A Gruta do Lou

Síndrome de João Batista

Basilea Schlink

Consagrado ao ministério, em julho de 1979, segui viagem para a Europa a fim de encontrar outro missionário que me aguardava na sede europeia da Slavic Gospel Association, em Viena, na Áustria. Era verão por lá e eles estavam envolvidos com os chamados “acampamentos de verão no leste Europeu.”

Deixei a Dedé em São Paulo, grávida de seis meses da Carolina. O pessoal de nossa Igreja, liderados por nosso pastor, ficou encarregado da manutenção dela. Coitada. Morávamos em uma grande propriedade que tínhamos no Brooklyn (bairro nobre em São Paulo) com duas casas. Minha mãe morava na outra, naquela época. Ela saia cedinho para não ter que perguntar se minha esposa precisava de alguma coisa.

Meu colega missionário me apanhou no aeroporto de Viena. Era tarde, quando cheguei. Fomos direto para o apartamento da missão onde passamos a noite. Levei minha melhor roupa. A maioria de grife, comprada por ocasião do casamento. Algumas eram novas, completamente.

Na volta de nossa principal missão, uma viagem de pesquisa à Albânia, na época fechada ao evangelho, passamos algum tempo em Viena ajudando a finalizar a temporada e seguimos para a França, onde a missão mantinha uma base de trabalho e operações.

Nesse tempo, fizemos várias pequenas viagens, durante nossas folgas. Conheci campos de concentração, outros trabalhos e os pontos turísticos dos locais onde estávamos. Meu parceiro missionário me falou do ministério da famosa Madre Basilea Schlink, onde passou um fim de semana inesquecível. Havia lá um brasileiro que foi encarregado de guiá-lo pelos caminhos da irmandade comandada pela madre.

Fiquei impressionado com tudo aquilo, as histórias e com as pessoas, principalmente a madre Basilea, dona de um carisma irresistível. Na hora de partirmos de volta para casa, o meu parceiro missionário me deu um livrinho de capa verde cujo título é Realidades, de autoria da madre Basilea e onde há um resumo da história daquele ministério.

Li o livro enquanto viajávamos da França até  a Holanda, onde iniciaria minha viagem de volta, e ali encontrei um ensinamento básico sobre o que a madre denominava “a chave do coração de Deus” (ela escreveu um livro com esse título depois). Trata-se de uma doutrina que consiste em livrar-se dos ídolos que nos aprisionam e bloqueiam, segundo ela. Na prática, é uma doutrina de desapego. Aquilo me dominou por completo. Era tudo que eu precisava para confirmar uma tendência latente.

Aquilo fez um estrago nas minhas posses e na vida da família, posteriormente. Acho que vocês podem imaginar. Começou com a doação completa de todas as minhas roupas e pertences e favor de pastores e cristãos que viviam no leste europeu.

Voltei para o Brasil com minhas duas malas cheias de livros que ganhei da Missão e só com a roupa do corpo. Não fosse uma funcionária da cia. aérea e eu teria doado os livros na hora do embarque, também, porque não tinha dinheiro para pagar a diferença de peso em minha bagagem. Além, do mais, livros não passam de ídolos.

Continuei me livrando dos “Ídolos” até poucos anos atrás, quando doei meu único carro para um pastor e meu único computador para outro.  Fiquei compulsivo, bastava pensar em alguma coisa com mais carinho que lá vinha a palavrinha mágica “ídolo”. Tem que se livrar se não Deus não vai liberar o que ele tem para você, como aprendi com o livro da madre.

A lista de coisas doadas ou abandonadas é muito grande. Nela tem de tudo que se possa imaginar. Não cabe aqui um relato disso. Mas, é uma doença e ela é crônica. Consegue-se no máximo estancá-la, mas não tem cura. Está ai e pode voltar a ser ativa a qualquer momento.

Vivo com essa praga. Todo tempo com ímpetos de livrar-me de minhas coisas. Trabalho de graça. Se o cliente quer pagar, paga e quanto quiser, caso contrário saio sem reclamar. Já andei alguns milhares de quilômetros por causa disso. Às vezes não recebia nada quando não tinha, se quer o dinheiro da condução. Sem falar na dureza que é encarar a Dedé na volta de uma dessas “missões”.

Ando descalço, adoro mel silvestre e vestir roupas de pelo de camelo. Não ficaria surpreso se descobrisse que João Batista morava em uma gruta.

lousign

1 thought on “Síndrome de João Batista

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