A Gruta do Lou

Seria Deus um teólogo?

Seria Deus um teólogo?
Seria Deus um teólogo?

O povo estava em grande agonia, suportando as durezas do deserto, só havia maná com codornizes para comer; água para beber; e ninguém é de ferro para suportar quarenta anos comendo a mesma coisa. Havia filhos cardiopatas congênitos sem tratamento adequado, coisa que só era possível no INCOR do Egito; todo mundo com as contas atrasadas e nome devidamente inscrito no SPC e SERASA; medo do oficial de justiça aparecer para tomar as coisas, começando pela casa, e toda sorte de incômodos desérticos. Os olhares lançados contra Moisés eram insuportáveis e ele próprio dizia a si mesmo, o tempo todo: “Sou mesmo um tolo imbecil e não deveria ter me metido nessa encrenca”, ou algo assim.

Então, em meio a esse turbilhão de problemas, resolve fazer alguma coisa, começando por livrar-se daquelas caras de reprovação e decide subir a montanha. Alguns até fizeram menção de acompanhá-lo, mas ele os deteve alegando que Deus queria falar-lhe em particular. Intuiu ser melhor não fazer testemunhas que teria que eliminar depois.

Ninguém sabe direito o que aconteceu lá em cima. O escritor de Gênesis, pelo menos nesse trecho, certamente não era Moisés, pois está descrevendo as aventuras desse exótico escolhido de Deus na terceira pessoa. Entretanto, considerando o tempo que Moisés permaneceu lá, os velhos quarenta dias de sempre, presumo que ele deva ter traçado, centenas de vezes, uma boa rota de fuga. Pelo menos, é o que eu faria no lugar dele. Mas Moisés fora educado para ser Faraó, vontade secreta de sua mãe adotiva e que ninguém duvide, ela faria isso acontecer se o próprio filho não tivesse melado tudo, matando um inocente egípcio. Esse detalhe ajudou-o naquele momento de grande aflição, afinal Deus não costuma aliviar para quase ninguém nessas horas. Deve ser algum jeito divino de divertir-se ou algo assim. O ex-candidato a Faraó, sob um raro céu cheio de estrelas e um frio mais suportável em uma daquelas noites e dias, acabou concebendo um plano com o seguinte conteúdo:

Considerando que Deus não fala com suas criaturas através do método tradicional, ou seja, o velho fala que eu te escuto, pois o barba branca gosta de jogos masoquistas de comunicação, cheios de enigmas e parábolas, ou um divertido diálogo de um homem com uma mula, quando não usa algumas antas para fazer o serviço, Moisés lembrou que seus conterrâneos, em meio a toda aquela confusão regada a areia e muito sol, acreditavam, sabe-se lá qual a razão, que ele falava com Deus, como você e eu falamos no Skype, de vez em quando.

Sendo assim, decidiu agir como se tal realmente houvesse sucedido. Aquela algazarra toda precisava de ordem e progresso e nada melhor do que legislar nessas horas, como faria qualquer medíocre presidente da república, teólogos inconvenientes ou o síndico de seu prédio. Limpou uma boa área ao redor de onde estava e começou a escrever as leis. Ele dominava várias línguas, entre elas o sânscrito, a escolhida nessa fase do processo, e a primeira lei veio fácil, pois já estava com a consciência doendo e temia a desaprovação do divino. Saiu a indiscutível “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, já aproveitando para liquidar com qualquer ideia de algum terrorista infiltrado, afinal entre aquele povo estava cheio de palestinos e nada como Deus determinar a todos para amarem-se mutuamente, com todas as redundâncias inclusas, para aplacar o ódio desses malucos filhos de Ismael. Essa lei foi tão bem bolada por Moisés que milhares de anos depois, o próprio filho de Deus, mesmo com o poder de veto, trataria de homologá-la, mesmo não sendo ano eleitoral, considerando-a como a lei das leis, praticamente, vetando todas as outras  emendas inclusas no documento de pedra do velho Mosa.

Naquela mesma noite choveu, coisa rara naquelas paragens e Moisés intuiu que, se escreve-se o resto de seu tratado teológico na terra, perderia tudo, fora o trabalho de reescrever seu post, digo texto, ou melhor, lei. Levou alguns dias para conceber o método de escrita na pedra, mas sua mente preparada para construir pirâmides ajudou e ele encontrou o jeito de fazê-lo. Pena não ter escrito sua tese de mestrado ou doutorado sobre esse tema e ter nos deixado sem esse conhecimento. Se escrevêssemos sobre pedras ao invés de papel e computadores seriamos muito mais ecologicamente sustentáveis agora. Aproveitou para traduzir tudo para o hebraico, mais palatável naquela altura.

Depois disso, a tarefa ficou relativamente fácil, se é que podemos considerar aquilo como tal. Pelo tempo que demorou, o método mosaico devia ser bem lento. Faltava uma boa ajuda norte-americana para torná-lo mais prático, coisa que Steve Jobs e Bill Gates conseguiriam realizar com algumas piscadelas ou digitadas apenas.

Nessa altura, se você estiver pensando que estou querendo afirmar que Moisés teria sido o primeiro teólogo, acertou em cheio. Então, por que não titular esse texto com algo como: “Moisés, o primeiro teólogo”? Elementar meu caro amigo, primeiro esse título já foi usado por um monte de panacas por aí e depois, porque desejo mesmo é acabar com todos os mitos contrários e afirmar que Deus não faz teologia. Negócio dele, em minha modesta opinião, é viver e deixar viver, perdoar, esquecer as coisas que para trás vão ficando, responder a tudo com: necessário vos é nascer de novo, ou seja como essa criança, que significa a mesma coisa, enfim, o velho e bom amor ágape e suas insignificâncias. Teologia é coisa do diabo, afinal a quem interessaria embaralhar tudo?

Mas nossas vidas e sistemas estão repletas de teologia, sem falar nas outras pragas, a psicologia e sua irmã mais velha, a filosofia, que deram origem a tantos outros joios, verdadeiros vírus em meio à criação de Deus. Problema é que os laboratórios cibernéticos celestiais não conseguiram inventar nenhum antivírus capaz de neutralizar essas raças de víboras que, cada vez mais, fazem adeptos por todos os lados, inclusive eu. Na verdade, o antídoto divino contra o cavalo de tróia teologia32 é o “evangélio”.  O primeiro dogma que me foi ensinado, através de minha avó, foi: “Luizinho, vá lavar as mãos para almoçar porque papai do céu não gosta de meninos que comem com as mãos sujas”. E o segundo foi o padre Teodoro lá no Meninópolis, que ensinou que sexo antes do casamento era pecado, embora ele mesmo não o cumprisse. Teologia pura, recheada de psicologia e filosofia como sempre, e sem nenhuma concordância da parte do Criador.

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Ops: Estou decepcionado, para não dizer algo de baixo calão, com meus samaritanos que resolveram dar uma de sacerdotes em momento tão delicado. Tudo bem, fazer o que? Mais uma vez, essa maldita teologia da benemerência.

morcego-12

8 thoughts on “Seria Deus um teólogo?

  1. Por outro lado – que lado? – tudo é teologia, não? Afinal, o Criador se manifesta na criação, portanto tudo que descobrimos e conhecemos – das ciências naturais e humanas – reflete seu Autor. Neste caso, a teologia é uma futilidade supérflua.
    Salvo engano…

    Na definição Teologia= Estudo de Deus ou sobre Ele, trata-se de um exercício exclusivamente humano. Às tantas, o homem (gay ou não, ou mulher) resolveu que estudar era postular, deixando de lado, por exemplo, o simples e bom ato de descobrir. Foi aí que reinventaram Deus, como se fosse um Código Espiritual, ou seja, um amontoado de leis e dogmas. Nas culturas panteístas Deus vive em tudo, o criador é a sua criação, etc. Tudo bem, até pode ser, mas a teologia é absolutamente humana, mesmo tendo Deus como objeto de estudo. Se estudasse vá lá, mas o estudo virou invenção, criação e postulação. De fato, uma grande futilidade. Mas gosto dela, se puder desconstruí-la.

  2. Mas, e se ele não tivesse decretado essas leis, teria como controlar esse bando de encrenqueiros?
    O Rubens esta certo: tudo na criação tem leis: na física, na matemática, na biologia. O homem não as cria, as descobre porque elas ja estão lá, desenvolvidas pelo próprio Criador.
    Se Moisés escreveu as primeiras leis, ele as deve ter descoberto, não inventado. Como um físico leva anos para desvendar uma determinada lei da física baseado na observação inicial do comportamento dos elementos envolvidos, Moisés deve ter sido um grande observador do comportamento humano para desvendar as leis que poderiam disciplinar o homem e que na verdade tinham origem na própria criação.
    O problema não é a teologia. O problema são os teologos

    Depois de toda uma educação fincada em uma teologia falsa e repleta de farsas, apimentada por outras estruturas não menos perversas, fica difícil conceber um mundo ou a vida sem dogmas. Coisas simples como deixar o rio correr, confiar no livre arbítrio ou não acreditar que o ser humano seja intrinsecamente mal e capaz de achar o rumo certo, por exemplo, sobretudo, conceber um Deus desprovido de regras, ao contrário, um Deus amor, somente amor. Penso que teologia e teólogos tornaram-se grandes e insolúveis problemas para a humanidade.
    A propósito, obrigado pela visita e comentário. Volte sempre.

  3. No caso, a “teologia mosaica” servirá de base para todo o decorrer da Bíblia. Não seria uma teologia necessária, a de Moshe rabeinu?

    E, partindo do seu ponto de vista, um dos propósitos da Encarnação seria o de desteologizar o relacionamento entre Deus e o homem?

    Abraços flaternos

    Talvez a base venha desde antes de Moisés, ou seja, de Adão e a grande farsa do pecado Adâmico. Mas dele vem os primeiros indícios teológicos, é verdade. De qualquer forma, a tarefa é a desconstrução da teologia e o termo que você cunhou se adapta muito bem, dando lugar a uma outra relação com o criador.

  4. Lou, teologia é uma area do conhecimento humano descredenciada por Deus. Jesus disse: “Nem um ser humano conhece o Filho, se não o Pai, e nenhum ser humano conhece o Pai,se não o Filho e aqueles a quem o Filho quiser revelar.”

    Problema é que idolatraram tanto a bíblia que ela virou Deus e é o objeto de estudo dos teólogos. Também gosto de estudá-la, mas procuro manter os limites devidos. Ele está lá, mas a bíblia não é Ele.

  5. Lou, se eu fosse teólogo trocaria a teologia pela filosofia. Começaria estudando Voltaire, porque é de fácil compreensão. Depois estudaria Denis Diderot, Neetzche passando por Kant, até Saramago. Aí estava Feita a assepsia. Em 6 passo o que faria Jesus, é um bom livro.

  6. De todo o texto, apenas pude me lembrar de ter ter jogado uma maça no digníssimo Padre Teodoro.
    Estava na 3 série, e certo dia me cansei daquele motherfucker me pondo em fila 2 vezes ao dia.
    O “recreio” acabou e meu futebol foi interropido pelo sinal forte e a voz forte do padre no meu ouvido.

    Entrei em fila e em estado de raiva avistei uma maça..nãop tive dúvidas, arremessei contra ele e acertei bem na barriga.

    Fui expulso

    1. Cesinha
      Obrigado pela visita e comentário. Se me permite, pior que ser expulso, teria sido um beliscão do pacífico Pe. Teodoro em seu braço. Creia-me
      .

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