Só uma questão de princípios


Bill Gates é um cara pouco querido. Talvez seja pelo fato dele ser detentor da maior fortuna pessoal dentre os habitantes do planeta. Sabe, isso leva muitas pessoas com idéias de esquerda a odiarem o dono da Microsoft, pois seu sucesso indica o sucesso do viver capitalista e desacredita os contrários. Imagino que o pai dele disse muitas vezes aquela frase odiosa, a mesma que meu pai costumava me dizer, ou seja: “em um mundo capitalista, o ideal é ser capitalista”. Coitado do velho, o meu lógico, ele nem sabia direito o que estava dizendo, mas esperava que eu assimilasse a idéia. Como todos sabem, não deu certo e sou da turma que atropelaria o Bill na boa, esse excomungado. Se pensou em vida eterna, esqueça, a essa altura o Bill já comprou todas as indulgências disponíveis no mercado e irá para céu, enquanto você e eu nadaremos no lago de enxofre, onde há choro e ranger de dentes.

Um dos detalhes insuportaveis nele é o fato dele fazer Jesus Cristo parecer um ser mitológico e utópico. Dia desses, o Allyson descolou um texto sobre finanças na bíblia e publicou no blog dele, excelente, por sinal, desses que a gente não pode deixar de ver e ler, denominado Fé e Economia. Ched Myers é o autor, um fanático, teólogo menonita que escreve sobre uma coisa estranha chamada enviromentalismo. Imagine que ele inventou um trem chamado Economia Sabática, cujas bases ele encontrou na Bíblia. Segundo ele, no sábado (que não precisa ser um dia da semana, necessariamente) os credores deveriam perdoar as dívidas de seus devedores, segundo ele, foi por causa desse pecado (não perdoar os devedores no sábado) que Israel foi para o brejo. Depois você confere no post e na sua bíblia. O fato é que tudo que ele diz, procede, dentro do contexto bíblico judaico cristão.

Tão fanático quanto o Myers, ensinei meus alunos no seminário sobre o perdão sabático, anos atrás. Meus alunos não gostaram nadica. Era uma exposição da oração ensinada por Jesus e afirmei que o Mestre estava se reportando ao perdão sabático quando ensinou a seus discípulos aquela frase quase promíscua: “perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.” Alguns chegaram a se exaltar, especialmente os que tiveram educação religiosa mais calvinista (espero que o Fábio não leve isso em conta), como aconteceu nos comentários lá no blog do Allysson.

Outro dia, uma mulher, ligada aos serviços de proteção ao crédito, comentava indignada sobre certas pessoas que ficam ensinando os devedores a não pagar suas dívidas, faltar às audiências e, jamais, caírem na cilada de renegociar suas pendências. Ela não leu os livros do Myers.

Mas não se zangue, depois de viver a reboque do sistema durante anos, resolvi deixar as idéias subversivas de Jesus e do Myers de lado e aderir aos princípios do Gates. Grande cara o Bill. Para começar, sou um consumidor absolutamente contumaz dos produtos Microsoft, com exceção do Explorer Internet, afinal ninguém é de ferro. Depois decidi seguir os princípios do Gates à risca, inclusive porque eles são muito mais engajados ao capitalismo perverso de nossos dias do que as infantilidades de Calvino, que pareceria um menino aprendiz perto do Bill. Pouco tempo atrás, o Bill e eu escrevemos um post a quatro mãos, lá no meu blog-site de negócios o LHM Desenvolvimento, contendo esses princípios. Claro que o Bill não faz a menor idéia sobre esse post, mas a parte dele é autêntica e a minha também, embora não tenha nada a ver com as dele, no caso.

Das onze regras do Bill, tenho particular apreciação pela oitava:

Regra 8
“Sua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas você não repete mais de ano e tem quantas chances precisar até acertar. Isto não se parece com absolutamente NADA na vida real. Se pisar na bola, está despedido… RUA !!!!! Faça certo da primeira vez!

O conjunto da obra é o oposto às pieguices infantilizadas evangélicas tipo: Buscai primeiro o Reino de Deus e as outras coisas vocês serão acrescentadas. Acreditei nisso e me dei muito mal, enquanto alguns colegas de seminário preferiram o conselho do meu pai e do pai do Gates. Trataram de criar e/ou copiar doutrinas dos propósitos e abriram igrejas no Morumbi e na zona oeste de São Paulo e agora vestem Prada. Estou decidido a me pautar pelas diretrizes do Bill e ponto, para horror do Steve Jobs, do Brian Maclaren e do Myers, sem falar no filho de Deus.

Desculpe, mas vou parar por aqui, pois está na hora da minha devocional, ler a bíblia e orar. Nada melhor para uma segunda-feira feia como essa.