A Gruta do Lou

Tratar dependentes químicos causa dependência

Recém formado pela Faculdade de Educação Física de Santo André, consegui meu primeiro emprego fora do circuito das pré-escolas particulares, era uma clínica de “recuperação para dependentes químicos”. Meu trabalho era fazer os caras se mexerem, promovendo as trocas gasosas (um exercício meio em desuso, se é que isso seja possível) e um pouco de relacionamento com espírito esportivo.

Não demorei muito a perceber que, em termos de causar melhora absoluta e eficaz, meu trabalho tornara-se imprescindível. A ele somava-se a alimentação rica em carboidratos e o sono abundante. As intervenções psico, sejam lógicas ou átricas contribuíam negativamente no processo, apenas causando demora e inviabilizando os recursos naturais.

Entretanto, com o passar dos anos, o corpo de psicólogos e psiquiatras cristãos ou não agiu corporativamente e convenceu a sociedade de que essa demanda, cujo crescimento continua em ritmo geométrico, lhes pertence, apesar de seus métodos sem comprovação científica e seus medicamentos paliativos, como informa o médico palhaço Pat Adams.

O tempo passou e depois que deixei aquela clínica, por razões paradoxais e capricho divino, o diretor à época foi assassinado por traficantes, provavelmente por dívida referente à aquisição de drogas.  A chácara onde funcionava virou cidade fantasma, até que Estevan e Sônia Hernandes foram levados ao local pelo advogado herdeiro do espólio que inclua o lugar, e eles o transformaram em um centro para acampamentos e convenções da Igreja Renascer.

Em minha caminhada acabei sendo convidado pelo Pr. Inácio Marchette a trabalhar no Esquadrão Vida de Sorocaba. Agora você já sabe como vim parar nessa cidade maravilhosa, para os sorocabanos. Minha função seria restrita à área de comunicação e marketing, especialidades que acrescentei ao meu currículo a partir dos anos oitenta. Mas o Inácio mostrou-se um cara dinâmico e extremamente pragmático e tratou de concentrar seus investimentos no lado do marketing de tratamento, para a qual eu não tinha nenhum treinamento. Como me ensinou o Dr. José Cândido de Mello, meu avô paterno, contra a força não há resistência, então voltei ao tratamento de dependentes químicos e acabei dirigindo uma clínica na região de Piedade, aqui perto. Depois de um ano, consegui fechar o lugar a bem da ciência da recuperação.

O Inácio deixou o Esquadrão Vida para os evangélicos e iniciou uma clínica com fins lucrativos. Com sua habitual competência para os negócios, cresceu rápido e voltou a ser um expoente no negócio de recuperação. Devido à minha militância nessas paragens, tornei-me uma referência e continuei sendo procurado para ajudar a solucionar casos críticos. No Brasil, o tratamento começa um pouco antes do fim, o do não há mais jeito. Em linguagem de recuperação: a um passo do fundo do posso poço ou nele, propriamente dito.

As clínicas do Inácio e as outras grandes promovem tratamento onde os psiquiatras e psicólogos são as estrelas e os profissionais de outras disciplinas os coadjuvantes. Seus métodos consistem em injetar tóxicos farmacológicos, psicotrópicos e cascatas terapêuticas, em detrimento das trocas gasosas, um sistema natural para expelir toxinas do corpo humano. Os “pacientes” passam três ou quatro meses nessas casas se preparando para voltar à ativa, em breve. Sem alternativa, sou obrigado a enviar dependentes para lá, algumas vezes a fim de ganhar tempo. Gostaria muito de fazer um trabalho via digital que atingisse escolas, igrejas, sindicatos, etc. para fazer a prevenção em tempo de evitar a dependência. Esse é o melhor tratamento para a dependência química.

2 thoughts on “Tratar dependentes químicos causa dependência

  1. Lou, tive que ler 12 postagens!!!
    A melhor, sem dúvida foi sobre “A Penúltima”.
    Acho, inclusive, que a penúltima foi a mais importante.
    Enquanto os cristãos e homens de boa vontade não derrubarem o capitalismo, não há salvação.
    Salvo engano.

    Você ficou fora durante doze longas postagens grutenses? Foi para onde, Sibéria? Vem cá, você não teria visto Deus pescando por lá?

  2. Lou Melo, agora dou risada da sua implicância com os psi… #toaprendendo.
    Penso que você não conhece a Análise bioenergética, derivada das pesquisas de Wilhelm Reich sobre a interface corpo e psiquê. Quem sabe aí você encontre uma forma de compatibilizar o seu conhecimento com o nosso e, em vez de excluir, possa agregar… #esperançaquenãomorre

    Ah! Não tenho nenhuma dúvida quanto a esse ponto. Se fico doente, fico triste, conseqüentemente, e vice-versa. Meu problema com a psicologia é relacionado à teologia, sem a qual, a psicologia não existiria. O primeiro pressuposto da teologia é o pecado original e a culpa compulsória. O problema é que trata-se de uma falsa crença, muito bem bolada para gerar/justificar a culpa. Eis que surge a psicologia para resolver o problema da culpa e suas implicações, como alternativa, claro, pois a teologia propõe a solução, ou seja, você… a Graça, não a psicóloga. 🙂

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