A Gruta do Lou

Uma página que faltava

Red Skelton

Como é sabido, os evangelhos são fragmentos. Nenhum deles foi encontrado inteiro. Os textos que conhecemos são cópias dos originais verdadeiros, todos perdidos. Fragmentos são raros e poucos foram guardados e conservados. Comprovado, há apenas um, contendo um parágrafo do evangelho de João. Quando você passa algum tempo em Jerusalém demonstrando interesse nos originais da Bíblia e dando sinais de ter bom dinheiro no banco, é comum aparecer gente oferecendo autênticos fragmentos de originais da Bíblia. 

Como todos sabem Khalil, meu amigo e companheiro de missões, passa a maior parte do ano em Jerusalém, no trabalho antropológico missionário, sob os auspícios de uma missão inglesa. Ao longo dos anos, e muito menos vezes do que gostaria, passei algum tempo com ele na Terra Santa. Na primeira vez que estive lá, em uma determinada noite, havíamos terminado uma reunião devocional na casa de um irmão e seguiu-se a comemoração do aniversário de um dos filhos dele. Minha cabeça estava doendo muito. Raramente tenho dores de cabeça, mas aquela estava insuportável. Embora o Khalil nunca me deixasse andar sozinho pelas ruas de cidade, naquela noite eu voltei para a casa da missão, sozinho. Sabia que ele não poderia sair antes dos rituais serem processados, então saí sem avisá-lo. Pedi para um dos presentes avisá-lo que partira na frente. 

No caminho aconteceu um incidente. Um homem desceu cambaleando pela viela e veio em minha direção. Percebi que ele não estava nada bem. Antes que pudesse se aproximar de mim, estatelou-se no piso frio da rua. Olhei para todos os lados e não vi ninguém. Concluí que deveria acudi-lo. Aproximei-me com cuidado e o desvirei, pois caira de bruços. Sua mão direita estava segurando o ventre e havia sangue no local. Tirei a mão com cuidado e notei um ferimento, provavelmente ele fora esfaqueado. Olhei em seus olhos e nossos olhares se cruzaram profundamente. Ele colocou sua mão no bolso interno do paletó, com grande dificuldade, retirou um envelope e colocou na minha mão. A seguir balbuciou uma frase em inglês: um presente para você. Morreu em seguida. 

Ouvi várias vozes e antes que pudesse pensar em algo, as pessoas chegaram. Felizmente era o Khalil com mais alguns irmãos. Só tive tempo para enfiar o envelope no bolso de meu casaco. Eles entenderam logo o que houvera. Um dos rapazes do grupo era policial e se encarregou de todas as providências. Minha cabeça estava doendo mais do que nunca e precisei ser socorrido. Depois de uma rápida passada pelo hospital, onde fui medicado, o Khalil me levou para casa e me colocou na cama. 

Dormi cerca de doze horas seguidas. Acordei bem e me sentindo descansado. Depois de um bom banho fui até a cozinha e tomei um café da manhã bem reforçado. Àquela hora, todos estavam trabalhando. D. Ruth, a cozinheira da missão conversou comigo um pouco e lembrei que precisava lavar umas roupas. Subi para o segundo andar e fui buscá-las. Quando apanhei minha camisa, aquela que usara na noite anterior, notei o punho sujo de sangue e a cena da noite anterior reapareceu em minha mente. Corri e peguei o envelope no bolso da calça. Ao abri-lo, encontrei dentro um plástico contendo o que parecia ser um antigo fragmento. Junto com o plástico estava uma folha datilografada em inglês. Olhando com cuidado descobri que a folha continha a tradução daquele fragmento. Eis o que estava escrito: 

Depois de falar à multidão que estava na praia, de dentro de um barquinho, Jesus despediu todos e descendo do barco começou a caminhar. Aproximou-se dele um homem chamado José da Galiléia dizendo. Sou pai de três filhos e minha mulher está em casa com o coração partido. Há anos vivemos de esmolas. Andei por toda a região centenas de vezes, durante esse tempo, em busca de trabalho, mas devido à minha idade e profissão nada consegui. Hoje é domingo e não sei o que farei amanhã e nos dias seguintes para prover minha casa e alimentar minha família. Além disso, estou muito endividado e meus credores querem me matar. Senhor! Sei que és poderoso em palavras e milagres, se achar misericórdia diante de ti, peço que me ajude a encontrar alivio para minhas preocupações, se possível, através de algum trabalho honesto. 

Jesus ouviu o homem atentamente. Ficou em silêncio algum tempo e depois lhe perguntou:  Homem, onde estão os teus amigos? José respondeu: Senhor! Tive muitos amigos durante minha vida, mas quando a sequidão se abateu sobre nós, desapareceram todos. Então o Senhor lhe disse: Eles se foram porque não eram amigos verdadeiros. Toma tua túnica e despede-te de tua casa porque a partir de amanhã serás um dos meus seguidores. Hoje a salvação chegou a você e a tua casa. E o homem fez como disse o Senhor.” 

Uma estranha e incontrolável vontade de chorar me pegou após aquela leitura. Chorei durante um bom tempo. Sem perceber, ajoelhei na beira da cama e enfiei minha cara contra o colchão. Fiquei ali até ouvir a sineta que anuncia o almoço. Desci e vi o Khalil através da porta de vidro do escritório. Fiz sinal e entrei. Entreguei o envelope a ele e fiz um breve relato do incidente da noite anterior. Ele pegou o envelope e nunca mais me disse nada sobre aquele fragmento. Khalil é um dos mais respeitados antropólogos cristãos do mundo, trabalhando em Jerusalém.

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