A Gruta do Lou

Tristemunhos

Em meus tempos de assiduidade na Igreja, ouvia muitos testemunhos, devidamente estimulados pelos pastores. Eu mesmo, vez ou outra, devo ter feito a minha parte.

Uma vez, uma senhora foi à frente e testemunhou o grande milagre que, segundo ela, Deus havia feito em sua vida. Resumidamente disse: Enfim, Deus me deu um carro. Essa semana fui à uma consessionária e comprei meu carro em 24 prestações. Deus é mesmo muito bom.

Fiquei com cara de boi. Qual foi a participação do senhor das alturas nesse negócio?

Outro cara, testemunhou que Deus havia lhe dado uma enorme graça. Havia levado sua esposa velha e cansada para o céu e lhe dado outra muito melhor, mais jovem e bonita. Sem comentários.

Passei a prestar atenção nos testemunhos. Tornei-me especialista. Minha pedra de toque é uma perguntinha básica: Onde Deus entra nisso?

Minha cachorra pastor alemão tem muita fé. Ela não faz absolutamente nada e, todos os dias, seu prato se enche de comida e o outro de água. Ela não ora, não dá graças (pelo menos, não formalmente) não faz correntes, jejum nem pensar e não dá contribuições para a Igreja. Seu pote continua sempre cheio. E, tão pouco, ela não diz que foi Deus quem lhe alimentou. Quando eu volto do Pet shopp ela está à minha espera e percebe de longe o que estou trazendo. Ela sabe que sou eu o homem. E devo confessar: Não sou Deus.

Seguramente, mais de noventa e nove por cento das coisas boas ou más, que atribuí a Deus, durante a minha vida, não tinham nada a ver com o divino. Em verdade, tenho só duas situações ainda indefinidas sobre a autoria. Nas duas, ouvi vozes como uma Joana D’arc. Claro que, durante muito tempo, considerei-as como fenômenos advindos do Senhor Celeste. Como sou mau. Mesmo sem ter certeza, imaginar que o Altíssimo poderia desviar um cisco de atenção para mim é de uma petulância insuportável. Quem eu penso ser? Hoje, tenho sérias desconfianças de minha sanidade mental.

Creio que Deus falou, fala e falará com seus santos e escolhidos, sem qualquer dúvida. Claro que Deus fala com o Silas Malafaya, com o Estevan Hernandez e a esposa, com o Benny Himm, com o apóstolo Jorge Tadeu e até com Rick Warren. Assim como falou com grandes homens no passado. Isso é óbvio. Mas, note a estatura espiritual desses baluartes da fé cristã. Eu sou um inseto ínfimo no cristianismo.

Além de falar, creio com todas as minhas forças em milagres. Você já viu como o Benny Himm derruba as pessoas com o paletó? Um milagre utilíssimo. Depois dessa queda, ninguém mais será o mesmo. Lá no Tio Cássio, nos tempos do JT, quando os pastores oravam com a mão na sua cabeça, você tinha que cair. Uma vez fizeram comigo e eu continuei bem em pé. Nunca mais fui considerado um crente, depois desse episódio. Não era para menos. Como eu poderia ser tão insensível ao Espírito? Aliás, essa queda está fazendo muita falta em minha vida espiritual. Sem dúvida, devo ter perdido miriades de galardões com essa atitude insensata. Fazer o que.

Eu conheço e invejo muitas pessoas que receberam seus milagres, de verdade, apesar de não serem tão conhecidos. Todos os aleijados e doentes foram curados, os cegos passaram a ver, os surdos a ouvir, os pobres enriqueceram e muito mais. Só eu e meus familiares não recebemos nada. Isso causa sérios problemas em todos nós, imaginem. Sentimo-nos os piores seres do planeta. Sei que não somos os únicos. Por isso temos a Gruta.

Adoraria, daria minha vida, por um olharzinho só em minha direção da parte de Cristo ou do Pai dele. Uma palavrinha ou uma graça, mesmo que das menores, seria a glória total. Passaria o resto de meus dias testemunhando, onde me dessem chance.

Mas, por ora só tenho, mesmo, uns tristemunhozinhos para dar. Sory.

6 thoughts on “Tristemunhos

  1. Oi Lou,
    é por isso que eu sempre me lembro do momento que Elias passou na gruta, 1Re 19:11-13.

    Deus não se revelou no feitos extraordinários como o vento que a tudo fendia, no terramoto e nem no fogo que a tudo queimava. Tão somente numa voz doce e suave. E quem a ouve tem o seu testemunho para contar. Acho eu.

    Abraços

    Filipe

  2. Lou,
    Sempre que venho aqui (e gosto muito de te visitar e ler) tenho pensado precisamente na passagem de Elias em 1 Reis 19. O grande Elias, com medo da Jezabel, carregado de auto-comiseração, entupido pela depressão e encolhido na gruta. Até que Deus vai ter com Ele e que lhe diz? Pergunta-lhe: “Que fazes aqui, Elias?” (1 Reis 19:9). Elias começa a defender-se e a desculpar-se ao que Deus lhe responde: “Sai para fora e põe-te neste monte perante a face do SENHOR.” (v.11). E outra vez: “Que fazes aqui, Elias?” (v.13). Mais desculpas. Então O Senhor diz-lhe: “Vai, volta pelo teu caminho…” (v.15).

    Lou, “sai” da gruta, amigo. “Vai” à luta e volta ao Caminho. O Caminho é muito melhor que a gruta.

    Deus te abençoe.

  3. Jorge e Felipe

    Vocês estão certos e entenderam muito bem a lição de I Reis 19, com Elias no papel principal. Se me permitem, quero transferir suas palavras a todos os irmãos e amigos cansados e deprimidos que se encontram em alguma gruta da vida, razão principal desse blog.
    Por alguma razão mais insana, decidi usar minhas próprias experiências e mazelas (verdadeiras) como retórica. Todo escritor acaba sendo auto-biográfico, mesmo quando escreve ficção.
    Então, agradeço sensibilizado suas preocupações e peço misericorida para com os sofredores e maltrapilhos desse mundinho.

  4. Já ouvi e li tristemunhos mas seus não. Um bom tristemunho que se preze tem de ser seguido daquele triste hino do “cão cego” 🙂

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