Sou porque já fui


“Digo isto como prelúdio a uma confissão: sou protestante.

Sou porque fui. Mesmo quando me rebelo e denuncio. Minha estória não me deixa outra alternativa. Sou o que sou em meio às marcas de um passado. Mesmo que eu não quisesse, este passado continuaria a dormir comigo, assombrando-me, às vezes, com pesadelos e fúria, às vezes, fazendo-me sonhar com coisas ternas e verdadeiras”.

Ruben Alves

Tomei emprestada essa frase do Ruben porque vivo a mesma dualidade. Ao mesmo tempo sou e não sou, porque não estou e isso vive me assombrando, especialmente nas noites mais quentes.

Atualmente até tenho militado um pouco, pois estou tentando dar uma mão para uma igreja que ajudei a criar, há alguns anos e sou amigo do Pastor e do pessoal que faz parte. Eles estão construindo um prédio para a igreja, mas o número de pessoas participantes é pequeno, ainda.

São pessoas honestas com uma devoção sincera e gosto disso. Mas todos nós sabemos que só ficarei até enquanto não me tornar um problema para eles e puder agregar algum valor por lá. Vocês sabem, não sou flor que se cheire, sempre com minhas ideias nada ortodoxas, às vezes liberais e outras muito conservadoras, enfim, não sou fácil.

Mas sempre há quem me pergunte a qual igreja pertenço. A resposta deve seguir a fórmula dada pelo Ruben, ou seja, pertenço muito mais porque pertenci e isso nunca mais sairá de mim. Meu passado me condena (outro tema super original) está cheio de marcas das minhas militâncias igrejeiras, tanto como assistente quanto como líder, missionário ou até pastor. Atualmente, estou naquela do Homem de Kiev, “sou pouco, mas muito mais que um nada”. Mas isso se deve à essas marcas do passado. Se fosse escritor de novelas ou roteirista de cinema, escreveria um texto com esse título ultra original.

Por que estou escrevendo isso? Boa pergunta. Por que era mesmo? Ah! Lembrei. Me deu vontade de dar uma alfinetadazem nesses caras que vivem para menosprezar os outros em troca de engrandecerem a eles próprios. Fique esperto, quando alguém tentar diminuir você, estará tentando engrandecer a ele próprio. Pior, tem gente extremamente eficaz nessa prática.

Esse conceito aprendi lendo um texto supostamente bíblico e já mencionei isso outras vezes por aí. A Sociedade Bíblica do Brasil editou, certa vez (1983), um produto ao qual denominou “Provérbios na Linguagem de Hoje”. Se não me engano, foi onde li tal heresia. Tal como Cipriano, adoro uma boa heresia.

O Cipra, como o chamamos, é nosso iconoclasta de plantão, além de guardião da Igreja Cristo Salva,  e um cara que nunca tentou crescer às custas dos outros. Pelo jeito, tenho o mesmo defeito. A diferença é que luto contra isso, mas tento crescer às custas de figuraças, a tal ofensa vertical, tão falada aqui e lá no blog Bacia das Almas do Paulo Brabo. Falando nisso, parece que o Brabo se rendeu ao inevitável, voltou a escrever na Bacia. O mundo cristão não pode ficar sem isso, pois tende a desgarrar feito ovelha teimosa.

Gente de igreja com esse “caráter” costuma cobrar a “sua igreja”, ainda mais se souber que você não frequenta uma igreja, necessariamente. Com isso, visam obter pontos em cima de sua “deficiência” eclesiástica.

No meu caso, é ainda mais exótico, porque não sou só um protestante enrustido, sou também um católico, pois esse detalhe está indelevelmente registrado nos anais da minha história. Coisas como, batismo, crisma, primeira comunhão, decolares, etc. Não consta, que eu saiba, alguma excomunhão contra mim.

Por opção, abracei a teologia protestante, sobretudo em relação à salvação pela graça, ao contrário da salvação pelas obras, a opção católica e espírita. Claro que daí surgem outras diferenças, mas nem todas as diferenças foram abraçadas por mim, caso do calvinismo, por exemplo. Obviamente, um observador mais perspicaz perceberá, aqui e acolá, traços calvinistas em mim, como a predestinação, coisa que uso quando me convém. Também não gosto muito de Papas, e isso não é privilégio da igreja católica, e nunca fui chegado a uma confissão em confessionários.

Com isso, continuamos todos a ser, mesmo sem estar, posto que não há como arrancar nossas marcas de nossas histórias.

 lousign