Um cristão ateu


O nome dele era Lucas Humberto Moraes. Eu o conheci quando cursei teologia. Era um professor notável. Se bem me lembro, de a até z lecionava todas as matérias do currículo. Seu forte não era Antigo Testamento, Novo Testamento ou Ética Cristã. Ele era bom em educação. As aulas começavam com uma pergunta, sempre. Cheguei a participar de aulas onde tudo o que ele disse foi a pergunta inicial, depois a aula ficou por conta dos alunos debatendo e do debate lindas conclusões.

Não sei bem em que, mas Lucas era empresário, naquela época. Casado e um homem de fino humor. Costumava repetir que a ironia e o bom humor são capacidades transcendentais do homem contemporâneo. Em determinado ano, nasceu ao casal o terceiro filho. Parece que algo não saiu bem e o menino veio ao mundo com um mal grave e complexo. Lembro disso porque a escola parou para orar pela família, naquele dia. Aquele foi o último ano dele na escola. Nunca mais vi ou ouvi falar a seu respeito.

Devo a ele meu ardor pela fé cristã e uma certeza madura na existência de Deus. Em todos os lugares sou elogiado por minha teologia consistente e inovadora, sempre. Tudo isso deve ser creditado ao meu bom professor.

Semana passada, encontrei uns colegas do tempo de seminário. Combinamos comer umas pizzas juntos. Claro que, a certa altura, o assunto foi o Professor Lucas. Uma colega deixou a todos nós perplexos. Ela leu seus escritos em um Blog, passou-nos a URL e eu já conferi. Ali, ele declara, solenemente, estar vivendo, há tempos, um grande vazio espiritual. Segundo ele, sua fé está na dependência de algum acontecimento que confirme a existência de Deus. Continua fascinado por todo o mundo do Cristianismo e da teologia, mas declara-se marginalizado de tudo e de todos. A certa altura, diz: “Jesus Cristo me encanta sobre tudo, e eu daria a minha vida pela certeza de que tudo fosse verdade.” Segundo ele, esgotaram as possibilidades de um Deus dos livros e da Bíblia. Ele precisa ser mais. Tem que assumir sua condição divina e apresentar-se aos combalidos e desanimados.

Confesso que cheguei em casa arrasado, naquela noite. Minha esposa pensou que houvesse acontecido alguma coisa muito grave. De fato aconteceu. Agora eu estava em grande dúvida. No dia seguinte, iniciei uma busca intensa pelo endereço do professor, Queria falar com ele, pessoalmente. Tudo que consegui foi um telefone. Ele mudara há anos para o interior. Falei com ele, alguns minutos, tempo suficiente para ouvi-lo dizer: “Estou abandonado por Deus, pela Igreja e pelos cristãos. Não gostaria que você ou qualquer dos meus ex-alunos me vissem agora. Vivo, para vergonha de minha família, da ajuda nada caridosa de parentes e um amigo, todos devidamente de saco cheio de minha miséria. Todos os dias, quando acordo, peço a Deus: se Ele existir e tudo que sei sobre ele for verdade que se manifeste. Não tenho mais forças para lutar e não sei para onde ir” e desligou o telefone.

Lembrei-me de Jesus. Ele foi capaz de morrer por nós e o que fizemos com isso. Quantos, na história, deram o melhor de si pelo próximo e qual foi o resultado? Nós prosseguimos enquanto eles caem no esquecimento. Um destino cruel para quem deu tanto e nem suas próprias crenças podem amenizar sua sina.

Deus tenha misericórdia dele.
# posted by Lou @ 11:56 AM