Teologia da Libertação através da Escravidão?

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 O Pe. Jung Mo Sung postou essa mensagem, ontem à noite no Twitter, como segue:

Jung Mo Sung

“Não cobiceis a mulher e as coisas do próximo”: sabedoria q vem de Deus e q se opõe à cultura capitalista q fomenta o desejo de ter

Costumo dar uma olhada rápida pelas mensagens em meu perfil, no Twitter e, quando bato o olho em algo que acende alguma luz em minha mente, paro e verifico em três estágios: 1) Merece atenção? 2) Classificação (Bizarro, interessante, legal, etc.) 3) Providências (comentar, retwittar, avacalhar, escrever post, etc.). A mensagem acima cumpriu as três fases, azar do Sung.

Antes de mais nada, e só botando ordem no galinheiro, vamos usar uma versão bem aceita do texto bíblico em questão, ou seja: VRA de Almeida Êxodo 20: 17

“Não cobiçaras a casa do teu próximo. Não cobiçaras a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem cousa alguma que pertença ao teu próximo.”

Teologia da Libertação através da escravidão? Será?

Não sei se você notou, mas o Sung mistura alhos com bugalhos em uma frase, imagine o que ele pode fazer quando escreve um monte delas. Cobiça e Desejo não são, necessariamente, sinônimos. Temos que dar um desconto para o Sung, aqui, porque os imbecis, gente da laia do Houaiss, Aurélio Buarque, Micaellis e outros meliantes da língua pátria, resolveram jogar as duas palavras dentro do mesmo cesto, sem o devido cuidado. Se ele faz isso por não saber o significado das palavras, vá lá, entretanto, se ele souber, isso sim será um problema.

Não se deixe enganar pelo nome todo oriental do pequenino padre. Ele fala português direitinho, tem doutorado proveniente de escola brasileira e dá aula na insuspeita Universidade Metodista em Rudge Ramos – São Paulo, onde por pouco não me fiz aluno de mestrado, traindo minhas convicções anti acadêmicas, embora tenha cometido esse pecado, em parte, aqui em Sorocaba e em outras dessas arapucas paulistanas. Não se preocupe com o termo arapuca que para mim não tem significado pejorativo, mas é só um instrumento antiecológico muito usado na caça aos passarinhos, a fim de subjugá-los, contrariando sua natural liberdade de voar livremente.

 Continuando na vaca fria, vejamos o significado das palavras no pai dos burros:

 Cobiça

Substantivo

co.bi.ça
feminino

Etimologia

  1. Do latim
    cupiditia
    (

Desejo

Substantivo

de.se.jo

  1. aquilo que se deseja

Etimologia

Do latim desidiu.

Repare que se cobiça pode ser entendido como um desejo veemente de possuir, o popular tesão, então o substantivo desejo, sem adjetivação, não teria essa força. Uma pessoa pode desejar um monte de coisas sem pecar, enquanto cobiçar sempre será pecado porque diz respeito ao que está do outro lado da cerca, do muro, nas terras do vizinho, onde tudo é proibido desejar, qualquer coisa, particularmente com tesão e pior ainda se for a mulher do cara.

Podemos avançar mais, lembrando que não será pecado desejar uma mulher (as mulheres devem inverter isso e não tomar ao pé da letra, por favor) que não seja de qualquer vizinho, desde que você não pertença à vizinha de algum de seus vizinhos. Lembre-se que o Deus ocidental considera a poligamia pecado.

O que estou querendo dizer, na forma assertiva, é que cobiça é um pecado de cunho eminentemente sexual, pois sempre que o desejo envolver o prazer de não me pertencer, o gozo promíscuo, já será cobiça, seja por coisas ou por uma boa vizinha. A questão desse mandamento imoral (nos nossos dias) diz respeito à paixão sexual proibida, ou o prazer absolutamente erótico ou cupidico ( da raiz cupiditia, de onde vem cupido) que alguém sente pela mulher ou coisa alheia.

Nosso primo na fé, o Padre Sung, não porque ele seja católico, mas muito mais por eu não ser p… droga nenhuma, entende cobiça como o desejo simples de ter, que não é pecado, em si. Será pecado se, mais uma vez for adjetivado, como imagino que ele suponha, com a ganância, embora não um pecado bíblico ou muito menos pertencente ao decálogo, vulgarmente conhecido como Lei. Assim não fosse, a moral judaica seria muito diferente. Desejar para a prosperidade é a cara deles e dos povos por eles influenciados.

Vale dizer também que o sexo com a mulher do lado de cá do muro, mesmo sendo prazeroso e apaixonado, não implica em cobiça, tanto quanto o desejo pelas coisas ai presentes. Desejar sexualmente a própria mulher jamais será cobiça, percebe? Também não estarei cobiçando se meus desejos trouxerem para dentro de minha casa meus objetos de desejo, desde que tenham sido legalmente adquiridos.

Equivoca-se o padre quando culpa a cultura capitalista, seja lá o que isso venha a ser, pelo desejo de ter. Muito antes do capitalismo estimular o consumo a bem de si mesmo, o protestantismo seguindo na esteira do judaísmo já incentivava o povo a ter. Gente como Calvino e seus badalos entendia isso como uma prática saudável ao desenvolvimento das nações. Assim pensou o sociólogo Max Werber quando viu o capitalismo florescendo na trilha do protestantismo. Enquanto isso o rastro deixado pelo cristianismo católico era pavoroso, precisamente onde se situa a parte de baixo da linha da miséria (Vide América do Sul, América Latina, África, partes imensas da Ásia e tal.

Mas o Papa e seus comandados nunca ensinaram outra moral que não fosse essa que o Sung acredita, que o desejo de ter seja pecado, embora em sua prática, muitos dos colegas de ministério do Sung prefiram não considerar a cobiça, o pecado da paixão pelo sexo com tudo o que mora do outro lado do muro, especialmente com os garotos.

Para consideração final, me parece apropriado lembrar que os Estados Unidos, maior berço capitalista do planeta, está em franca decadência, e um pouco de catolicismo, ou como prefere o Sung, de moral católica por lá não faria mal, pois seu consumo louco e ganancioso pode matá-los de vez. Enquanto isso, nossa mentalidade católica e cheia de culpa, que nos faz sentir idiotas sempre que adquirimos um reles Iphone ou uma insignificante Harley para nossos passeios sabatinais vespertinos, é uma diabólica inimiga nos impedindo em nossa vocação de ter, com muita alegria carnavalesca e futebolística.

A diferença é que estamos começando a sentir o gosto de satisfazer nossos desejos de ter e ainda há uma infinidade de coisas que ainda não temos, começando por um teto próprio para abrigar-nos. Ainda estamos longe de enfiarmos o pé na jaca da ganância, com nossa mentalidade empreguista e servil. Falta-nos a experiência da iniciativa privada e isso demandará um ou mais séculos para ser estabelecido, se os lulistas deixarem.

Meu conselho óbvio é: Sung, você já cogitou mudar para os Estados Unidos? Eles precisarão muito de gente com você por lá, em breve. Deixe-nos desejar em paz, nós não temos vocação para a cobiça, tirando uns e outros nacos podres do balaio. Mas não é nada pessoal, Sung, apenas negócios.