O medo da morte

Em três anos, escrevemos muita teologia por aqui. Falamos da teologia da morte dos protestantes em oposição à teologia da vida de Cristo e tantos outros temas. Nosso propósito, se o Warren e o Ed me permitem, tem sido combater as falsas crenças, os exageros e as falácias mais escandalosas. Essas coisas escravizam as pessoas. A Gruta tem sido um lugar de amparo às vítimas desses males.

Nossas rubricas estão bagunçadas. Faz tempo que me proponho a colocar ordem nisso, mas ando procrastinando, até isso. Imagino colocar tudo que foi falado e escrito a respeito desse tema sob a rubrica “A Teolougia da Gruta” ou Teolougia de Quintal. Nada muito ambicioso. É que as coisas foram acontecendo e me parece haver algo bem aproveitável por aí. Claro que manterei tudo bem escondido. De repente a Cia das Letras descobre e vai querer publicar. Não, continuo em meu roteiro “low profile” e devo encerrar meus dias por aqui, assim. Depois vocês façam o que desejarem, inclusive, publicar tudo como se fosse seu, tá limpo, desde que deem o produto aos meus descendentes, obvio.

Quando falo sobre a morte, a minha no caso, logo meus amigos me repreendem. Na verdade, esse cuidado me surpreende. É sim, fico com a aquela sensação meio estranha de que os caras acham que não acontecerá com eles. Mais ainda, me passa a idéia de que estou infringindo o artigo 17428 da secreta lei da existência, onde reza expressa proibição de se falar da própria morte. Eles imaginam uma espécie de mortalha, onde o cara prepara tudo e depois morre. Como fizeram aqueles estúpidos faraós do Egito, deixando aquelas abominações piramidais que ainda duram. Sinto haver no receio de meus amigos crenças ainda mais funestas, tipo: se falarmos da própria morte, estaremos atraindo-a para nós e abreviando nossos dias por aqui.

Para mim, tudo isso é uma grande bobagem. Talvez minhas andanças com os mestres samurais tenham mudado meus conceitos cristãos sobre a morte. Dominar a arte é encontrar a vida, pois ela começa quando perdemos o medo da morte. Eu era pouco mais do que um menino quando me confrontei com meu primeiro mestre. Infelizmente meu alzaimer levou o nome japonês dele, ou estou precisando diminuir a vodka. Era um jáponezão, quase não falava português e dizia chamar-se Mário, por ser mais fácil para nós. Era professor de Judô, mas não se preocupava quase nada com a luta em si, ensinava a Arte, pois era um Mestre. Minha mãe combinou as aulas com ele e saiu para me comprar um kimono, me deixando com aquele cara enorme que mais parecia um lutador de Sumô, vestido em um kimono velho e surrado. Sentei no tatami sob o olhar do mestre. Depois de um silêncio mortal de alguns minutos ele me disse de supetão: eu conheço você. Você é um mestre. Fiquei pasmo. De onde seria? Como um adolescente meio banana como eu poderia ser um mestre? Começamos a praticar, meu primeiro exercício e depois a primeira seqüência. Acho que me sai bem, mesmo sem kimono.

Minha mãe voltou com o kimono, entregou-me e foi embora. Pedi licença e fui ao vestiário vestir a coisa. Tirei minha roupa e comecei aquela dança ridícula de tentar vestir aquela geringonça estranha. Tirei e coloquei várias vezes, parecia haver algo errado, mas tinha vergonha de sair e perguntar ao mestre, na frente de todo mundo, como vestir aquilo. Percebi estar sendo observado, virei e quase morri de susto, era uma garota, uma japonesa e ela estava no vestiário me assistindo trocar de roupa, provavelmente me vira de cueca. Mas ela veio em minha direção com um espetacular auto controle do tipo gueixa e me ajudou com o kimono. Depois disse: agora está certo, pode voltar para sua aula. “Ah! Sou a Vilma , filha do Mário, seu professor. “

Voltei e sentei no tatami perto dos outros meninos. Não demorou e o Mário me chamou. Usou um menino mais velho que a maioria ali, provavelmente devia ser corinthiano, pois usava uma faixa preta prendendo o kimono branco e pediu para ele me mostrar uma passagem. Fez isso com a ajuda do Mário. Saiu do chão de um lado, passou sobre as costas do mestre, com suas costas e caiu do outro lado, deitado no tatami e dando um urro estranho. Em seguida me disse, para repetir o mesmo exercício, passando sobre as costas de meu colega. Hesitei, um pouco e o mestre me perguntou: “Que foi, está com medo de morrer?” Respondi de bate pronto: “Não tenho medo de morrer”. “Você é um mestre”. Repetiu. “Por que não tenho medo de morrer? Perguntei. “Sim, o fim de toda a arte é perder o medo da morte”. Disse o mestre.

Jesus era um samurai, sem nunca ter estado no Japão. Não temia a morte e sua teologia era uma grande apologia à vida. Para andar como ele andou, precisamos dominar a arte de viver, que começa com a perda do medo da morte.

Ah! As diferenças…

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D. Viviana, uma irmã querida de Portugal, esposa de respeitável pastor batista, seguramente uma das boas exceções nesse universo pastoral meio esculhambado, ora por causa do neo-pentecostalismo ora pelos xiitas de direita e esquerda, sempre de plantão para destruir. Ela própria uma grande alma, que viemos a conhecer via blog, perguntava nos comentários: por que tantas diferenças?

Em meio a tantas perguntas sem respostas, estamos organizando um encontro de desenvolvimento marcado para dia 09 de dezembro. Discutir aspectos éticos da captação de recursos me parece muito relevante, nesse momento, quando tanto o mundo secular quanto a igreja mandaram a ética da captação para o espaço. Espero que, pelo menos, alguns se interessem em participar, além de mim e alguns amigos do peito.

Depois o pessoal diz por aí que eu sou o louco vagabundo. Sou, mas alguns dos meus ex-colegas de seminário e outros desse mundo esquecido por Deus andam a passos largos na minha frente. Ainda sinto alguns constrangimentos diante de certos pecados. Pô! Um sujeito que além de ter feito seminário, fez mestrado nos Estados Unidos, com concentração na área teológica, inventar heresias do tipo: “fim da oração”; é inominável. Mesmo que o Raniel viesse com um decreto assinado pelo Conselho de Anjos, onde se destacassem as firmas de Miguel e Rafael, sair por aí com essa conversa é irresponsabilidade da grossa. Até o Raniel sabe que não se pode mexer na estrutura de um prédio com gente morando dentro dele.

Meu, um cara que tinha uma equipe de intercessão em sua Igreja, das maiores que se conheceu, de uma hora para outra, sair com essa, é insano. Jogou as velhinhas na lama e pisou na cabeça delas com força, até não vê-las mais, como foi o caso da líder dessa equipe e suas companheiras de súplicas. E a pessoa por quem elas mais oravam era o infeliz que lhes cortou a cabeça. Uma coisa é certa, a oração delas não funcionava. Mas daí a acabar com a oração… Pera lá! Elas se sentiam bem fazendo aquilo e isso faz toda a diferença. Espero que tenha sido só um grande mal entendido. Pastores são prolixos e umas bestas quadradas em termos de expressão, salvo exceções. As congregações costumam ser formadas por um bando de gente infantilizada e ignóbil. Daí pode ter havido grande confusão, embora não pareça ser o caso, infelizmente.

Não menos preocupante é a legião de seguidores obnóxios desses caras. Ficam por aí replicando textinhos vagabundos de um palhaço egoísta como esse. Se querem replicar porcarias escritas por um paspalho, aqui na Gruta há enorme arquivo, sirvam-se. Pelo menos, não cancelamos a oração, a comunhão, a leitura, o estudo bíblico e todas essas bobagens religiosas que praticamos há dois mil anos. Se houvesse alguma igreja que não fosse empresa lucrativa, mas uma comunidade de adoradores, em verdade, estaria por lá, também. Ser aristocrata e discutir a pobreza são hipocrisias que eu não sou capaz de suportar.

Onde residem as diferenças? Minha história registra os mais evidentes sinais e provas da minha incompetência. Para azar de minha família, não descobri isso a tempo de evitar cometer tal desatino e as maiores vítimas são minha esposa e meus filhos. Mas consegui evitar abrir uma igreja ou pastorear uma denominacional a tempo. Devia ter seguido sozinho minha sina de professorzinho de Educação Física e, jamais, ter incorrido nos equívocos conhecidos. Agora a Inez é morta e o leite está todo derramado. Por isso vivo correndo atrás da linha da bola, como prefere o Dunga. À minha frente está o prejuízo e lá longe, onde não consigo divisar, vai o sucesso.

Pelo menos não me coloquei em posição de estropiar a vida espiritual de quem quer que seja. Adoraria ser capaz de orar mais e melhor, sentar ao lado dos irmãos em cristo para estudar a bíblia nos domingos pela manhã, ouvir uma boa e motivante pregação e, antes de voltar para casa, dar um abraço forte em cada um dos meus parceiros em Cristo. Por isso prezo de todo meu coração essa gente piedosa que ora sinceramente e o faz de joelhos no chão. Gente que carrega a bíblia aonde vai me emociona. Eu sei, sou mesmo um grande tolo. Sorte desses malucos teológicos que eu não sou capaz, sequer, de mandar vir fogo do céu sobre a cabecinha deles. Se o céu mandasse sobre a minha, seria decisão acertada, também, desde que meus queridos não ficassem piores do que já estão.

Por isso há tantas diferenças, somos um grupo de incompetentes vivendo junto com alguns competentes. Deus, coitado, não tem nada a ver com essa história. Na verdade, Ele se esforça para diminuir o prejuízo. Até o seu único filho foi sacrificado contra a vontade dele para ajudar esse bando de párias e picaretas. Fazer o que?

OPS:

O encontro para uma conversa sobre Desenvolvimento (Relações Públicas e Captação de Recursos) Será na sede da ADVB – R. Treze de Maio, 1413 – Bela Vista – São Paulo – SP Dia 09 de dezembro a partir das 13:30 hs Fica perto da estação Brigadeiro do Metrô.

Presenças confirmadas:

Fábio Adiron, Andrezza Cadete Barletta, Volney Faustini, Majory Imai, Ozimar Pereira, Ana Camila Bertozzo Silva, Ludo, Bete P. da Silva, José de Souza Queiroz, Nelson Costa(de alguma forma), Larisa Hemkemeier, Florianópolis-SC , alguns outros já confirmados, eu e você. Não deixe de confirmar, por E-mail. Ah! Divulgue entre seus leitores e amigos, por favor, especialmente aqueles mais ligados à filantropia.

Obs da obs:

No dia 09 de dezembro de 2008 esse encontro aconteceu e alguns dos nomes acima e outros aparecem lá e foi muito bom para todos, se não me engano.

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Arrependimento, a chave do coração de Deus

A leitora esporádica Michelle, passou por aqui hoje e fez um comentário pouco calmo em um dos meus posts. É aquele onde inicio chamando o Senhor Jesus de fanfarrão. Claro que o faço olhando do ponto de vista de algum ateu, perplexo com as ousadias do mestre. Mas a Michelle, tadinha, não acompanhou a minha ironia e apontou sua metralhadora em minha direção e ameaçou: Arrependa-se ou vai se arrepender!

Teologias falaciosas têm a capacidade de mudar meu foco instantaneamente. Esqueci a arma apontada em minha direção enquanto meus pensamentos escapavam na direção dessa falsa premissa. Imaginem se o arrependimento possuísse mesmo essa capacidade. Começando por livrar a cara da blasfêmia nossa de cada dia. Deus é um panaca e o filho dele um babaca. Ops! Desculpa aí coroa, já me arrependi. Foi mal.

Se fosse esse o dogma, bastaria ao Bush, agora, achar o cantinho do salão oval (essa eu queria ver) ajoelhar e dizer a Deus: Oh, me arrependo de ter mandado derrubar o Word Trade Center com intenções de arrumar um bom motivo para invadir o Afeganistão e o Iraque, destruir as provas da fraude de minha primeira eleição e, claro, diminuir um pouco o elevado número de imigrantes brasileiros, argentinos, iranianos e toda essa gentalha. Pena que alguns americanos tenham ido junto, mas eram todos pobres. Também me arrependo de manter a guerra durante os meus dois mandatos, mas nosso povo precisa de heróis e manter a supremacia mundial, sem falar no detalhe do nosso petróleo estar acabando. Melhor prevenir que remediar. Morreram mais alguns milhares, mas oh, estou arrependido. Se não mantivermos todo mundo focado nisso, eles perderão o respeito. Me arrependo de ter deixado a economia desandar, apesar da culpa maior ser do Grispin, que pulou do barco. Arrependo-me de ter me metido nessa embrulhada toda, pior ainda, lembrar de quantos whiskies deixei de tomar, esse tempo todo, para manter certa postura.

Nesse caso, nem precisaria ser um arrependimento sincero. Deus é meio bobo e não percebe quando estamos sendo sinceros ou não. Essa é outra falácia inventada pelos fundamentalistas. Ele quer mais é arrependimento. Cada oração de arrependimento realizada aumenta as estatísticas favoráveis e o departamento de propaganda do céu pode divulgar na mídia o bom desempenho de seu governo extremista.

Lembrei daquele idiota que acreditava ser o arrependimento condição essencial à sua salvação. Trouxa! O perdão de Deus é incondicional. Muito melhor ainda, muito mais do que nós imaginávamos. Bush não precisa mais achar um canto no salão oval. Está perdoado, mesmo tendo sido o maior crápula desse século, até aqui. Certamente, outros virão. A Telefonica é seria candidata a desbancá-lo. O Barack que se cuide, caso contrário, pode ficar com a taça. Morro de mede dele arrumar os EUA e desarrumar o resto do mundo. Na eternidade teremos Bush à direita e, ninguém menos do que, Adolf Hitler à esquerda ou vice-versa, fora Sandan, Collor, Marta, Severino, Lampião, Idi Amin, Chaves, Morales, xiiiii e eu.

Arrependam-se, o Reino de Deus chegou.

Autêntico sem lenço e sem documento

Uma chuva leve teve inicio por volta das dezenove horas de ontem. Sorocaba é uma cidade onde as chuvas não são freqüentes. Na maior parte do ano faz sol e calor. A chuva foi aumentando seu volume e, por volta das vinte e três horas transformou-se em uma tempestade de verão, com raios e trovões. Isso nos encheu de preocupação porque devíamos desligar os aparelhos e não sabíamos se, depois disso, a Banda Larga voltaria a funcionar. Foi assim que fomos desconectados há três meses. Não teve jeito, um estrondo nos fez decidir por desligar tudo. Felizmente, quando voltamos a ligar, tudo estava funcionando normalmente, exceto o telefone que permanece desligado. Amanhã irei à loja da Telefonica para tentar resolver o novo embrólio.

O Khalil continua em Pequim e sem possibilidade de enviar material para nossos cultos. Nem tanto por motivos técnicos, mas sua missão solicitou que ele não enviasse nenhum material, por enquanto. Assim seguiremos aguardando sua volta e sem seu evangelho. Negócio é ler o post de hoje do Vinho Velho é Melhor: Um Cristão ateu.

Durante a noite pensei bastante e tive sonhos. Imaginei que o Raniel fosse aparecer, mas isso não ocorreu. Confesso uma certa preocupação com perguntas não respondidas às questões relacionadas a acontecimentos sobrenaturais, em nosso meio, tais como possessões demoníacas, de espíritos; vidas inexplicavelmente bloqueadas, desarvoradas, sob a mais completa falta de oportunidades; acontecimentos estranhos, vultos, sombras; pessoas com bom potencial perdendo sempre, sem razão aceitável aparente, doenças inexplicáveis do ponto de vista médico, fenômenos tidos como originários em outras dimensões; enfim, uma lista enorme que está longe de esgotar-se.

Para mim, tudo isso é difícil de ser absorvido. Sou muito cético e minha tendência é buscar as explicações racionais e científicas. Estaria tudo resolvido para mim, não fosse minha própria realidade, por toda a vida e, mais evidentemente, nos últimos anos. Eu e todas as minhas pessoas mais queridas vivemos uma espécie de maldição, se você me permite colocar as coisas assim. Um momento onde tenho a impressão muito forte da mais completa e irreversível ausência de qualquer Deus apoiador. Se nosso Deus cristão não está disponível, devido a preocupações mais relevantes do que esse reles ser desprezível aqui e suas insignificâncias, então que me visitassem os outros. Onde estão Buda, Maomé, o Deus carrancudo dos judeus e todos os outros? Mas não há nada além das visitas esporádicas e desastradas do Raniel, cuja função seria proteger o Thomas.

Não cheguei, como de outras vezes, a nenhuma grande conclusão, a não ser que não faço a menor idéia em como lidar com isso, caso eu seja uma vítima de alguma maldição maligna sobrenatural. Inconscientemente opto por respostas racionais, do tipo, onde foi que eu errei? Ferrou. O que posso fazer agora? E coisas do tipo. Já pensei em buscar a Igreja Universal, mas eu sei quão ridículo me sentiria naquele meio, sem falar que uma avassaladora e completa incredulidade me invadiria, caso o fizesse. Nos tempos de Tio Cássio, não por influência dele, vivi um cristianismo mais pentecostal, até que cai em mim e deixei tudo aquilo para trás. Não retornaria a aquele ponto.

Será que alguém aí enterrou alguma macumba contra mim? Por que razão seria? Não sou belo, muito menos rico e minhas maldades não foram tão extraordinárias assim. Fui um picareta como outro qualquer. Ou terá sido algo que meus ancestrais fizeram, a tal maldição hereditária. Tão pouco consigo crer nessas bobagens. Sou muito pouco dogmático e crédulo para tanto. A psicologia não me atrai nem um pouco. Ando tão de saco cheio dela e já acho que o mundo estaria bem melhor sem essa idiotice. Freud deve ter dado milhares de voltas em sua tumba, a essa altura.

Bom, aqui estou em mais um domingo sem respostas, com outra segunda-feira negra se avizinhando, sem lenço e sem documento, caminhando contra vento sob o sol de setembro dessa quente e pouco querida Sorocaba. Assim eu vou. Não há nenhum Deus, parente ou amigo que me socorra e, confesso, agora só uma boa loteria, que não resolveria tudo, talvez nem metade, posto que meus problemas estão longe de ser só financeiros, mas se os tirasse da frente ficaríamos bem melhor.

Sei que nenhum de vocês está como eu e, muito menos, teria algo a ver com isso. Entretanto se houver alguma identificação, faça como eu, ou seja, nada. Agora só me resta deixar explodir. Daí a gente vê como é que fica.

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A vida de Cristo
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Albert Schweitzer

Quando li a biografia, ou pelo menos o auto relato da vida de Albert Schweitzer decidi que escreveria mais um livro sobre a vida de Jesus, sem falar em outro sobre a vida de Paulo e mais um comentário completo do Novo Testamento. Pretendia ler tudo o que já foi publicado sobre o Mestre, pelo menos, nas línguas que eu pudesse compreender. Sonhei com a minha figura pouco espaçosa ocupando uma mesa lá no departamento da Bíblia do Wheaton College, em Illinois perto de Chicago, USA, cercado de todos esses livros e lendo-os incansavelmente. Não fosse pelo fato de que Jesus Cristo é a pessoa mais descrita, mais escrita e estudada na face da terra. Eu mesmo, conheço mais ao Nazareno do que conheci meu próprio pai.

Dei-me conta desse fato há poucos dias, quando li o post do meu filho Thomas a meu respeito. Deixou-me perplexo o quanto ele me conhece, aliás, penso que ele já me ultrapassou nesse conhecimento, também. A razão é que gastei muito mais tempo e energia tentando conhecer a Jesus, do que dediquei ao meu velho.

A grande ironia é que Jesus é a pessoa de quem mais falam e tudo que há sobre ele, de fato, são relatos temerários, possivelmente adulterados no último grau pela sagacidade mórbida do clero, em várias épocas, e escritos, na base, por pescadores quase ignorantes. Outros relatos, talvez melhores, foram rechaçados por Irineu porque ele levantara de pé esquerdo ou seu amante não lhe dera atenção na noite anterior. Esse monstro do canon bíblico estava corrompido por Justino para não aceitar nada que ele julgasse com cara de gnosticismo.

Sabe, quando isso acontece, funciona como no tempo do nazismo, você mata o seu vizinho palmeirense e depois justifica-se dizendo que ele era judeu ou vice-versa. Agora me dei conta de quão tolo sou. Imagine a minha inocência nesse quesito, ler miríades de livros que falam sobre um ser que a maioria desses autores de sua vida não conhece e se quer sabe se ele existiu.

Não fui ao enterro do meu pai. Ele morreu no Paraná e eu achei que era muito longe para mim. Não sou muito bom em enterros. Todo mundo chora e eu rio, tenho dificuldade em acertar o defunto, apesar que, nesse caso, acho que não teria esse problema, pois ainda fazia alguma ideia de como meu pai era, ao menos fisicamente. Enfim não sei como e onde ele foi enterrado. Mas sei tudo sobre o de Jesus. Como ele morreu, foi enterrado e desenterrado, ou melhor, sei tudo que dizem sobre sua mortália, dos evangelhos ao livro do Schweitzer .

Não me venha com aquela conversa boba sobre crer ou não em Jesus. Creio em Jesus, não nesse descrito e narrado, sem alma e sem êxtase, na maioria esmagadora desse mar de livros a seu respeito, mas no Jesus que eu nunca conheci.

Creio em um Cristo sobre o qual não sou digno de atar-lhe, sequer, as sandálias. Não sei qual é a sua aparência. Não faço a menor ideia sobre o timbre de sua voz e muito menos em que língua ele se expressou ou mesmo se chegou a fazê-lo.

Isso é lá com o Mel Gibson . Não dá para confiar em um cara que se chama mel. Para mim, o filho de Deus é facilmente identificável. Olhe para mim e imagine o oposto. Pronto, aí está o salvador. Sei que ele era uma cara boníssimo porque sou mau. Imagino-o como um ser totalmente perdoador porque não sou capaz de perdoar nem a minha avó e muito menos a minha mãe. Confio nele como um ser cheio de graça, da maravilhosa graça porque não disponho de nenhuma. Sou egoísta e orgulhoso, fora a prepotência e o narcisismo. A única coisa que estou disposto a dividir é o meu passivo.

Não estou em busca de confete. Pode guardar para quando o carnaval chegar. Estou contradizendo meu próprio filho, que me olha com olhos ternos, coisa que nem imagino como se faz. Ele sim se parece com o Jesus, filho do Deus pai. Por vias tortas safou-se, até aqui, das garras imundas desse mundo. Mas eu fui contaminado até a tampa. Esse é mais um motivo para eu crer desesperadamente em Cristo. Sem ele estou frito, literalmente frito. Já disse e repito, é melhor que ele seja mesmo a verdade, para o meu bem, pelo menos. Se cristo viveu ou não, tanto faz. Sei, apenas o seguinte: quero ele vivo em mim, por mim e por todos nós.

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Ressurreição? Tô fora! Já estou bem satisfeito.
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                                     A Ressurreição - Por Rembrandt

Olha só, eu não queria escrever sobre a ressurreição só porque hoje se comemora a ressurreição de Cristo que, em tese, abriu o caminho para a ressurreição de todos nós.

No momento, não estou interessado em ressurgir dos mortos, viver de novo ou uma nova vida. A amostra está sendo mais do que suficiente para mim. Só se me provarem que a tal nova vida seria em outro mundo, com outro tipo de habitantes e eu viesse a ser uma pessoa completamente diferente do que sou. Mas se entendo alguma coisa do texto bíblico, a ideia é renascer para viver ao lado de Cristo mil anos, só para comprovar que nem com ele a bordo deixaremos de pecar. Tô fora!

Fui uma criança triste. Quando menino, tive poucos momentos felizes, como a maioria dos meninos e meninas que conheci. Nossos momentos felizes eram fugazes. Mas nunca imaginei ou sonhei que seria um adulto infeliz. Não, não quero outra vida. Basta essa. Não tenho tanta longanimidade assim. Na verdade, sou bem fraco nesse quesito.

Talvez você esteja imaginando que as minhas razões sejam de foro íntimo ou pessoal. Que meu filho ou minha situação financeira sejam os agentes determinantes de minha vida infeliz. Não se engane. Não sou a Sandy (uma infeliz que se pensa cantora) que diz ter tudo na vida e nada mais a desejar. Estou mais para o fundador do Exército de Salvação, William Booth, um reverendo metodista que tinha uma profunda consciência social, isso lá pelos idos de 1865 e que declarou: “enquanto houver uma criança perambulando pelas ruas, com a mão estendida por um pedaço de pão, eu não estarei feliz”.

Não quero viver essa infelicidade outra vez. Muito menos ao lado de Cristo. Não suportaria olhar para Ele em meio a tanta desgraça. Sua dor me mataria. Não conseguiria repetir a dose e permanecer ao lado de gente que concebe algo como o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), essa peça demoníaca que simplesmente atirou crianças e adolescentes no mundo do crime, de vez. Não desejo saborear a destruição de um planeta inteiro, uma segunda vez. Não quero, nem que prometam o mundo a meus pés.

Uma nova vida, ao lado dos Bushs, Lulas e seus companheiros letais do presente, do passado e do futuro, seria a tortura suprema. Não suportaria ver e ouvir de fatos como Vietnan e Iraque outra vez. Não quero viver em um mundo de tamanha desigualdade, preconceitos e individualismos, de novo. Tô fora.

Estou contando os anos que me restam. Meu plano é me desfazer do pouco que ainda possuo. Juro que não buscarei nada além do pão nosso de cada dia. Doarei meus livros, minhas coisinhas, pagarei o que puder, pedirei perdão para tantos que magoei, principalmente com essas mentiras religiosas, prepararei o caminho para os meus filhos e abençoá-lo-eis, amarei um pouco mais a Dedé e depois partirei com um sorriso no canto dos lábios. Talvez mais uns vinte ou vinte e cinco anos, salvo imprevistos. Espero que Deus me abençoe, pelo menos nisso, já que esteve ocupado demais para notar a minha presença. Também, com tanta desgraça por aí, nem Ele dá conta.

Não consigo entender esse negócio de celebrar a vida, essa droga. Talvez os americanos do norte e os europeus consigam, se forem capazes de não olhar para os outros seres humanos do planeta, que não fosse com a intenção de explorá-los, como sempre fizeram.

Pior seria imaginar viver de novo. Não contem comigo.

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Deus existe

darylhannahDaryl Hannah

Hoje, ao conversar com a diretora de uma ONG evangélica, aqui em Sorocaba, me peguei dizendo a ela:

“Deus existe, mas não é nada do que pensávamos sobre ele. Ele não é o Deus dos nossos vácuos e está presente. Seu projeto é macro e não uma desordenada intervenção micro, salvo engano”

Talvez não tenha sido exatamente assim, mas foi qualquer coisa parecida.

Aproveite e veja o vídeo número 1 da GruTaVe. Que piada…

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O caos criador

Guernica – P. Picasso

No principio Deus criou os céus e a terra. Era sem forma e vazia: trevas cobriam a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

Em 1983 li A Quarta Dimensão, livrinho escrito por um pastor sul coreano que se chamava Paul Yonggi Cho. Recentemente, esse autor – pastor mudou de nome. Eu queria ser coreano para poder mudar de nome de acordo com meu humor. Agora, por exemplo, ao invés de Lou Mello, eu me chamaria Lou Bello. Não ficaria mais próprio?

Esse livro deu o start oficial à Teologida da Prosperidade, batendo o pai da idéia, o pastor norte-americano Kenneth Hagin, todos da Igreja do Evangelho Pleno. O Cho que era originário da Assembléia de Deus, teria retornado às origens, depois. Participei de uma grande conferência em São Paulo, no Estádio do Pacaembú, promovida pela Igreja Assembléia de Deus do Belém, com o Cho pilotando o púlpito. Cheguei a profetizar que o livro dele seria precursor de acontecimentos impactantes.

Há um monte de besteiras nesse livro. Uma das que causou mais danos na criançada foi uma longa afirmação sobre os significados das palavras logos e rhema que são sinônimos e significam: palavra. O Cho inventou significados diferentes para as duas e fez um estrago danado.

Entretanto, o Primeiro capítulo do livro me assustou. Não sei o que o Cho leu da filosofia e da teologia. Uma coisa é certa, bobo ele não é. Pode ter lido os gregos, Agostinho, Heideigger e Nietzsche, mas, dificilmente, tenha lido o Pe. Antonio Vieira. O fato é que ele espiritualizou a criação como nunca tinha visto e o fez de forma brilhante. Em outras palavras, ele disse: Deus fez a mais completa e maravilhosa ordem universal a partir do caos existente.

Pablo Picasso é o autor de uma das mais belas pinturas conhecidas. Seu famoso Guernica representa o equilíbrio a partir do desequilíbrio. Uma das razões da minha total sucumbência à cidade de São Paulo é o caos. É uma cidade que cria na desordem. Ela me fez ver a tempestade, o trânsito, os buracos, o crescimento desordenado, etc… com outros olhos. São Paulo é uma grande cidade, como poucas no mundo. Tem uma diversidade impar e uma pungência inigualável. Eu amo aquele caos porque ele é criador.

Assim vejo o caos. Deus adora trabalhar assim. Virar a lata de parafusos no chão e achar aquele parafuzinho ideal é sua marca registrada. Sei bem o que estou dizendo. Minhas grandes soluções nasceram em meio ao mais completo caos.

Agradeçam o caos em suas vidas, amigos. Ele é criador.

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Pendor da Justiça

Interessante notar ou anotar as afirmações confirmatórias das crenças milenares.

Quando meu filhos estudaram no Colégio Batista (hoje em vias de demolição para dar lugar a um conjunto habitacional para pessoas de classe média) tivemos dois períodos distintos. No primeiro, paz e tranqüilidade com a direção segura, justa e dignificante sob a batuta do professor Wangles e no segundo, a turbulência gerada por um idiota chamado Nemésio, cuja experiência era a de bancário em Brasília, imaginem. Os problemas começaram e se multiplicaram.

Certa vez, o infeliz aumentou as mensalidades segundo orientação da Associação de Escolas Particulares (um grupo de escroques profissionais que existe no Brasil) da qual, claro, a figura fez questão de fazer parte. O aumento era abusivo. Alguns pais se mobilizaram e marcaram uma reunião no Anfiteatro da escola para discutir o assunto. Fui lá e, para minha surpresa, o comparecimento foi inexpressivo. Resultado, fomos todos rotulados de “personas non gratas” pelo caudilho. Na saída encontrei uma mãe, parente distante, que não havia participado da reunião e perguntei-lhe o motivo. A resposta foi sintomática: Acho bom que aumente, pois dessa forma, quem não pode pagar sai e melhora o nível dos alunos da escola.

Posso não ter gostado da resposta, mas agradeci pela sinceridade. Geralmente, essas crenças não são manifestadas, embora existam e sejam diretoras da sociedade pós-moderna. Quem não pode pagar não deve existir.

Vivemos em um mundo onde apenas um em cinco provedores de família tem emprego. Entretanto, pessoas desempregadas são consideradas vagabundas. Uma parcela não revelada da população ativa tem seus nomes arrolados em listas de devedores. No Brasil, essa inclusão é compulsória. Não pagou, toma. Fora as conseqüências judiciais, sempre favoráveis aos credores, na maioria das vezes, grandes corporações financeiras.Não há educação de qualidade disponível para mais de três quartos da humanidade, mas as pessoas deseducadas são encaradas como parias. Dois terços da população mundial não tem acesso a planos de saúde, sequer dos governamentais, mas essas pessoas são vistas como o lixo da espécie. São sujas e transmissoras de doenças. Sessenta por cento das pessoas existentes no planeta, não tem acesso à alimentação de qualidade mínima e são consideradas nojentas.

Quando duas pessoas são levadas diante de um magistrado, por qualquer razão, o julgamento já foi dado a priori. Julgamentos servem, apenas, para decidir a sorte futura das “minorias” raciais e sociais, que sempre saem no prejuízo, nessas ocasiões. Basta uma pequena visita, mesmo que cibernética, a qualquer prisão do mundo.

Acreditamos que se uma pessoa não paga uma dívida, ela é desonesta e fim. Ela deve ser executada, se possível, decapitada. Não importa sua história. Nessa base, a lei e os estatutos são construídos, sempre protegendo os privilegiados em detrimento dos menos favorecidos.

Jesus, aquele idealista meio maluco e adorável da Bíblia, desembarcou e vendo uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os enfermos. Esse personagem não deve ter existido. Imaginem vocês, ele teve o desplante de afirmar que seu negócio eram os doentes. Essa gente ridícula que não tem trabalho, é deseducada, tem aparência suja, subnutridos e, ainda por cima, a maioria tem doenças horríveis.

Vendo isso, seus seguidores mais próximos, para não ficar por baixo de tanta bondade, aconselharam o Mestre de Nazaré a despedir a multidão para que fossem às aldeias comprar o que comer. Pode? Em outras palavras, para que se virassem como pudessem. Exatamente como encaramos “as multidões” de hoje. Que se danem. Problema deles.

Jesus, porém, lhes disse: Não precisam retirar-se; dai-lhes vós mesmos de comer.

Eita Jesuzinho arretado! Paguem as contas de luz e água deles, seus hipócritas. Não os julguem. Não venha com aquela desculpa esfarrapada de Confúcio, que o cara vira vagabundo se ganhar algo sem merecer. Isso é paganismo da baixa. Se alguém se acomoda com a benemerência, está doente e precisa de ajuda psicológica, bom nem tanto, talvez piore o cara ainda mais.

Alimente o faminto, ampare o doente. Acima de tudo, estude cada caso com muito carinho, especialmente as demandas judiciais. Matar pode ser banal e isso é uma das mais insuportáveis consequências da desigualdade maligna que convive conosco. Mas pode ser, ainda, um grito desesperado, uma opção última daqueles que não tiveram nenhuma chance, nesse mundo de Deus, onde Ele pouco apita. A mesma coisa acontece com roubar, enganar, não pagar, não trabalhar, adoecer, ter fome, etc…

Jesus Cristo foi mesmo um equivocado. Onde já se viu tanta benevolência. Doentes (endividados, enfermos, sem educação, famintos, maltrapilhos, etc) devem ser excluídos. Prisão é pouco para essa cambada de desajustados. Será? Gostaria de dar uma chance, mínima que seja, ao Galileu sonhador da Bíblia. Ele pode ter alguma razão.

Texto: Mateus 14: 14 – 16

Capricornio PB

A Bondade de Deus

“Deus chora a morte de cada um de seus filhos”.

 Sl 116:15

Leio em vários blogs e em outros meios a insistente afirmação de que Deus é bom. Parece haver uma necessidade premente em lembrar o fato. E não é de hoje. Em nossos dias, cada vez mais, a pergunta que não quer calar se faz presente: Se Deus é bom, por que tanta desgraça? Por que Deus não houve minhas orações e me livra das minhas perseguições?

Anos atrás, a Revista Ultimato (aquela que parece o império romano com César para todo lado) trouxe, em um de seus números, uma série de entrevistas com alguns pastores e líderes evangélicos conhecidos que haviam perdido seus filhos tragicamente. Procurei o exemplar entre meus guardados, mas não o tenho mais. O que mais me chamou a atenção nas declarações foi a dúvida de todos os entrevistados em relação a como seguir em frente com a pregação que inclui um Deus bom, depois de tamanha sacanagem.

Lembro-me do pastor Rudemar. Conheci-o e a esposa ainda solteiros, quando eram membros da mesma Igreja Batista da Esther, nossa secretária na Missão (estou proibido de citar o nome pelo infeliz que a dirige atualmente) que Deus levou através de um câncer severo. O tempo passou e o casal teve um filho. Ainda tenro, descobriram ser o menino, portador de leucemia. Nada foi eficaz e aos cinco anos, Deus teria aprontado mais uma das suas e privado o casal de pastores cristãos do filhinho amado.

Passado algum tempo, encontrei o Rudemar na Igreja Projeto Raízes, pastoreando junto com outros irmãos conhecidos. Aproveitei para lhe presentear com um exemplar livro “Quando coisas ruins acontecem a pessoas boas” do rabino Harold Kushner.

Depois disso, fiquei sabendo de muitas outras desgraças envolvendo cristãos dedicados. Mortes em todos os graus de perversidade possíveis, acidentes gravíssimos, filhos com problemas congênitos com gravidade de zero a cem, perdas insustentáveis, estupros, assaltos, falências, desemprego, desamores, divórcios, despejos, etc. etc. etc. E esses fatos continuam acontecendo até hoje e suponho que continuarão no futuro.

E Deus parece não se importar. Quem quer um Deus que não seja bom? Deus que é deus tem que ser bom. Precisa fazer milagres todos os dias. Livrar criancinhas da morte, curar enfermos graves, depositar dinheiro nas nossas contas vazias e arranjar-nos empregos, preferencialmente daqueles onde se ganha muito e se trabalha pouco ou fazer nossa empresa prosperar, de olhos bem fechados para as nossas práticas ilícitas, afinal para vencer nesse mundo é preciso dançar conforme a música.

Durante muito tempo, após o nascimento do nosso filho* cardiopata congênito, adotei o estilo: “Apesar disso, Deus é bom”. Minha pregação esvaziou-se. As pessoas não acreditavam em mim e, pior, demonstravam pena. Aos poucos fui abandonando a prédica até rejeitá-la, completamente.

Depois de sofrer um tempão, e sem encontrar resposta satisfatória para a pergunta, acabei batendo de frente com um pensamento simples: o mal é humano. Para nós, bondade inclui todo tipo de paternalismo divino. Julgamos o que é bom e o que não é segundo nossa justiça parca. Desconfio que essa prática nos impeça de reconhecer alguma bondade divina que possa haver nesse mundo material.

Ainda não havia lido o citado livro “O Jesus que eu nunca conheci” do Yancey. Comprei o livro em São Paulo, lá na rua Conde de Sarzedas (o maior shopping evangélico do mundo), pela metade do preço e enfiei na mochila.

À noite, depois de me acomodar na poltrona 37 do ônibus Cometa com destino a Sorocaba, saquei o livro, acendi as duas luzes acima e abri-o. A primeira coisa que li foi: “Tradução de Yolanda Krievin”. Quase desmaiei. Ela trabalhou na Missão na mesma época que eu.

Certa vez, trouxemos ao Brasil um pastor nascido na Alemanha Oriental e que viveu os horrores da Cortina de Ferro, cujo nome era Gerard Ham. Levei-o à muitas igrejas para pregar e dar seu testemunho funesto.

Uma tarde reuni os funcionários da Missão para ouvirem uma palavra do pastor alemão (sic). Dona Yolanda estava entre os tais. Veio para a sala de conferências (a garagem) com um pacote na mão. Após o ato espiritual, ela pediu licença e entregou ao pastor Gerard o pacote. Dentro havia duas camisas novas e escolhidas com muito carinho. Dona Yolanda percebera que a camisa usada pelo pastor, desde sua chegada, tinha o colarinho puído. Só ela viu isso. Que vergonha.

Li lá na Bacia das Almas, outro dia, o Paulo Brabo citando vários atos de bondade divina difíceis de serem reconhecidos pelos olhos mais exigentes. Ontem dei um viva ao maniqueísmo. Fiquei muito impressionado, muitos anos atrás, ao descobrir a luta de Agostinho no século quarto contra esse fenômeno.

O que se supõe é que se há “a bondade de Deus”, então, ele deve combater o mal e mostrar seu poder em desfazê-lo. O problema é que Ele tem tudo a ver com o bem e nada a ver com o mal. A não ser, sua mais completa discordância. No mal, na desventura, na desgraça, na desesperança ele se achega, nos abraça e chora conosco.

Quando o Thomas estava na UTI, após a segunda cirurgia, do lado de fora havia dois jovens, um rapaz e uma moça, filhos de um homem de cinquenta anos que havia sido operado de um aneurisma na aorta. A situação era de alto risco e eles estavam sofrendo. Comecei a conversar com eles. Senti que estavam preocupados comigo e com meu sofrimento. De repente, nos abraçamos, os três, fortemente e choramos.

Deus chora a morte de cada um de seus filhos.

*nosso filho: Thomas nos deixou em 20/04/2013, contra a vontade dele e de todos nós.

morcego-12

Pedro

Terça-feira, Agosto 22, 2006

Esse é o meu apóstolo predileto.
Ele foi o único a andar sobre as águas. Prometeu nunca trair Jesus, como um verdadeiro santo e traiu-o como um autêntico ser humano. Foi o único a dar a cara para bater durante o calvário, embora tenha tido medo.
Pulou na água quando se sentiu nu diante do Mestre e entristeceu-se quando ele suspeitou de seu amor. Diante da majestade daquele ser único, exclamou: Quem é esse? Sua sombra curava os enfermos e foi o único capaz de peitar Paulo.

Morreu crucificado, mas, exigiu que fosse de cabeça para baixo para não ser igualado ao Senhor. Se a Gruta tivesse que ter um patrono, eu votaria nele sem pestanejar.

Adoro esse cara. Dei o nome dele ao meu filho.
# posted by Lou @ 10:20 AM

O Remanescente

Quinta-feira, Junho 08, 2006

E toma discussão em cima de temas velhos que não envelhecem. Uns agarram-se à ortodoxia (sic) e muitos às outras opções espalhadas por aí. Algumas seitas salvam assim e assado, outras à sua maneira, seja lá o que for.

Mas observando as pessoas identificadas com os propósitos da Gruta (não tê-los, já pensei em denominar nosso estilo como de uma vida sem propósitos) percebi várias compatibilidades ou semelhanças. Pessoas calejadas pelas experiências eclesiásticas e carregando pesado fardo formado das observações e vivências não declaradas. De todas as manifestações saem os esgotados espiritualmente, mas, fiéis e teimosos em continuar ao lado do Senhor. Talvez, não à moda dessas ou daquelas propostas, mas livres de dogmas e buscando uma adoração transparente e sincera.

Paulo (o apóstolo) escreveu palavras riquíssimas em Romanos, Capítulo nove, a respeito: v22 “E se Deus, querendo mostrar a sua ira e tornar conhecido o seu poder, suportou com grande paciência os vasos de sua ira, preparados para a destruição? v23 Que dizer, se ele fez isto para tornar conhecidas as riquezas de sua glória aos vasos de sua misericórdia, que preparou de antemão para glória, v24 ou seja, a nós, a quem também chamou, não apenas dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” E cita Isaias, no v25: “Embora o número dos Israelitas seja como a areia do mar, apenas o remanescente será salvo.”

Tenho visto várias manifestações alternativas pipocando, por ai: Igreja Emergente, Caminho da Graça, etc…Juntando a macacada pós moderna, vejo-a formada de pessoas sofridas, pecadores, seres humanos capazes de errar e levantar, de pedir ajuda e reconhecer sua insuficiência diante de Deus. Um verdadeiro Remanescente que mesmo diante da morte, não amaram as próprias vidas. Mais que vencedores.

# posted by Lou @ 11:20 AM

O sofrimento do cristão

O Irmão André, fundador de uma Missão voltada à Igreja Perseguida, costumava testemunhar uma reunião com irmãos da chamada Igreja sofredora da antiga cortina de ferro, em uma casa de família. Havia uma tensão devida ao aprisionamento de um dos irmãos da localidade. Por coincidência, a visita do Irmão André aconteceu no mesmo dia em que aquele irmão foi solto e os dois se encontraram nessa reunião. Todos ficaram em silêncio, no início. Então o ex-prisioneiro iniciou o seguinte diálogo com o André:
Ex-prisioneiro -André, está tudo bem com você?
André: Sim, tudo bem.
Ex-prisioneiro – E lá em seu País, tudo bem com os irmãos, eles não estão sob perseguição?
André: Sim, tudo ótimo, mesmo. Nenhum cristão é perseguido em meu país?
Ex-prisioneiro – E o que vocês fazem com o texto de II Timóteo 3:12?
André abriu sua Bíblia e leu em voz alta:
“De fato, todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.”

Em 1992 atravessei o ano em grande crise. Não tinha vontade de sair de casa e era difícil levantar da cama. Na verdade tinha medo de sair. Perguntava-me o tempo todo, o que mais haveria de me acontecer.

Nesse tempo duro tive a ajuda paciente e essencial do Dr. Zenon Lotufo Jr. Ele sempre me incentivou a ler como uma parte do tratamento. Então, resolvi entender o sofrimento do cristão, através da leitura. Dentre os livros lidos, destacaria “Cristo e o Sofrimento Humano” E. Stanley Jones – Ed. Vida, “O problema do Sofrimento” C. S. Lewis – Ed. Mundo Cristão, “Don’t Waste Your Sorrows” Paul E. Billheimer – CLC Inc. e “Onde está Deus quando chega a dor” Philip Yancey – Ed. Vida.

Claro que, uma parte das minhas aflições, naquele momento, eram agravadas pela questão do cristão em sofrimento. Havíamos vivido muito tempo, sem perceber, sob a crença de que os cristãos são poupados do sofrimento.

Aprendi muitas lições importantes sobre o sofrimento. Stanley Jones me ensinou que o sofrimento pode ser uma tremenda força motivadora, se transformado em testemunho. C. S. Lewis me ensinou que o sofrimento torna-se o megafone de Deus. Não é fácil falar conosco. Até Deus precisa fazer grande esforço para conseguir nossa atenção… e minha filha reclama que eu não a escuto, imagine. Billheimer ensinou-me que viver é aprender o amor ágape de Deus. Yancey é a própria síntese perfeita de todas essas propostas.

Assim, descobri que minha comunhão com Deus é crítica, sempre. Sei o que me espera se entrar em Sua presença, de fato. Oro, busco, mas no fundo, espero não encontrá-lo, por mais paradoxal que isso possa parecer.

Quando estou na Gruta, em fuga dos meus perseguidores, sei que Ele vai falar comigo. Nada vai impedi-lo. Nesses momentos estou quebrado demais para fugir e daqui não há para onde ir.

Deus nem precisa me dizer nada. Na verdade, já sei o que Ele quer. As palavras de Eugênio Debs explicam: “Anos atrás reconheci o meu parentesco com todos os seres humanos e resolvi não ser absolutamente superior ao mais ínfimo ser da terra. Disse então, e o digo agora, que enquanto houver uma classe inferior, pertenço a ela. Enquanto houver uma classe de criminosos, dela faço parte. Enquanto houver uma alma na prisão, não sou livre. (Citado em Cristo e o Sofrimento Humano – E. Stanley Jones)

Acrescento a isso, ainda: Enquanto houver alguém preso à um leito pela enfermidade, não estarei são. Enquanto houver uma criança ou adulto perambulando pelas ruas, não estarei abrigado. Enquanto houver guerra não estarei em paz. Enquanto houver um único ser a mendigar o pão, não estarei alimentado.

Ao tornar-me um cristão, optei por tomar a minha cruz e seguir a de Cristo. Ele não veio para os sãos, mas para os enfermos. Os cristãos são perseguidos porque não podem parar de sofrer pelos que sofrem.

Meu sofrimento é uma gotinha caindo no oceano com a mensagem do sofrimento de milhares e milhares de pessoas, seres humanos, mundo afora. Deus não descansará diante da miséria presente nesse mundo. Em sua luta Ele continuará incomodando aqueles que fizeram com Ele o pacto da vida através da morte. Esses foram chamados para aliviar as dores dos que sofrem e Deus conta com esses poucos. “A seara é grande e os trabalhadores poucos” e eu acrescentaria: e difíceis de lidar.

Não há tempo melhor do que quando estou envolvido em algum projeto capaz de aliviar as dores das pessoas. Nesses momentos, sofro com elas, mas  percebo que meu sofrimento pessoal diminui. Mas procrastino, recalcitro, evito pegar o arado. Sofro e faço todos a minha volta sofrerem. Ah! Miserável homem que sou.

# posted by Lou @ 1:16 PMCapricornio PB