A Gruta do Lou

Um coração cansado

E stivemos em Limeira para uma consulta com um médium muito conhecido. Isso foi no final da década de oitenta. Nosso filho mais novo tinha pouco mais de um ano e passara pela primeira cirurgia. Fomos sós a Dedé e eu. Foi uma cerimônia meio lúgubre. Enquanto fiquei na sala principal, Dedé foi levada a uma sala secundária onde um grupo de pessoas fez um ritual espírita. No final, entre outras mensagens, uma moça disse: esse menino é uma missão de vida para vocês .

Não discutirei agora o que um quase pastor fazia em um lugar como esse. Antes de mais nada, fui só isso, um quase pastor a vida toda e acho que continuarei assim, se depender só de mim. Posso dizer que começou com essa frase o meu pensar em algo mais do que: um grande equívoco divino em nossa homenagem. O pastor de nossa Igreja atribuiu o problema a algum pecado não confessado dos pais. Foi o consolo mais nobre que recebemos dos irmãos em cristo. Então Deus usou a mula de Balaão para nos entregar a profecia.

A cada mil novos nascimentos, oito crianças vêm ao mundo com algum tipo de cardiopatia congênita. Alguns se vão tão rápido quanto chegaram, devido a isso. Outros, mais sortudos, são operados e ganham uma vida considerável pela frente. Há tantos que poderiam ser presenteados com a mesma dádiva, mas por absoluta falta de interesse, inconsciência, empenho, vontade política e descaso deixam esse mundo em algum tempo tênue de forma inesperada. Geralmente, só há possibilidade de realização dessas cirurgias ou de tratamento adequado nos grandes centros. Nem nos Estados Unidos há atendimento cirúrgico em todas as cidades.

Antes de nosso filho, eu não tinha nenhuma idéia sobre nada disso. Mesmo tendo convivido em minha adolescência com um cardiopata congênito que foi operado aos doze anos, nunca mais me interessei pelo assunto. Se ele não viesse com esse acessório sórdido, eu jamais teria entendido a mensagem de Deus. Muito tempo antes dele nascer, trabalhei na Missão Portas Abertas, onde fui introduzido a conceitos de desenvolvimento e marketing absolutamente desconhecidos por todos nós. Até hoje nossas organizações claudicam por desconhecê-los e não disporem de um mínimo de humildade para buscar essas lições. Aprendi tudo aquilo e coloquei em prática com grande sucesso, antes que chutassem o meu traseiro em direção à rua. Não entendia porque aprender tudo aquilo para nada. Será?

Em meio às idas e vindas aos hospitais, exames, consultas e cirurgias, acabei somando um mais um e o igual deu, um projeto em favor dos cardiopatas congênitos. Claro que não entendo esse nosso Deus confuso e inadequado. Ele não entendeu que os homens a serem levantados para essas missões humanitárias e de importância vital a milhares de criancinhas indefesas, com seus pais idiotizados pela dor e impotência, deveriam ser alçados dentre aqueles que acabaram de conseguir seu mestrado ou doutorado lá Faculdade Metodista de São Bernardo ou algum desses caras formados em psicologia, ação social ou jornalismo. Eles sim têm todos os pré-requisitos para algo dessa envergadura. Ainda reluto em aceitar a escolha do Divino em minha direção. Sou o oposto do perfil ideal. Estou no bico do corvo. Comigo só sai se for à base do milagre diário, apesar de mim e isso, por enquanto não aconteceu.

Todo dia penso em pular fora de mais essa sinuca em que fui me meter. Sempre fui muito prático nessas questões. Se não sou o cara, estou fora e pronto. Aliás, não sei porque continuo insistindo nessas crenças quase esquizofrênicas obtidas com auxílio de igrejas desnecessárias e teólogos toscos e fundamentalistas.

Chego ao limiar dos meus dias com meu coração cansado de sofrer. Claro que o Corinthians tem ajudado, também, fui torcer logo para esse time excomungado, mas esse projeto está acabando de derrubar meus últimos fios de cabelo. Haja coração! Sabe, o misericordioso celeste esqueceu um pequeno detalhe: constranger os corações de todos que sem maior esforço possam enviar uma esmolinha por amor dele mesmo e ajudar-me a viabilizar esse trem. Acredite, nem com necessidades prementes como a do nosso filho, tenho conseguido sensibilizar mais do que uns poucos gatos e gatas pingadas ou pingados. Acho que é algo que comi.

Sei que não sou o único. Vejo agora o Adiron em sua luta em favor da inclusão. Sei muito bem do que ele está falando. Nosso filho saiu da escola no início da segunda série do ensino fundamental e nunca mais voltou à escola porque ela não estava preparada para recebê-lo e não tinha o menor interesse em se adaptar. Mas quem se importa? Parece que as pessoas estão, cada dia, mais insensíveis. Pouco tempo se passou desde que eu consegui levantar milhares de dólares em favor da Igreja Sofredora e ela nem existia por aqui. As pessoas caiam aos prantos quando eu, simplesmente, narrava as dificuldades por que os cristãos estavam passando em certos países, onde o regime era contrário à liberdade religiosa. Agora as pessoas estão dando as costas às questões de risco iminente de uma parte considerável de nossas crianças recém nascidas.

Sinto-me cansado. Acho que Deus errou de novo. Por que me desamparaste? Essa idéia nunca foi minha.

Ops: Se isso lhe incomoda de alguma maneira, o link para o Projeto Coração Valente tem estado na barra lateral à sua disposição, na figura do Anjinho Tom, esse boneco cianótico e simpático.

26 thoughts on “Um coração cansado

  1. No meu caso, também com um filho cardiopata congênito, operado com 8 meses de idade.

    Existem alguns loucos idealistas como nós que lutam pela utopia, fazer o que ? está no sangue.

    Obrigado pelo link para a Nota de Pesar.

    As heresias a gente discute quando você vier aqui de novo..

  2. Adiron

    Não há dúvida, está no sangue. O fato é que fico dividido entre duas vertentes e não sei o que é mais importante. A primeira: os cardiopatas congênitos, lógico, por exemplo, aqui em Sorocaba e região, uns mil e trezentos/ano. Em São Paulo, uns oito mil/ano. Ninguém sabe quantos há na África, por exemplo. A segunda: os apoiadores, cujo número pode ser ilimitado. Sabe quantos apoiam a Igreja Sofredora, hoje, só no Brasil? Cerca de cem mil pessoas e essa parte da Igreja reduziu consideravelmente com a queda do muro de Berlin. A Portas Abertas trabalha voltada às restrições impostas pelo Islã, hoje. A dúvida de que Deus possa estar desejando salvar milhares através do apoio aos cardiopatas congênitos, já que esses já tem o passaporte carimbado para o céu, é muito grande.
    Conversaremos bastante em nosso próximo encontro sim, que espero seja em breve, agora de que heresias você está falando? 🙂

  3. Lou, vejo que você tornou a colocar as abóboras. De todos os layouts que vc coloca aqui, nao se se é assim que se chama, rs. Esse é para mim o que mais se parece com a Gruta.

    Lou e Adiron, ninguém a nao ser quem vive o problema nao tem a menor idéia do que seja. Como vc mesmo escreveu no seu post.
    As lutas tornam-se maiores num país com grandes problemas de corrupcao como o Brasil.

    Estamos orando.

    Abracos em vocês

  4. Georgia

    Pensando nessa questão da corrupção em nosso país (e não sei se Deus é suficientemente cidadão para respeitar as nossas divisões geográficas) concluo que ela é consequência, apenas e não a causa. Gastamos a vida apontando as causas sociais como a origem do problema. Tivemos um presidente sociólogo e isso não resolveu. Então, agora estamos experimentando um ex-metalúgico (que não sabe o que é um torno mecânico) que acredita em outra causa: as elites. Enquanto isso, a instituição que sabe bem onde mora a causa e deveria estar trabalhando a favor do ser criado por Deus, está olhando para o próprio umbigo, com seus líderes correndo atrás do vento das doutrinas, grana, sexo etc… enquanto o povo caminha errante atrás de valores estéticos. Você sabe de quem estou falando.
    Eu só queria poder sentar no sofá da sala de nossa casa, à noite, com minha família sem o fantasma opressor da carência, da incerteza e da impotência que nos mantém amedrontados e indefesos.
    Não teríamos tantas lutas se vivessemos o que nos propusemos a viver.

  5. concordo com a Geórgia. por mais que falemos, só mesmo quem vive, sabe o tamanho exato da dor. conte com nossas orações.
    beijos,
    alê

  6. Alê

    Nem nós que vivemos essa dor ou os que vivem outras dores, sabemos onde a porca torce o rabo. Levamos socos e ponta-pés de todos os lados, mas de onde vêm, não fazemos a menor idéia. Somos cegos brigando com foices, à noite e sem qualquer iluminação.

  7. Austragésilo de Athaide (jornalista e escritor que passou por aqui no ceará. Obvio , daqui emergiu sua inspiração!! rsrs na década de 30) escreveu: O amor é a força de maior intensidade que move o coração. Todas as lutas e dores humanas tiveram por origem o amor, simbolicamente representado pelo erro paradisíaco”. Cuide-se meu caro, sua luta pessoal recai, às vezes, em meus pensamentos causando lamentos e muitos por quês? Um abraço.

  8. Francisco
    Austragésilo de Athaide era um sábio. Sabia que uma frase dele mudou minha maneira de pensar em cento e oitenta graus? Foi essa: “A ironia e o bom humor são capacidades transcendentais do homem contemporâneo”. Agora você vem com mais essa… Será que agüento? Apesar de não conhecê-la, vinha sentindo isso nos últimos cinquenta e sete anos. Obrigado pelas preocupações, você é um cavalheiro sensível e tolo.

  9. Perdi um irmao, com 2 anos e meio de vida..nascom com Miocardite Aguda. Naquela epoca, falo de quase 50 anos atras, a medicina ainda dava passos lentos.
    Um abraço
    Meire

  10. Meire

    Você é mais uma razão fundamental do Projeto Coração Valente. As técnicas da medicina desenvolveram-se tremendamente, mas a quantidade de beneficiados com isso ainda está muito aquém, aqui e em todo o mundo. Claro que as pessoas viventes em regiões mais carentes são as que sofrem mais. Esperamos reduzir essa diferença com o Projeto e que seja essa a missão imaginada por Deus. Obrigado por compartilhar conosco a sua dor. Deus te abençoe muito.

  11. Lou, dor sempre dói, e quando dói na gente , dói ainda mais….eu sei o que é dor, vivo com ela e com horas marcadas por ela e pelo medo dela….mas ainda não sei qual é a pior, se a da alma ou do corpo, porque quando me dói o corpo minha alma dói também e vice versa.
    Ma sigamos em frente, porque atrás sempre vem gente.
    Força de Deus pra vc ( e pra odos nós)

  12. Alice

    Sou um sofredor acostumado. Quero que Deus incomode os acomodados e console os incomodados, o resto nós mesmos damos um jeito. 🙂

  13. Alice

    Também não penso que nasci para sofrer, se bem que uma neurocientista da moda dê a entender isso. Mas que o mundo conspira, insistentemente, contra minha felicidade, não tenho dúvidas. Até eu, como parte do mundo, dou uma mãozinha ao mundo contra mim.

  14. Lou.

    Há momentos , perante certas situações que me tocam, que mexem comigo, que eu não o sei o que pensar nem o que dizer…

    Este é um…

    Apenas lhe digo, que estou em sintonia consigo e lhe mando um abraço carinhoso.
    viviana

  15. Viviana

    Agradeço-lhe muito sua preocupação e sensibilidade, comigo. Peço que você, através de mim, veja os cardiopatas congênitos, seus pais, irmãos e pessoas que lhes querem bem e que sofrem devido a isso. Esse é meu propósito ao compartilhar meu pesar aqui. Deus te abençoe.

  16. estava de passagem, navegando pela net e sabe-se lá como cheguei aqui. a questão é que cheguei e achei muito interessante.
    não tenho filhos, mas sempre me preocupei com a questão de como lidar com uma criança que viesse ao mundo com algum tipo de doença, ainda mais uma doença crônica.
    meu avô morreu por problemas no coração, e meu pai (40 anos) começa a apresentá-los também.
    imagino que eu deva ser a próxima da lista, tenho essa “mania” de herdar doenças na família, mas tenho medo do que isso representa pra aqueles que darão continuidade a minha caminhada na vida.
    obrigada pelas informações, vou visitar o site indicado.
    😉

  17. Rosana

    Nem pensar. Esse script (de pai para filho a várias gerações) não se encaixa em todos os casos, na verdade acontece em proporção bem menor do você imagina. Busque certificar-se. Se for o caso, com prevenção, cuidados e acompanhamento qualquer cardiopata pode levar vida normal. Agradeço sua visita e interesse. Fique em paz.

  18. Curioso! O Brasil chora a morte da pequena Isabella! Será que sua morte poderia ser evitada?
    Morrem milhares de Isabellas e Josés, todos os dias, por falta de atendimento médico e falta de recursos. Não me lembro de vê-los citados na TV.

  19. Até o nosso Corinthians virou um espinho na carne coletivo … he he

    Só mesmo você Lou pra pegar o detalhe do detalhe e dar uma torcida de humor. Creio que essa sua missão se cristaliza nos seus escritos e nos blogs. Por estar ‘longe do perfil ideal’ e por ser um maltrapilho (como eu) é que voce cada vez mais se aprofunda na graça.

  20. Pingback: Lou Mello

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