Ser ou não ser? Pode ser a grande questão…
Leis
Leis

 

Muitas pessoas, se não todas as marginalizadas de alguma forma, perguntam, incansavelmente, onde foi que erraram, ou qual o grande pecado cometido para serem excluídas.

Olhamos para os lados e deparamos com as pessoas “bem e as não tão bem sucedidas”, sob critérios que até Deus duvidaria. Há livros sem conta determinando as 3, 4, 5, 6,10,… características das pessoas bem sucedidas. Ao mesmo tempo, cada um de nós conhece, ao menos, um bem sucedido que não se encaixa em nenhuma delas.

Desde crianças colecionamos listas intermináveis de coisas a fazer e leis a obedecer, sejam as que emanam do estado, ou as que provem de algum deus de plantão, fora a mais desumana das leis, ou seja o código secreto existencial, que nunca foi escrito e está na cabeça das pessoas. Você só toma conhecimento dele, quando infringe uma das leis dele e toma uma grande cacetada da qual jamais esquecerá.

Esses dias, postei uma mensagem curta no Facebook com link automático para o Twitter, reclamando de duas empresas que me arguiram ultimamente, baseado em regras próprias, cunhadas em seus próprios porões, sem qualquer sintonia com as leis mais conhecidas, sejam as do Céu as do inferno. Uma leitora, nossa conhecida desde os tempo áureos, quando éramos os jovens de certa igreja, para vergonha de todos nós, comentou: “como não há lei, a empresa faz o que bem entender”.

Cara, essa afirmação me irritou profundamente, não por me contrariar, mas porque, ainda que às avessas, ela pode estar certa.

A grande verdade é que vivemos em um planeta onde há abundância incomensurável de leis. Todo mundo aqui legisla no espaço que ocupar.

Muito tempo atrás, visitei o Xingu e, em determinado momento, fomos visitar uma pequena cascata. Nossos guias eram todos índios jovens, sendo que um deles, um pouco mais velho (uns 15 anos) nos pareceu lidera-los. Em um ponto da trilha ele tomou a nossa frente e fez sinal para mudarmos nossa rota, passando por trás de uma pedra enorme. Do ponto em que estávamos já era possível ver a cascata, bem como ouvir o som das águas, claramente. Menos tímido que os demais, perguntei-lhe por que desviar, já que isso não parecia fazer nenhum sentido. A resposta não poderia ter sido mais emblemática: “Tem que ir por lá porque eu quero.”

Quando a coisa vem com nome de Código disso ou daquilo, estatutos não sei de que, constituição nacional ou irracional, e todos esses nomes esdrúxulos, sabemos tratar-se de leis, regras e normas. O problema é existir muitos códigos que não levam esse nome. Por exemplo, vivemos sob um cem números de leis que nos dizem o que podemos comer, vestir, falar ou calar. Agora há todas essas leis ditas ecológicas e estamos todos sendo obrigados a reorganizar nossas vidas. Até as Igrejas estão se tornando ecológicas. Nada de culto à noite para poupar energia. Pastor não ganha mais carro movido gasolina, só a álcool (ou etanol). É proibido bancos de madeira nas igrejas, só aquelas ecológicas e seguras poltronas de plástico próprias para pessoas até 90 kg. O resto que emagreça ou fique em pé, enquanto padres e pastores desfilam ou destilam seus rosários.

Diante disso tudo, vemo-nos obrigados a planejar nossas vidas, minimamente dentro do aceitável por todos esses códigos de leis adoráveis. Podemos escolher o que vestir, tentando fazer nossa indumentária parecer o máximo com algo aceitável pelos juízes da hora, aí poderá ser pelas normas dos punks ou pelas dos judeus ortodoxos e mais algumas outras, como essa que nos é dada todos os anos pelo SP Fashion Week. Também podemos escolher onde estudar e no que trabalhar, desde que seja uma das opções ditadas segundo os interesses da Revolução Industrial.

A cor da pele não dá para mudar e se você não nasceu com a cor certa, azar o seu. O cabelo até dá para alisar ou substituir por uma linda peruca, mas saiba que não conseguirá enganar nem ao menor observador dos verdugos de plantão. Dentes podem ser repostos, caso você tenha perdido os originais, devido ao consumo ilegal de um monte de porcarias que muitas vezes você mesmo ajudou a fabricar. Mas não se engane, essas peças de reposição poderão ajudar só no quesito aparência, mas no resto…

Agora, se você desobedeceu e não pagou suas contas em dia, e aí não há desculpas aceitáveis, você estará frito, tanto quanto os amigos de Davi e o próprio, que tiveram que se esconder em uma gruta para não serem riscados da face da terra.

Tudo isso e muito mais fará parte do tal do nosso ser. Em outras palavras, nós viemos a esse mundo para ser, ser o que querem que nós sejamos. Ai daquele que resolver ser um não ser o que todos esses outros querem através de suas leis.

Só para liquidar a fatura, uma das frases que mais ouço hoje em dia é a tal: “São as normas da empresa”. Se você soubesse o que eu gostaria de dizer quando escuto essa maldita frase, certamente diriam que sou algum homem das cavernas, ou grutas.