Teologia Brasileira

j0316769
Do Baú da Gruta 22-01-06

Tempos atrás, participei de um encontro da SETE, braço da SEPAL voltado aos seminaristas. Meu papel foi dirigir um workshop sobre entidades cristãs voltadas ao social.

Como preletor principal, trabalhou o Julio Zabatiero e o tema dele foi “O reino de Deus”. Ainda tenho comigo o esboço dessas palestras. Lembro-me das intensas citações a George Eldon Ladd. Por causa delas, adquiri dois livros ótimos “The Gospel of the Kingdom” e “The Presence of the Future” desse autor e sem tradução em português (que eu saiba). Também foram citados vários teólogos latinos ligados à teologia da libertação.

Uma afirmação do Julio me incomoda até hoje. Disse ele, lá pelas tantas, não existir uma teologia brasileira. Mesmo a participação de teólogos brasileiros na teologia da libertação não supriu essa lacuna, pois a teologia da libertação era latina hispânica e, nesse universo, nós sofríamos certa marginalização, por não sermos hispânicos.

Sempre desconfiei desse negócio dos rotulamentos. Eu já existia quando criaram o Terceiro mundo. Antes disso éramos muito mais prósperos. Vivíamos em um país onde as pessoas recebiam um pagamento honesto por uma jornada de trabalho honesta. Quem sustentava a família era o pai. As mulheres eram femininas e gostavam do papel maternal a elas dedicado.

Nesse sentido, a teologia da libertação contribuiu para ratificar nossa condição de terceiro mundistas. Fomos nivelados às nações hispânicas socialmente subdesenvolvidas como a Bolívia, o Paraguai, Equador, Peru, Venezuela, Colômbia, Guatemala, El Salvador, Nicarágua, etc. Também jogaram nesse saco países hispânicos bem estruturados e desenvolvidos como Argentina, Chile e Uruguai, que assim, decaíram e aproximaram-se dos outros.

Enfim, nos convenceram ou condenaram ao limbo, no bando dos miseráveis e nós aceitamos isso.
Mais tarde, fomos considerados como um dos países em desenvolvimento, quando descobriram que éramos a oitava economia do mundo e trataram de liquidar com ela, com a ajuda dos nossos governos omissos e subservientes aos interesses internacionais.

Mas, em meio a tudo isso, volta a questão da teologia e percebo não haver, de nossa parte, nenhuma contribuição relevante.

A Igreja cristã não católica no Brasil mantém-se à margem ou, pior, une-se à escória. Não sabemos em que cremos. Quem é Deus, Jesus Cristo, a Igreja, a salvação, o espírito, a família, o homem para nós. Em que nós cristãos brasileiros pensamos e acreditamos? Minha sensação é de sermos um povo a repetir as bobagens ensinadas pelos neo-teólogos norte-americanos. Não nos damos conta para onde essas boçalidades estão nos levando ou já nos levaram.

Nós aceitamos isso e a mediocridade latina porque não tínhamos nada. Max Weber já tinha demonstrado que a riqueza se processou na esteira do protestantismo calvinista e a pobreza na esteira do catolicismo. Deixamo-nos levar por esses ventos. Passamos a acreditar em um cristianismo não reformado e pré-luterano, ensinado pelos missionários norte-americanos e hispânicos dissidentes da teologia calvinista.

Não temos a teologia calvinista e não temos nada, na verdade. Qual a diferença feita pela Igreja cristã nessa mudança que nos transformou em povo do terceiro mundo? Estamos pobres, em todos os sentidos, porque nossas crenças são frouxas e nos torna subservientes.

Estamos dividindo nossa espiritualidade e riqueza (os restos que não são pagos aos países ricos em forma de juros e diferenças monetárias) entre indivíduos, ao invés de dividirmos entre as famílias.

Pusemos a mulher e os jovens no mercado de trabalho e desempregamos os pais e maridos. Por quê? Primeiro porque os comunistas foram mais rápidos do que os cristãos, via Teologia da Libertação e, depois, porque passamos a crer na teologia da prosperidade, cura interior, células, propósitos e todas essas heresias grotescas. Deus não é mais deus da Igreja e da família, do pai, da mãe, dos filhos. Deus agora é deus do indivíduo. Assim nos ensinam Rick Warren, Kennet Hagin, Beny Hinn, Morris Cerulo, Edir Macedo, Cesar Castelanos, Estevan Hernandes e esposa e seus seguidores.

Talvez Barth tenha razão e o inferno seja aqui e agora. Reino de Deus é que não é. Ah! Mas um dia eu morrerei. Então, irei para o céu e lá conhecerei o verdadeiro Reino de Deus. Já sabemos qual é a resposta a essa bobagem. Quero ser como um Neemias aqui e agora. Quero construir o muro já. Não quero andar dizendo que estou cheio do espírito quando meu íntimo está vazio. Quero o Reino de Deus já e aqui, no Brasil.

Caso contrário, contratarei um coiote e imigrarei para os EUA ou Inglaterra “The Holy Land where ‘In God we trust’”.

lousign