Feliz Natal dos vagabundos

Continuo decidido a não aceitar o natal antes do natal. Esse clima de já chegou o que ainda não chegou, todo mundo agindo como se fosse sem que tenha sido, os aeroportos lotados com voos atrasados e os fulanos reclamando, com cara de quem perdeu o nascimento de Jesus, causam-me náuseas. 

Sou do tempo em que a gente só vagabundeava na semana entre o natal e o ano novo. Estranho vagabundear uma semana antes do natal  Pior é o pessoal dizendo: tchau dia 20 de janeiro estou de volta. 

Eu que não sei até agora se vai dar para arranjar uma ceia para tapear a turma, sim porque nessa altura não dá mais para inventar algo grandioso digno do nascimento do Galileu.

Uma vez estávamos assim. Morávamos em um apartamento na Rua Cardoso de Almeida, em São Paulo.

No dia 24 de dezembro pela manhã, tocou o interfone e o porteiro avisou com voz de taquara rachada: chegou encomenda de natal para vocês.

Achei que era alguma brincadeira e dei de ombros. Dedé curiosa desceu. Voltou dez minutos depois com cara de quem tinha visto Jesus Cristo em pessoa e foi logo dizendo: Lou você não vai acreditar no que mandaram para nós. Tem peru de quatro quilos, tender, frutas secas, frutas da época, vinho tinto e champanhe. É só fazer arroz, farofa e maionese e a ceia estará pronta. Havia um envelope com grana para comprar essas coisinhas, junto.

Outra vez quando estávamos na rua Bartira, foi o Papai Noel Zenon quem nos levou tudo que era necessário para a ceia em favor do Mestre de Nazaré.

Vai chegando esse dia e começa a me dar comichão. Será que o divino vai querer se mostrar de novo. Agora eu quero ver. Aqui em Sorocaba não tem Zenon não. Vai ser duro ele arranjar algum papai noel para mandar-nos qualquer coisa. Quero ver ele resolver essa agora.

Estou achando que, dessa vez, nem o todo poderoso irá nos salvar. Vai ser ceia de pobre mesmo. Frango, farofa, arroz e salada. ! E ainda tá reclamando de que. Tirando o fato de que será com a grana de algum incauto, de nada, afinal pobres não reclamam nunca, só agradecem. Entendeu agora, porque não gosto desse dia. Se tem é porque deram e se não tem é porque não deram.

Será que ainda vai chegar um ano em que poderei bancar uma grande ceia em favor do Galileu para minha família com o fruto do trabalho de minhas mãos? Como fizemos algumas vezes, no passado.

Feliz natal, feliz natal, feliz natal. Ai como dói. Vida de grutense não é nada fácil. Essas festas são brasas em nossas cabeças. Só fazem evidenciar nossa miséria. Claro que foi Jesus amigo dos sofredores quem inventou tudo isso. Quem mais o faria?

Isso não é coisa de cristão rico. Pessoal lá na África deve estar prontinho para suas ceias de natal em comemoração do nascimento do Emanuel Salvador. Na zona do Tsunami, também, claro.

Sei que ninguém quer saber de desgraças nesses dias. Afinal, são as festas de fim de ano e não é hora para lamentações e essas coisas negativas.

Daqui a pouco o Daniel Frenot me liga perguntando se tem onde internar alguma criança jurada de morte. Só ele mesmo para se importar com essas bobagens nesses dias. Será que ninguém vai dizer para ele se preocupar com isso depois de 20 de janeiro. Cara chato!

Por que não falei do Natal

Sei que não é chique falar do Natal, em pleno Natal. Além de tudo, damos bandeira de nossa falta de criatividade e planejamento falando do evento só porque todo mundo está falando. 

Eu não queria falar do Natal, só porque é Natal. Tem tanto tempo durante o ano para falar sobre o Natal, porque falar do Natal bem na época do Natal.

Acho que poderíamos falar  de algo que ninguém está falando. Qualquer outro evento serviria. Carnaval? Não esse não pega bem agora. Sabe Carnaval, festa da carne, mulheres nuas, distribuição de camisinhas para todos fazerem o que não deveriam fazer, não, não. Agora é Natal. Deixa isso para depois. Humm!

Bom, sendo assim, falar o que? Tudo será não apropriado. Afinal é Natal. Achei um barato os carteiros coreanos vestidos de papai noel norte americano. É a cara deles.

Tá bom, tá bom. Vou procurar uma citação mais cult e escrever sobre o homem pós-mderno. Sim porque das mulheres eu não falo, nem das pós modernas. Mulher deve ser respeitada e ponto. Aliás, se tem uma época em que elas são super respeitadas é essa, o Natal. Ninguém é bobo. Quem vai querer comer peru sem gosto? Pronto, já estou falando dele de novo. Só falta falar que Natal é o aniversário de Jesus. Ih! Falei.