A Gruta do Lou

Tributo a Jobim e Vinícius

Bacana acompanhar esse pessoal capaz e que conseguiu um bom lugar ao sol. Hoje, a vida deles obedece a prioridades impensadas por um grutense como eu. Imagine se minha preocupação fosse investigar blogs e revistas evangélicas à procura de evidências anti-reforma ou cheiro de fundamentalismos baratos e irresponsáveis? Acho um luxo só, meus ex-colegas de seminário envolvidos nas questiúnculas relacionadas ao neopentecostalismo e/ou seus militantes milionários. Alguns escreveram livros sobre esses assuntos, tão relevantes, os quais publicaram com dinheiro do próprio bolso, até. Tenho uma grande obra de oito páginas que não sou capaz de publicar, nem em edição mínima.

Admiro todos eles, são uns tremendos vencedores. Sabe, ninguém acredita quando digo que, nos tempos de seminário, sentei-me ao lado de gente de peso como Kivitz, Zabatiero, Kepler, Rudemar, Bomilcar, Kerr e tantos outros craques da Bíblia e da música gospel. Até eu me pergunto, às vezes, por onde andavam meus pensamentos enquanto eles sugavam a essência da vida de Shedd, Lachler, Sturz, Stoll, Kachel, Irland, Marcílio e tantas outras fontes monumentais?

Meu, acho que divaguei demais, delirei demais, sonhei demais e perdi o bonde teológico, musical e filosófico, onde meus colegas passaram dando-me acenos.

Só pode ser isso, ou sou mesmo muito burro, como meu pai avisou-me milhares de vezes. Aliás, ele suavizava dizendo que eu era o grande filho de um burro. Grande cara meu pai. Ele me achava incapaz porque eu teimava em não ser como ele. Ele tinha talentos artísticos, em especial para a pintura e desenho. Vivia enaltecendo meu irmão que manifestava os mesmos talentos. Eu queria mais era ser totalmente diferente do velho. Mas, uma vez, só para encher o saco dele, fiz um desenho usando o método de aprendizado do meu irmão. Era o retrato do Castro Alves (bela porcaria) e meti entre os desenhos do idiota, depois de mostrar à minha mãe, minha avó e até à empregada. Quando meu pai viu o desenho (ele fuçava a pasta diariamente para locupletar-se nos trabalhos do filho igual), danou a deitar elogios ao desenho, chegando a dizer que nem ele próprio teria feito algo tão perfeito. Quando soube quem era o verdadeiro autor da proeza, ficou com cara de boi. Considerei o fato como minha formatura em desenho e nunca mais voltei a essa arte menor.

Enquanto eles eram elevados ao ministério pastoral eu carregava minha mala de propagandista do Aché, das sete às sete ou dava aulas intermináveis de Educação Física. Depois, quando galgaram as catedras da mesma escola onde estudamos juntos ou até outras mais importantes, eu dava aulas no Jovens da Verdade, Faculdade Metodista livre e ESTE, essas porcarias,  sempre após um duríssimo dia de trabalho em minha sofrivel empresa.

Isso me lembra o extraordinário livreto “O Outro Mago” de Henry Van Dyke. Esse cara era um grutense da gema. Enquanto os outros três viram o Menino Jesus e o presentearam, ele esteve a salvar vidas e nunca chegou à gruta de Belém.

Mas está tudo bem. Existiria verdade, verdade que ninguém vê, se todos fossem, no mundo, iguais a você. (Colaboração dos imortais Tom Jobim e Vinícios de Moraes). Um homem precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver; disse o notável navegador brasileiro Amir Klink, em seu excelente livro ” Mar Sem Fim”.

Enquanto meus companheiros de seminário dirigiam cultos e lecionavam sobre o que nunca viram, eu andava por esse mundo afora, como um simples aprendiz das coisas como elas são, em viagens que eles chamaram de exóticas ou as consideraram desnecessárias. Enquanto gastei meu tempo de vida jovem entre cristãos sofredores do leste europeu ou cristãos maltrapilhos da África ou de áreas remotas desse Brasil varonil, eles estudaram e leram muito. Hoje, eles escrevem e falam muito melhor do que eu, sobre o que eles não fazem a menor idéia.

Sei o valor de uma casa própria, pois não tenho uma e sou um dos mais assíduos réus das ações de despejo dos nossos justos fóruns cíveis. Sei a falta que faz  ser livre segundo o ayon tós kosmos (curso desse mundo). A liberdade custa dinheiro, coisa que não disponho, pois estive “servindo a Deus” (embora Ele nunca tenha me solicitado semelhante asneira), algo que não é lá muito lucrativo. Se eu tivesse pastoreado uma Igreja Batista qualquer a história seria outra ou mesmo me bandeado para algum marco dissidente a favor da prosperidade.

Esse não é um manifesto da inveja pelo ciúmes. Meus leitores devem tomá-lo como uma advertência. Quando eu era jovem, encontrei um evangelista em seu leito de morte. Ele estava triste e me disse: “Eu nunca devia ter sido um evangelista. O sofrimento que impus à minha família e a mim mesmo não compensaram. Devia ter pensado neles e dedicado minha vida ao ministério pastoral.” Era o aviso e não dei ouvidos. Também poderia ter deixado o sonho cristão e me dedicado à vida empresarial. Quando tinha minha empresa e, ao mesmo tempo, lecionava em quatro seminários, pensava diariamente em abandonar minha empresa. Nunca pensei em abandonar os seminários. Que trouxa. Onde estão meus alunos, meus colegas e meus amigos, agora?

Está lá em Eclesiastes. Salomão sabia o que estava dizendo. Tudo é vaidade, inclusive blogar (essa parte é minha). Então que diabos eu ouvi e não fui tratar de minha vida? Se tudo é vaidade, deveria ter escolhido uma mais conveniente às minhas necessidades, ter sido mais egoísta e ter tido mais amor próprio individualista.

Mas vivemos em um mundo onde as diferenças e as pessoas diferentes são necessárias. Se os feios não existissem os bonitos não poderiam ser arrogantes. Tudo seria muito diferente, se todos fossem no mundo iguais a você. Viver seria uma maravilha.

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3 thoughts on “Tributo a Jobim e Vinícius

  1. Oi Lou !! cara, vc tem a manha de tocar meu coração e falar em minha alma…. parece que vc realmente sabe o que gente esquesita (z ?) sente…sabe, trabalhei anos a fio na obra de Deus( e demoreeeeeeiiii pra descobrir que não era “exatamente” isso que Deus me pedia ) e fui manipulada e submissa a esses “doutores neofundamentapentecostais da nova-velha onda prosperofísica do aproveitamento da ignorancia alheia”, mas Deus me libertou LITERALMENTE., mas confesso, sinto uma tristeza enorme dentro de mim, e tá difícil de passar…mas vamos em frente… desses seus colegas de seminário (alguns conheço) não podemos viver tudo o que dizem ou falam, por causa do “recheio fermental” que encontramos em suas palavras. Falta-lhes a sua experiencia, sua sabedoria e sua transparencia … e como é difícil os homens-de-Deus serem transparentes, não é ??….
    Grande Tom e grande Vinícius, espero encontra-los cantando uma linda bossa nova aos pés do Senhor. Quem sabe ?
    beijos pra vc

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