A Gruta do Lou

Um carro

Algumas áreas de minha vida encantaram-se. Fui um menino normal, na infância e adolescência. Nunca fui o melhor aluno nem o pior, era tranqüilo, sabia me esquivar de problemas e não me destacava em quase nada. Quando mudamos para o Jardim Prudência, nos rincões longínquos da zona sul de São Paulo, deparei com uma dificuldade, não sabia jogar futebol e naquele lugar desconhecido por Deus, de tão longe que era, quem não sabia correr atrás da redonda estava morto.Durante algum tempo, sofri tentando não participar das pelejas no fim de nossa rua. Inventava todo tipo de desculpas, mas acabava não conseguindo evitar, algumas vezes e, alem do fiasco, virava alvo das gozações de meus “grandes” amigos. Felizmente, meu pai mandou completar a construção de nossa casa, ocasião em que foi edificada a parte de trás, onde ficava o quintal, dependências para empregados, lavanderia e uma espécie de rancho, ali havia o poço com boa água potável, bomba de sucção e tudo. O quintal ficou amplo, com um muro alto, então o transformei em centro de treinamentos futebolísticos do Lou. O inconveniente era trabalhar em regime de revezamento com as roupas. Quando elas estavam secando, não podia treinar. Ali eu melhorei meu chute, com o os dois pés, o passe, a matada no peito, cabeceio e o mais difícil, os dribles. Consegui virar um menino completamente normal, então, e o pessoal esqueceu meu defeito horroroso. Isso tudo dos oito aos onze anos.Vieram então meus anos incríveis. Desde pequeno, tinha um comportamento estranho: era fascinado por máquinas e motores, sobretudo: automóveis, ou como nós o chamamos por aqui: o carro. O primeiro que meu pai comprou foi um Jeep 51, um espetáculo, amor à primeira vista. Com ele fomos ao Guarujá e a São José dos Campos, terra dos meus pais. Todo o tempo em que nosso Jeep estava estacionado em frente de nossa casa na Rua Casemiro de Abreu, no Brás, eu estava dentro dele treinando dirigir, não apenas com a direção, mas passava as marchas, engatava a reduzida e a tração nas quatro rodas, sem ligar o motor, claro. Também conversava com Jeep, em segredo.Quando mudamos para a Vila Mariana, na Rua Guacunduva (sim somos descendentes de índios, também) meu pai trocou o Jeep por um Citroen, câmbio no painel e curso de marchas invertido, uma maravilha e outra paixão instantânea. A garagem da casa ficava sob a sala de visitas, literalmente. Claro que a entrada começava na rua e era uma big descida até a porta, sob o janelão da sala. O pai guardava o Citroen de marcha ré, a fim de deixá-lo com a frente para a rua, uma precaução em caso de emergências. O Citroen, às vezes, não queria sair da garagem para trabalhar. No começo eu me nomeei esquentador oficial de motor de Citroen; esperava o pai entrar na cozinha para tomar seu café da manhã e corria para a garagem com a chave do carro para ligá-lo e deixar o motor aquecer, mesmo no verão. Enquanto isso, ficava sentado no banco do motorista, fantasiando estar dirigindo e realizando grandes viagens, além de conversar com ele, secretamente. Minha cabeça ficava bem abaixo do parabrisas, se desejava alcançar os pedais. Comecei a engatar a primeira, soltar a embreagem acelerando um pouquinho até o carro encostar as rodas dianteiras no inicio da subida, então brecava, desengatava a marcha e deixava ele voltar de ré até o lugar original. Fiz isso centenas de vezes, sem que meu pai visse. Decorei bem o caminho da garagem até a rua, uma super subida. Onde acelerar, e descobri isso olhando como o pai fazia, e onde brecar, pouco antes da calçada para não atropelar ninguém que estivesse passando, e depois até o meio fio. Belo dia, engatei a primeira e fui enfrente, não parei no inicio da subida, fui até o fim dela e brequei, sem deixar o motor morrer com a ponta do pé esquerdo atolado na embreagem e a ponta do direito no freio. Olhei bem, e como não vinha nenhum pedestre, soltei o veiculo até a rua, parando onde meu pai costumava; quem olhasse de fora poderia jurar que o carro estava andando sozinho, sem motorista, pois eu não aparecia na altura das janelas. Quando ele saiu para pegar o carro e o viu na rua, ficou meio embasbacado e me perguntou como o Citroen saíra. Engoli seco e revelei o segredo: “fui eu, pai”. Daquele dia em diante, fui promovido a tirador oficial de Citroen da garagem e nunca faltei ao meu trabalho. Acredite se quiser, tinha de sete para oito anos.Chegamos então ao Jardim Prudência, ainda com o Citroen. Ali era possível fazer outras manobras, graças ao estado desértico de nossa rua, e a garagem era quase ao nível da rua. Na verdade, era preciso subir um pouco para entrar nela. Aos doze anos eu dirigia perfeitamente, quando fui pego pela polícia pela primeira vez, por dirigir sem habilitação. Essa qualidade deu-me certo pretígio perante a turma, e com as meninas em especial. Não fiquem bravas comigo, eu não tinha culpa disso, mas gostava muito. Acho que fui o primeiro menino do pedaço a namorar oficialmente, aos treze anos, com uma garota chamada Lilian, uma boneca. Era um namoro cem por cento à base de muita conversa, mãos dadas e alguns beijinhos nas faces. Ah, e claro, passeios de carro pela nossa rua.Cresci dirigindo, aos dezesseis, o carro já fazia parte integrante de minha vida. Aos sábados saia para namorar de carro, nessa etapa a namorada já era outra, claro. No dia em que completei dezoito anos, com planos de tirar minha carteira de motorista, no dia seguinte, fui preso por dirigir sem habilitação, quando fui levar alguns amigos e a namorada para casa. O Pai me livrou daquela enrascada e custou caro. Quando vendemos a casa do Jardim Prudência, entrou um Fusca como parte do pagamento e, logicamente, ele veio para as minhas mãos. A partir daí, não fiquei sem carro. Era uma parte imprescindível de minha existência. Tive vários, de todas as marcas e tipos. Quando casei com a Dedé, o grande amor de minha vida, tinhamos um fusca do ano. A primeira vez que ficamos sem um, foi quando me mandaram embora da Portas Abertas, uma benção por meus serviços prestados ao Senhor, naquele ministério. Trouxa, não cobrei a indenização como deveria e, a primeira coisa que perdi foi meu carro. Fiquei sem trabalho por cinco meses, até iniciar na prefeitura como diretor de creche, então comprei outro, com ajuda de um amigo.Assim foi, às vezes com carro outras não, mas não ficava muito tempo sem e como minha mãe sempre tinha o dela, nunca ficávamos totalmente a pé, de fato. Quando viemos para Sorocaba, estávamos sem. Mas logo que comecei a cuidar da recuperação de dependentes químicos na Fazenda em Piedade, o Daniel Fresnot, um judeu atípico, liberou um fusca para eu trabalhar lá. Tivemos outros até 2005, quando resolvi vender meu velho Kadett ao desmanche “Irmãos Metralhas”, porque descobri que o motor dele tinha a numeração raspada, sem falar na questão da documentação e licença, vencidas há tempos. Era um carrinho legal e bem vagabundo. Aí fui trabalhar em Campestre e comprei um gol 1999 (na foto), estávamos em 2006. A escola faliu e atrasei as prestações. Embora tenha pagado uma parte da dívida atrasada, a financeira conseguiu uma liminar para busca e apreensão, em tempo recorde, e lá se foi meu gol ( a foto acima foi tirada minutos antes de o levarem), uma pena. Ele foi leiloado, tadinho, nunca mais o vi e para minha surpresa, por um valor acima do valor de compra. Somando tudo que paguei, entrada, prestações, melhorias, a “justa” juíza (a mesma da liminar) ainda deu um jeito de me deixar devendo um bom dinheiro, não pago, evidentemente. Isso aconteceu em 2006 e foi amplamente divulgado pela Gruta.De lá para cá não conseguimos mais adquirir um carro. É o maior período sem carro de nossa história, e pese-se aí o fato de ser necessário alugar um, todas as vezes que precisamos levar nosso filho ao INCOR ou para outros tratamentos em São Paulo. O pessoal da Localiza (locadora de autos) me adora, sem falar na Edna, taxista que nos atende desde que chegamos a Sorocaba, uma amiga e tanto. Minha mãe resid

e em São Paulo e não tem mais o carro dela, pudera, aos oitenta e dois, não seria aconselhável. Dizem que trazemos a nós as coisas que desejamos, mas não estou conseguindo.Para mim, é como se tivesse perdido um braço ou uma perna, sem falar na falta que nos faz em todos os sentidos. Nunca imaginei chegar a isso, muito menos na possibilidade de viver sem meu carro. Deus é mesmo um grande gozador e sabe como ninguém onde mexer quando quer algo de nós. Espero que esteja satisfeito, ao menos.

5 thoughts on “Um carro

  1. Pingback: Lou Mello
  2. Jeremias 20:18 Por que saí da madre, para ver trabalho e tristeza, e para que os meus dias se consumam na vergonha?

    Também quero saber.

  3. O time dos “Sem Carro” hoje em dia não tem mais aquele conceito de: exclusão econômica,vítimas do capitalismo,planos econômicos,etc,etc…estar sem carro,no momento,é ser politicamente correto,é participar ativamente para o bem estar do planeta…
    bem,pelo menos é o que eu tento pensar quando estou dentro de um vagão lotado do metrô,ou passando frio num ponto de ônibus…

    Você está certa em fazer esse exercício. Confesso fazer o mesmo, não só em relação ao carro, mas com quase tudo. O carro me faz muita falta em relação à família e suas necessidades. Pessoalmente, gosto de caminhar, ver as pessoas, as lojas e os acontecimentos. Não sou muito bom em transporte coletivo devido a certas fobias em relação a germes e bactérias, mas encaro na boa.

  4. Tô analisando se sou mais incompetente com o pé na bola ou no acelerador. Acho que tenho vocação para espectador e passageiro.

    E essa é uma vocação especial. Pena que os meninos lá onde eu morava não pensassem assim. 🙂

  5. Quando eu estava sem carro, eu me sentia como um
    atleta, subia a pé as ruas mais altas de Osasco sorrindo ou dando gargalhada, passei um bom tampo indo para todos os lugares de carro, até na padaria da esquina eu ia de carro, agora q meu carro deu um problema na embreagem, eu não consigo subir 50 metros de rua que já fico querendo desmaiar, o carro me ajuda muito mas tá acabando com a minha saúde…
    dou graças a Deus porque sei que ele é comigo…

    No momento preciso muito de um carro, inclusive para cuidar da saúde. Obrigado pela vista e comentário. Abraço.

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