A Gruta do Lou

Um incômodo arrebatamento


Praia de Copacabana

Se Jesus Cristo pretende mesmo voltar para buscar sua Igreja (se é que já não o fez), melhor seria não vir agora, digo, neste mês de janeiro, pois os brasileiros não poderiam participar do evento (pastorada inclusive, gente que não ficaria fora dessa, especialmente os arministas, aliás, os calvinistas também, já que são os eleitos – sic), uma vez que estão cumprindo o Contrato Social (como ensina nosso professor Paulo Brabo). Uma data mais conveniente seria após o Carnaval e antes da Quaresma (uma festa católica já em desuso, que se iniciaria logo após a festa da carne, ocasião em que as namoradas não permitiriam nenhum tipo de contato físico e terminaria em um sábado, quarenta dias após, com muito samba, marchas carnavalescas, cerveja e a volta do contado físico dos ficantes, exacerbadamente), ou seja, na quarta-feira de cinzas, após o meio-dia, seria o dia mais adequado para nossos companheiros.

Claro que cabe averiguar a consistência das palavras contidas na fonte dessas idéias, no caso a Bíblia. Devido a uma série de razões, pode ser que essa história toda não seja bem assim. Inclusive, como sugeriu o famoso teólogo do século vinte Karl Barth (a quem os tonicodemusletes cultivam horror), essa presente vida corre o sério risco de ser o inferno e, no caso dele estar certo, a tal redenção liderada pelo Filho de Deus, já teria ocorrido e nós seriamos, então, um bando de preteridos pelo Criador, comendo o pão que o capeta amassou.

Mas nada disso deve ter qualquer fundamento. Essas coisas impressionam gente como eu, digamos, menos favorecidas pelos acontecimentos do dia-a-dia. Tenho consciência de minha condição, muito mais uma exceção do que uma regra.

Agora se o Filho Único Divino resolver arrebatar seus seguidores nessa época, ficará evidenciada sua predileção pelos habitantes do primeiro mundo (se é que já não está), pois além de terem nascido nesses lugares separados por Deus (onde mana o leite, o mel e a grana), já voltaram ao batente e estão prontos a seguir o salvador. A vantagem seria o fim da guerra do Iraque que se extinguiria em um minuto, pois, nesse caso, só restariam os iraquianos e seus amigos iranianos e comandados de Bin Laden que não tem a menor chance de participar desse evento exclusivamente cristão. No céu não haverá lugar para esses ímpios, assassinos impiedosos dos santos escolhidos e que não têm Jesus no coração.

Quanto a nós, tudo bem. Temos o Bolsa Família, carnaval todos os anos, Big Brother e futebol de segunda, pois entendemos que os brasileiros com talento para esse jogo são seres escolhidos pelo Dono do Céu e, portanto, devem viver e jogar no mundo dos privilegiados, ajudando seu pobre enriquecimento, um pouco mais. O Adam Smith (e seu Riqueza das Nações) era um idiota. Assim, humildemente aceitaremos participar desse trem de Jesus se for após o Carnaval e em ano em que não houver Copa do Mundo ou eleições.

No mais, fica tudo como está. Enquanto vocês descansam eu e meus irmãos conterrâneos seguiremos com nosso idealismo poético de um ano atípico, onde possamos trabalhar e ganhar um salário justo por uma jornada honesta de trabalho e vocês possam afirmar perplexos, no final: É, milagres existem! Talvez, Deus também, o que tornaria esse negócio de arrebatamento crível.

3 thoughts on “Um incômodo arrebatamento

  1. Querido Lou, desejo-te feliz aniversário. Aliás, eu acho que todo dia é nosso aniversário, por que a vida deve ser comemorada sempre. TODO DIA. BEIJOS E FELIZ ANIVERSARIO.
    Abraço carinhoso

  2. Pingback: Lou Mello
  3. Se fosse arrebatada hoje,Jesus levaria consigo eu e a minha cama,tô tão cansada que ninguém,mas ninguém mesmo faria me levantar dela.
    Continuamos grutando…

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