A Gruta do Lou

Sonhos de um adolescente que envelheceu sonhando errado

Se eu fosse um adolescente, hoje, sonharia meu futuro mais ou menos assim: Um bom emprego em uma estatal, de preferência a Petrobras, mas na área administrativa, nada daqueles trabalhos perigosos em alto mar ou no meio da Amazônia. Ser membro de uma das Igrejas da moda, afinal, como ensina o grande filósofo Erasmo Carlos, “ande com os grandes e será um deles”. Ler só os livros do momento, como Por que você não quer mais ir à igreja? e não pense em pensar, isso pode enlouquecer. Com esse emprego, até poderia planejar casar e ter alguns filhos, uns três no máximo. Mas toda a cautela é necessária nesse terreno. Se casar, tentar ser o menos emocional possível, pois os sentimentalóides costumam ser grandes fracassados. Música a ser curtida segundo as indicações dos blogs especializados para não correr o risco de oferecer seu ouvido aos sons pouco alinhados. Filmes também, nunca perder tempo em assistir nada que não tenha sido pré aprovado pelos senhores do way of life dominante. Assim não haverá risco de errar. Na Internet, privilegiar o Twitter, mas com muito cuidado. Só escrever frases, cujo teor, não possa comprometer-me de forma nenhuma e com coisa alguma. Geralmente, escrever o que as pessoas leiam sem precisar fazer algum esforço monumental tentando entender. Nesse caso, melhor deixar de lado ironias e sarcasmos. Homer Simpson, o perfil dos twitteiros, não compreende conceitos abstratos. Manter uma conta corrente no maior banco privado do país é aconselhável, pois as pessoas sempre me darão mais crédito se meus cheques forem daquele banco. Ter muitos cartões de crédito na carteira será muito bem vindo, isso causa um impacto legal. Roupa sempre das grifes da moda. Se for usar imitações, cuidado, tem gente especializada em detectar essas fraudes. Se for à praia, limitar-me aos espaços bem vistos pela maioria. Nunca me aproximar do litoral menos nobre. Só ler a Bíblia se for uma autentica NVI, de preferência editada pela Editora Vida, sei lá por que, ou porque é a preferida do Ricardo. No mais, ler muito as bobagens melodramáticas escritas pelos pastores de barrigas cheias dessas igrejas da moda, e mencionar isso no Twitter, a única utilidade dessa atitude, mas importante na manutenção do tipo. O apóstolo Paulo foi um imbecil ao revelar que eles, sobre o que não entendem, fazem ousadas asseverações. Pode não ter a menor relevância, mas me manterá no topo do mundo. Caso ainda não tiver curado alguma preferência desalinhada, como idéias anárquicas e simpatias pouco usuais como acreditar no livre pensar, não mencionar a ninguém, nem sob tortura. Morro, mas não digo. Isso poderá custar meu emprego na Petrobras, meu casamento, filhos, carro e algum possível cargo de fiscal do tempo ou membro de alguma daquelas comissões sem substância que não levam a nada ou lugar qualquer, lá na grande igreja. Ah, fazer algum mestrado, mesmo que seja qualquer dessas tolices como Ciências da Religião. Se der, engatar logo um doutorado, na mesma área, para não precisar usar muito tutano ou meu fosfato. Nunca, em hipótese alguma, demonstrar qualquer afeição pelas idéias neo pentecostais, mesmo que as acalente em segredo. Se ler algum livro do Benny Himm, Hagin ou do Murdock , queimá-lo em seguida e enterrar os restos queimados. Depois jurar que nunca os li, sempre que necessário. A leitura de blogs mais densos e pouco alinhados como os do Brabo, Allysom, Roger, Nelson ou Rubinho está liberada, desde que não caia na asneira de deixar um comentário ou qualquer rastro da visita. Para tanto, basta usar um desses sites facilitadores, como o Bloglines ou Netvibes. Lembrar todos os dias que, se perder o status, ninguém, homem ou mulher, desses meios escolhidos, me estenderá a mão, muito menos o Deus deles. No mais, será viver sempre cuidando da imagem, não da auto imagem, mas da imagem que os outros têm de mim. Isso é o que importa o resto e besteira. Os meus reais sonhos de adolescente foram totalmente equivocados.

lousign

13 thoughts on “Sonhos de um adolescente que envelheceu sonhando errado

  1. Pingback: Lou Mello
  2. O cúmulo do altruísmo. Óbvio, total adequação, enquadramento pleno, agir conforme os outros querem e esperam. Incomoda um pouco, mas só até chegar ao grau de automação necessário para nunca mais passar pelo vexame de pensar, dizer ou fazer algo com cara de seu. Que relaxante! Eu quero.

    Bom, modelos para isso não faltam, em igrejas e blogs. Ah, se ficar de olho no Twitter, o processo será ainda mais rápido, creio. 🙂

  3. Perspicaz como sempre …

    Preciso tomar mais cuidado e não ser tão óbvio, talvez. Certo?

  4. No final sempre resta olhar pra trás e discernir qual lição Deus nos ensinou. Se foi COMO FAZER ou COMO NÃO FAZER. As considerações deste texto são ótimas para que cada um reflita sobre qual lição está aprendendo. Só espero que todos os alunos morram com a certeza de serem considerados aptos para a festa de diplomação.

    É não sei não. Prefiro pensar, e me refiro a mim mesmo, que Deus precisa fazer isso por mim, caso contrário não verei a cor do diploma.

  5. Não gostei! Meu blog é muito alinhado, sim, senhor!!! E levíssimo!!! Jamais me meti a citar Nietzsche ou fazer profundas asseverações sobre a vida, Deus ou coisa que o valha.
    Portanto, please, tire o meu da lista!!! Eu sou igualzinho a qualquer outro imbecil deste planeta!!!!

    Mesmo assim, a corregedoria da Caverna encontrou evidências de rebeldia, não alinhamento e boa dissidência em seus escritos, nos seus e nos do Adiron que justificou dizendo que o blog dele era só de insanidades. A conversa de vocês é boa, mas os velhinhos são muito espertos. 🙂

  6. Lou, como sempre você é o supra sumo dos blogueiros. Maravilhoso post.

    É nada, eu sou igualzinho a qualquer outro imbecil deste planeta!!!! 🙂

  7. Lou, você é o segundo que me coloca ao lado dessas feras da Blogesfera. Talvez eu seja mesmo a excessão que faça a regra.
    Não sei com qual me alegrei mais com a citação ou com a pirraça do Rubinho.
    Come on, Rubinho, você com sua linhagem clérico-sacerdotal é que nos fornece o aval necessário para transgredir, rebelar ou desalinhar. (A propósito, você me forneceu mais um novo argumento Killer: apelar para Einstein!!! rs!)

    O comentário do Rubinho é uma prova contundente de que a escolha do blog dele foi perfeita. Não é? Certamente, a escolha do seu também foi corretíssima. Como diria nosso mestre D. Quijote de La Mancha: Sairei em busca de aventuras em favor dos necessitados, pois isso é o que compete a um cavaleiro. Blogs não alinhados são quixotescos, mas escondem verdades eternas.

  8. É… bestialização tem nome: twittização.
    É já que aparece outra modernidade e a turma vai correndo pra lá.
    Somado a tantos outros, inclusive a democracia, os tempos (bestiais) do fim parece mesmo ter chegado.
    O fim do mundo começa exatamente aqui: “não pense mais”, isso é coisa de gente atrasada.

    Sinais dos tempos, claros, meu velho.

  9. Lou, teus últimos posts não estão funcionando via feed, explico, aparecem normalmente no leitor de rss mas o link não funciona, especificamente no Bloglines.

    Tanto é que pensei que tinha desistido do que tinha falado nesse texto e no do apóstolo de Reebok hehe.

    Raphael, dei uma boa olhada nas configurações todas. Desativei o plugin Feedburner, mas mantive o feed gerado e verifiquei que estava funcionando no Bloglines. A melhor URL para configurá-lo é http://www.lhmbrasil.com.br/blog, pois não depende dos redirecionamentos. Hoje, a Locaweb mancou o dia todo e só restabeleceu agora. Isso tem acontecido muitas vezes, o que me leva a desejar uma hospedagem em servidor estrangeiro, com outras vantagens ainda. Mas valeu demais o aviso. Obrigado.

  10. É ridículo como as pessoas entram em sites de relacionamento para se mostrarem iguais às outras. É tanta igualdade e uniformidade! Não vejo graça em tantos cd’s, livros, blogs e afins iguais. Sou mais a gruta, o Pava, sou mais a versão ARA, em fim, sou do contra! Vou na contra mão… mas se não dizer que um dia caí no pecado dos sonhos errados, minto.

    Completamente de acordo, com uma pontinha de ciúmes do Pava, mas não a ponto de me atirar em um poço. O relacionamento cibernético é muito escondido, mascarado, irreal e, se por um lado ajuda os tímidos, por outro serve de esconderijo para os cruéis. É preciso muito cuidado.

  11. Pode crer que eu frequento mais a Gruta do que o Pava! Não tanto quanto antes, e não tenho desculpas para tal.

    No que fazes muito bem… não ter as desculpas, claro

  12. É nada, eu sou igualzinho a qualquer outro imbecil deste planeta!!!! 🙂 Aliás, gosto muito de elogios, como todos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *