor de Deus, como Jesus Cristo ensinou. Uma igreja que fosse capaz de abraçar um jeca tatu como eu fortemente e perdoar tudo e todos, até o Lula e seus asseclas, inclusive o Diogo Mainardi, desde que eles solicitassem. Sabe, eu fui feliz quando: ir à igreja era sentar no chão, cantar e ouvir testemunhos de conversão e adoração, como nos tempos do Tio Cássio, apesar dele. Queria mais tios e menos pastores doutorados e mestrados que deixassem os jovens serem jovens, as crianças, crianças, os velhos, velhos e assim por diante. Algum lugar onde só uma coisa fosse proibido: dinheiro.

Não sou um imoral e muito menos tenho tendências imorais. Acredito que a moral se estabelece fácil onde as pessoas se amam com o amor ágape e estão dispostas a dar ao próximo tudo que desejam para si mesmas.

Possivelmente, quando for ao mar a próxima vez, jogarei essas palavras nas ondas dele, para que naveguem para sempre. O problema é, em meu íntimo sei que o mar as devolverá, pois não aceita nada o que não lhe pertence.

Isso não foi nada, apenas um pensamento, um cometa saído de minhas catacumbas interiores. Minha utopia é muito maior e mais fantasiosa do que isso. E a sua?

Capricornio PB

9 thoughts on “Utopias nossas de cada dia

  1. Minha utopia não chega a ser uma utopia em si somente, mas só um pequeno desejo de ver tua utopia realizada…

  2. Rap

    De você, eu não poderia esperar nada menor do que isso. Se a utopia virar realidade, ainda que a possibilidade seja remota, você já está convidado a participar, ou melhor, intimado.

  3. Oh Lou! Claro que não é imoral! Nem coisa que se pareça.

    A minha utopia? Quer saber qual é?

    È que todas as pessoas que vivem na aldeia, onde está instalada a minha Igreja, pudessem conhecer o amor de Cristo, aceitá-lo e Amá-lo como eu amo.

    Estou a empenhar-me nisso.

    Uma vez mais, obrigada por mais este texto.

  4. Viviana

    As utopias devem permanecer utópicas para não vivermos em eterna frutração. Gosto de deitar a cabeça no travesseiro e vive-las, de vez em quando. Quem sabe um dia, não sou transportado para elas e viro uma lenda. 🙂

  5. Dizem o maior avivamento do século vinte-um são os fundamentalistas de todas as religiões. Prova de um retorno dos homens a Deus através da história. Corram, evêm os extorssionários aí.

    Abraço

  6. Que lindo, as abóboras voltaram!
    Lou, a impressão que me ficou é que você não contou de fato qual a sua utopia…Mas não tem importância, seja ela qual for, eu abraço!

    Seguinte, eu fui só uma vez noTio Cassio, sou “sobrinha” do Paulinho Solonka, dos Pedras Vivas, um tipo de tio Cássio. A coisa mais inocente que eu já vi. Mas aquilo não volta, de jeito nenhum, não volta não. Onde iremos arrumar aquela juventude inocente que frequentava aquilo lá? Isso sim é utopia, das boas.

  7. Beth
    Conheci o Paulo Solonka superficialmente. Há dois anos estive com ele na IBAB do Ed Rene, depois de bom tempo. Fiquei sabendo de algo muito triste que aconteceu com ele, infelizmente. De fato, essa utopia dos “tios” eternizou-se como utopia.

  8. Utópico Lou,

    Não sei se vocês estão falando de utopias ou nostalgias?!
    Mas a minha é ver o Brasil ganho para Jesus e finalmente termos um presidente evangélico como nos EUA! (isso foi uma piada, claro)…
    Três grandes sonhos meus se realizaram no Brasil enquanto estava fora: o cruzeiro foi campeão brasileiro, o galo caiu para a segunda e o PT chegou ao poder (perder o último compenssou os dois primeiros).
    Ultimamente o que está virando uma utopia pra mim é achar de novo um bom trabalho aqui…
    Abobrinhas de lado seu artigo está “Wunderbar”! Fiz com que meus mais nobres ideais parecessem planos quinquenais, por isso minhas respostas evasivas.
    Abrçs,
    Roger

  9. Pingback: Lou Mello

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