A Gruta do Lou

Sombras passadas

sombraEm meio às minhas sombras passadas, há esse momento em que meu filho Thomas foi colocado na maca, vestido com aquela roupinha ridícula e seguimos pelo elevador até o sexto andar. Ele foi desembarcado e eu fui interceptado. Ali, pais não são bem-vindos. Só consegui dedicar-lhe uma última benção com a mão tocada em seu braço. O elevador retornou para o quinto andar e eu para o quarto, agora vazio. Foi a mesma sensação que senti em 1996, quando ele passou pela segunda cirurgia.

Mas por que estou com essa vontade de chorar? Afinal é só um tratamento odontológico que ele fará desse jeito porque é um paciente especial. Bella roba. Agora estou pior ainda. Pensei. Jesus sentiu vontade de chorar quando viu Jerusalém, também. Deve ser alguma coisa simbiótica. Se ele visse Jerusalém agora, se matava.

Graças a Deus pela existência do Emmet Fox que morreu no ano em que nasci, 1951. Passei umas quatro horas ali e não deixei levar-me por pensamentos maus, mais. Fiz o exercício. Lembrei que o Espírito Santo estava comigo ali naquele quarto de hospital, ao mesmo tempo em que estava com o meu filho e toda a equipe de médicos e dentistas lá no centro cirúrgico. Deus estava operando por meio de todos nós. Isso é bom e faz um belo conserto em pais desesperados. Depois dizem que Ciência Cristã é heresia. Se é não sei, mas nessas horas eu fico totalmente desprovido de ortodoxias. Vou logo na seita mais prática. Se fosse tempo de filosofar, optaria por algo mais calvinista, óbvio.

Então o divino fez mais, na hora em que resolvi arriscar uma saidinha do quarto, as pessoas acompanhantes dos outros pacientes me saudaram e pude me aproximar. Conversei com todos. Seus parentes (pais, maridos e filhos) eram pacientes em tratamento do aparelho digestivo vitimados por tumores (malignos e benignos). Anotei em minha agenda os nomes de José Venâncio, um senhor que só deseja morrer para encontrar sua esposa que partiu há dois anos, do mesmo hospital e pela mesma causa e de Celso Pereira que só pensa em ficar bom para voltar a viver com sua esposa e ela está louca para levá-lo de volta para casa. Podemos orar em grupo por todos eles? Se é que alguém aí crê nessa ultrapassada prática religiosa.

Minha esposa ligou para saber notícias, ao mesmo tempo em que um enfermeiro desceu do centro cirúrgico para me dar informações. A coisa estava indo tão bem que estavam aproveitando e tratando mais dentes. No final foram tratados cinco, mas não fizeram nenhum dos que estão em situação mais crítica. No próximo dia 21, farão uma nova sessão e aí, alguns desses serão tratados (ou removidos). Garanto que lá no Arbert Eistein já teriam arrancado tudo, aqueles irresponsáveis.

Trouxeram-no de volta e tivemos que aguardar o fim da introdução do soro. Consegui convencer a chefe da enfermagem que iríamos direto para casa, onde um bom almoço estaria aguardando por ele. Falei pela fé. Assim pudemos deixar o lugar, seis horas e meia depois de nossa chegada e com cinco dentes tratados. Ah! Uma enfermeira velhinha tratou dos pés dele, sem o menor problema. Decidi que farei esse trabalho, daqui por diante. Se ela faz por que eu não farei?

Sei que você veio em busca de sexo e violência, mas hoje, ainda estou sob o efeito dos acontecimentos salutares de ontem. Uma espécie de ressaca espiritual. Desculpe. Prometo curar-me, no decorrer do dia, e volto com todas as minhas maldades e pecados amanhã, para a sua alegria contínua.

Essas sombras passadas que tornei a ver, são marcas que não se desfazem. Iludidos pensamos tê-las vencido pelo esquecimento, mas elas estão ali e nos atacam na primeira oportunidade.

Sabe quem apareceu quando estávamos saindo do hospital? O Raniel, claro. Atrasado, como sempre.

OPS: A foto além de ser temática (sombras) é para ajudá-los. Ontem não foi registrado nenhum comentário, depois de muito tempo. Quem sabe assim, melhora.

Capricornio PB

4 thoughts on “Sombras passadas

  1. Ofereço minhas orações, solidariedade e palavras de ânimo, de quem um dia passou por aqui, não estava à toa e tocou na bandinha: Tende bom ânimo!
    Sobre aquela data, acabei me perdendo aqui em meio aos afazeres, é na segunda.
    Paz!

  2. Estava aguardando essas notícias com ansiedade, estou feliz que tudo tenha corrido bem, mesmo com o atraso esperado de Raniel. Quanto às sombras, é complicado falar delas…Eu não tenho desse tipo de sombras mas tenho outras lembranças igualmente tenebrosas, portanto, aqui vai o abraço de uma ensombrada (essa palavra existe?) engrutada.

    Agora falemos de José Venâncio e Celso Pereira. Colocando a coisa em termos matemáticos, a oração de José Venâncio é menos, a de Celso Pereira é mais. Será que subindo aos céus a coisa não empata? Sei não, vamos orar, mas é bom não termos o Raniel por perto, ele pode não entender.

    Bom. Isso foi só uma brincadeira boba. Para desanuviar esse clima de sombras. Vamos orar sim.

  3. Lou, entendo seu sofrimento e sua dor.Como já lhe disse, tenho uma filha que tem uma patologia congênita.Quando ela precisou tirar a vesícula,fiquei agoniada do lado de fora do centro cirúrgico.Não temos o Raniel,mas Deus me mandou um anjo(uma senhora),que ficou o tempo todo conversando comigo,me falando de coisas boas.Isso aconteceu lá no Instituto Boldrini em Campinas,onde ela é atendida. Não é um dos melhores lugares do mundo pra se ir.Qualquer um que circule por lá, terá a oportunidade de ver crianças e adolescentes em tratamento, com os mais variados tipos de câncer.SÃO LEMBRANÇAS JAMAIS ESQUECIDAS.Ou sombras como diz você.Deus nos abençõe!

    Ué? Você tem ou não tem um anjo?

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