Solilóquio do cumprir anos

Enfim, o ano começou e segue seu curso inexorável. Hoje é o último dia de mais um ano e amanhã o primeiro do resto de minha vida.

Estranho, pois não tenho uma idéia completa e definida sobre o que farei. Apenas alguns vagos lampejos, ora mais claros ora obscuros. Continuarei insistindo com a consultoria, desenvolver o Projeto Coração Valente e voltar a tratar os Dependentes Químicos. A Da. Arlete gostará de saber dessa última parte. Estaremos em nossa cidade, isso será bom. Não me peçam detalhes, o certo é, eles ainda não chegaram a um tamanho que nos permita divisá-los.

Temos uma mesa, duas cadeiras, um computador meia boca e um telefone emprestado. Meu escritório. Minha empresa. O Blog continuará enquanto durar. Estudarei alguns temas mais acuradamente. As angustias e o desespero são meus pratos favoritos. Pretendo comê-los bem quentes e temperados. Kierkegaard, Heidegger, Camus, Sartre e Lacan estarão sobre a minha mesa, devidamente espreitados por uma velha Bíblia e um senhor de meia idade, canastrão, fanfarrão e cansado. Entretanto, convém estudar para manter acesa a chama e não dar tréguas à memória e seus filhos neurônios, loucos para vagabundear.

Sem promessas de ano novo. Serei eu mesmo, sempre que possível. Tentarei decepcionar menos e ser mais generoso com todos. Talvez descubra, daqui um ano, pelas estatísticas, ter falado em quantidade menor e ouvido mais. Quem sabe consiga ajudar abundantemente, ser ajudado raramente e aparecer suavemente, seja por onde for. De Deus, receberei o presente de ser e existir, até quando lhe convier.

Se der, viajarei. Andarei além e retornarei para confirmar que o melhor lugar é mesmo a minha casa. Mas não creio que chegarei nem perto do Pólo Sul, muito menos do Norte. Gostaria de navegar por aí, voar sentindo o prazer da liberdade e sonhar muito, mas menos em relação ao fazer. Se tiver um teto sobre as nossas cabeças, o que comer, um fusca em bom estado e roupas nas gavetas, com minha esposa feliz pelos cantos da casa, os meus filhos à roda de nossa mesa, sob o som estridente dos gritos dos meus netos, venderei tudo e darei a troco disso. Feliz serei e abençoado homem temente a Deus, continuarei.

Se ninguém escrever uma linha, quiçá uma palavra, terei me bastado como sempre foi. Deus salve a vida e os dias dela.