A Gruta do Lou

Um ano atrás, a terceira cirurgia

 

Às 4:30 hs. do dia 10 de abril de 2013, dois enfermeiros entraram no quarto do Thomas anunciando o início da preparação visando a cirurgia. Banho, tosa e medicação pré-operatória. Às 05:30 ele estava pronto. Estávamos, os três, em clima de oração. Falamos pouco entre nós. Dedé e eu evitamos qualquer atitude que pudesse transparecer algum tipo de despedida. Sem fotos, choros ou prognósticos. Não consegui pensar em piadas, naquele instante.

A chefe a enfermagem trouxe a papelada incluindo as autorizações para os procedimentos a serem assinadas pelo paciente, que era maior de idade, ou por um responsável, a critério dele. Incentivei-o a assinar, como uma forma de dar-lhe mais confiança. Hoje considero essa atitude minha precipitada e uma das mais equivocadas em todo aquele processo. Falaremos disso oportunamente.

Um dos jovens médicos, residente, Dr. Vitor Hugo, apareceu e anunciou que seria realizado um novo Ecocardiograma antes da cirurgia. Aquilo pareceu meio fora de ordem. Ele tinha vários ecos prontos, inclusive um feito em DVD, com o coração em movimento, realizado na Unimed de Sorocaba, em máquina rara e especial a pedido do cirurgião. Então descemos para a sala de exame onde a Dra. Juliana, outra residente, nos aguardava. Ela é técnica em ecocardiograma e me passou a impressão de estar apreensiva, um pouco além do normal. Pareceu buscar algum ponto em especial e fiquei com a sensação de ter encontrado o que procurava e compartilhado com o Dr. Hugo, mas não consegui ouvir a conversa dos dois.

Dali subimos, encontramos a Dedé e rumamos ao elevador que leva ao centro cirúrgico. O doutor não estava na porta de entrada, apenas outro médico desconhecido por nós. Nos despedimos do Thomas e eu o abençoei, enquanto a Dedé lhe dava um longo e terno abraço. Ele disse algo para nos confortar, mas não seguramos as lágrimas, os três.

Segundo orientação da equipe, fomos encaminhados para a sala dos desesperados, apelido que demos ao lugar onde os familiares aguardam seu queridos enquanto estão sendo submetidos à cirurgias. Chegamos lá às 7:15 hs, daquela manhã.

A secretária do cirurgião, estava disposta a nos manter informados além do serviço de informação oficial do hospital, realizado através de um terminal telefônico instalado naquela sala. Durante todo o dia as cadeiras disponíveis foram disputadas por mais pessoas do que elas podiam suportar.

Não sei exatamente, mas suponho que a secretária nos trouxe a primeira informação extraoficial, por volta das 11hs da manhã, depois de uma solicitação nossa. A sala dela era bem em frente de onde estávamos. Dava conta de que tudo estava caminhando bem, sem qualquer intercorrência negativa.

Imaginávamos, tolamente, que a cirurgia deveria estar perto de terminar. Entretanto, até ao meio-dia não recebemos novas informações. Às 13 horas falei com secretária e ela me informou que ouvira alguém mencionar algo sobre o doutor haver mudado a cirurgia planejada, para uma cirurgia de correção total. Isso jogava a previsão de término, para o fim da tarde e nossas preocupações para a lua. Todas as informações chegadas, tanto as oficiais quanto as da secretária foram as melhores, até o anuncio de cirurgia encerrada. Eram 17:30, dez horas após o início.

Minha sogra chegou por volta das dezoito horas e logo depois a esposa do doutor, também cirurgiã cardíaca e membro da equipe do tal. Ela foi logo informando que tudo correra muito bem e que havia se oferecido para entrar na cirurgia, mas o doutor informando estar nos procedimentos finais, não aceitou sua ajuda, por não haver necessidade para tanto. Ela nos explicou melhor o que havia sido realizado e ficamos felizes por um lado, mas apreensivos por outro, pois sabíamos que agora a recuperação exigiria mais de todos, a começar pelo Thomas.

Uma hora depois, o próprio cirurgião apareceu, todo feliz e radiante por ter feito uma super cirurgia e ainda deu uma leve ratificada em seu posto de number one dos cirurgiões de cardiopatas congênitos, se não me falha a memória. Segundo ele, a única dificuldade foi manter sob controle um sangramento persistente, mas que não impediu a realização da cirurgia em seu todo. Fiz-lhe algumas perguntas óbvias, entre elas uma relativa às colaterais, que seria uma preocupação a priori, mas ele considerou aquilo sem maior importância.

Às 20:30 hs descemos para a UTI e fizemos a primeira visita ao nosso filho, evidentemente entubado e anestesiado, cheio de máquinas ao redor, tanto que mal conseguimos um espaço em seu corpo para tocá-lo. Ficamos ao lado dele por pouco menos de 30 minutos, falando-lhe palavras de carinho e incentivos, então fomos convidados a nos retirar, afinal não havia nada que pudéssemos fazer ficando ali, segundo o pessoal da saúde, presente.

Saímos de lá fomos arranjar autorização especial para permanecer na sala do desespero por mais uma noite, embora já houvéssemos perdido esse direito, pois nosso ente operado não estava mais em processo cirúrgico.

Esse é um dos temas que pretendo discutir muito enquanto viver: A importância de familiares presentes 24 horas nas Unidades de Terapia Intensiva como parte essencial da recuperação, tanto quanto no restante do processo recuperativo.

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