Sentimentos de um rei sem trono

Apesar daquela coragem toda, uma fé no próprio taco de fazer inveja a todo o exército de Saul, inclusive no próprio rei, que viu Davi eliminar o pior inimigo de seu futuro sogro perplexo e envergonhado, o arremessador de pedras via fundas andou por muitos lugares até refugiar-se na Caverna, finalmente. Imagino o narrador dessa história constrangido ao incluí-la em seu relato, sabendo que o documento passaria pelo crivo de Salomão, filho revoltado do pai fujão, outrora herói em Israel.

Inacreditável, como um homem com toda aquela capacidade, com o diploma de rei na mochila (o primeiro e único que conseguiria na vida) foi parar em lugar tão insignificante como uma Caverna em companhia de bárbaros e párias? Afinal como você classificaria pessoas incapazes de pagar suas contas, vivendo desempregados ou sem um negócio qualquer e desmotivados para começar de novo?

Creio entender Davi, pois tenho passado meus dias como se estivesse enfurnado em uma Caverna. Imagino seus sentimentos naqueles dias, entre sua chegada e o dia em que o profeta veio para livrar sua cara, com uma mensagem enviada por ninguém menos do que Deus, para ele se pirulitar dali e posicionar-se na direção do palácio real, prestes a cair em suas mãos. Essa passagem joga por terra o argumento daqueles que evitam os profetas, como aquela bobagem sem imaginação: “se Deus quisesse falar comigo, falaria direto a mim, olho no olho, ao invés de mandar recado via um profetinha qualquer.”

Naqueles dias cavernosos, vários sentimentos se fizeram presentes no ungido de Deus e Samuel. A famosa angústia pela separação, descoberta por Kierkegaard ao estudar essa passagem bíblica, entre outras do gênero, pelo fato de estar longe da família, de seu povo e de Deus. Isso fica muito claro com a chegada dos familiares, trazidos às pressas para dar-lhe alguma segurança. A presença dos quatrocentos miseráveis e suas famílias serviu de alento aos seus sentimentos de desprezo, insegurança e isolamento.

Suponho que Davi estivesse mais duro que eu em meu exílio compulsório. Isso causa frustração, sensação de prisão e depressão insuportáveis, além da bacia cheia de contas a pagar e a despensa vazia. Os devedores ao seu lado me dão essa sensação. Nos últimos tempos, só gente desse tipo me visita ou telefona, mas em quantidade infinitamente menor, se compararmos com Davi em seu refúgio. Pessoas em situação regular, quando aparecem, chegam com ar arrogante e se divertem deixando suas esmolas, geralmente em forma das malditas cestas básicas. Evidentemente, ele tinha medo, primeiro de morrer e depois de matar um cara sabidamente protegido de Deus. Não tenho medo de morrer, mas temo os verdugos e o tempo que não para de passar, sem falar no meu profeta que até agora não deu as caras.

No fim, a história acabou bem, como nos melhores roteiros holliowoodianos, para azar do Urias, que graças a essa aliviada dada a Davi pelo Maioral do Céu, perdeu a linda mulher, morreu assassinado e cheio de chifres, tempos depois. Se Deus me livrar dessa minha Caverna, estou disposto a deixar de lado a possibilidade de repetir qualquer aventura similar à realizada pelo homem segundo o coração de Deus contra o infeliz do Urias. Não tenho mais idade para isso e nem quando tinha, o fiz ou desejei fazê-lo.