A Gruta do Lou

Subestime sempre

Orival Pessini, o Fofão

Não há nada igual. É incomparável.

Estou fazendo parte do Conselho Municipal das Crianças e Adolescentes de Sorocaba. Como conselheiro suplente, tenho o direito e assistir as reuniões ordinárias e manifestar-me, como reza o Regimento Interno.

Claro que, a priori, sou um ser de segunda categoria, aos olhos dos demais participantes, afinal sou um suplente, apenas. Além disso, a maioria dos participantes é ligada à Prefeitura da Cidade, mesmo os que não deveriam ser, exceto eu e mais um ou dois. Assim sendo, menos pontos para mim. Quem eu penso que sou se nem chego a ser um medíocre funcionário da prefeitura?

Há tempos, fomos à padaria tomar um café. Ficamos junto ao balcão e bem próximos à porta de saída. Dali fomos confrontados por um homem maltrapilho dizendo: Vocês não têm coragem de me pagar um café. Imediatamente o contrariamos e ordenamos que entrasse para tomar o maldito café. Quem esse cara, um reles mendigo, pensa que é, para nos falar desse jeito?

Como sempre, eu tomei a dianteira no ato de subestimar o imundo ser e perguntei qual era a profissão dele, imagine. Qual não foi minha surpresa ao ouvir a seguinte resposta: sou engenheiro naval, formado pela marinha alemã. De fato, dava para notar por baixo de toda aquela sujeira que o homem tinha cabelos louros, dentre muitos brancos. Além disso, seus olhos eram profundamente azuis.

Fiquei olhando o maltrapilho fixamente e sem dizer nada, diante da resposta. Então ele emendou: Você não acredita em mim, certo? Respondi: De fato é difícil acreditar no que você está me dizendo. Aí ele emendou: Pois fique tranqüilo, você não é o único. Ninguém acredita nisso, minha ex-mulher, meus ex-filhos, meus ex-pais e se quer saber, nem eu acredito nisso.

Levei a história na gozação, bem como meus companheiros. Acho que gastamos uns trinta minutos ouvindo aquela charge de ser humano citar autores importantes e destilar um sólido conhecimento de filosofia e psicologia. Ainda sob efeito das risadas fomos ao caixa pagar nossa conta e mencionamos ao português, dono da padaria, nossa recente experiência, com o raro mentiroso desalinhado. O bigodudo nos olhou com cara de sabichão e disparou: Tudo que o homem disse é verdade. Ele é um engenheiro famoso, mas deixou-se levar pela bebida, mulheres e vida fácil. Perdeu tudo e todos e hoje anda por aí, catando bitucas de cigarro do chão e esmolando. Eu o conheço desde criança. Fui com os pais dele até Santos, embarcá-lo para a Alemanha, onde ele formou-se com distinção.

De todo esse espetáculo grotesco de falta de tato e de tamanha subestimação, minha pior avaliação foi quanto à capacidade de um ser humano descer em direção ao fundo do poço e, no entanto, não deixar de ser um ser humano.Capricornio PB

5 thoughts on “Subestime sempre

  1. Sem dúvida…
    somos seres humanos muito maus, nos maltratamos; criamos estigmas e preconceitos, porque no fundo todos têm medo de chegar a ter a coragem de ser vagabundo maltrapilho.
    GOD BLESS YOU.
    T.

  2. assustador não é, Lou?
    talvez por isso eu goste tanto de ler Dostoievski… ele consegue colocar no papel esses “vales” pelos quais todos podemos passar…
    beijos,
    alê

  3. Temos a alegria de saber que Deus quando olha para nós, já não nos vê maltrapilhos, e sim, justos, por causa de Seu filho amado.
    Lou, ouvi o teu pod cast e estamos em oração por vocês.
    Um abraço especial ao Thomaz.
    Ele é um anjo de Deus nas vossas vidas.

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