A Gruta do Lou

Senda de um renegado

O Paulo Brabo tem razão, sou mesmo um indisciplinado punido pelo neoliberalismo. Afinal, teimo em não ceder às suas exigências reguladoras do desejo e da imaginação do público. Mesmo diante dos alertas de gente bem intencionada como o Brabo e a estarrecedora constatação das perdas materiais sofridas com minha insana postura, insisto em continuar na senda de um renegado.

As exigências neoliberais querem a minha conversão, não apenas meu currículo, capacidade ou força de trabalho. Me lembro do tempo em que dirigi uma Fazenda de Recuperação de Dependentes Químicos, era voz corrente lá que quando um ex-interno aparecia de boné, brinco novo na orelha, fone no ouvido from algum MP3 ou 4, celular completo ou netbook, certamente estaria recaído. Incrível como essa descrição cabe a quem se converte ao neoliberalismo. No caso de pessoas com meu perfil, talvez caiba um carro da linha Nissan, roupas de grifes voltadas ao fashion de meia idade, apartamento no Morumbi ou algum lugar parecido, conta no Citybank, todos os cartões existentes na carteira, caneta Montblanc no bolso da camisa, Rolex e , claro, a Harley na garagem para os passeios sabatinos, também. Inclusive, muitos colegas de ministério foram porta vozes desses convites demoníacos, ao longo de meu ministério.

Entretanto, aqui estou, nesta plena segunda-feira, em minha casa alugada na periferia de Sorocaba, sob as pressões pertinentes a um grutense da gema. Gente assim, sente-se como se estivesse sentado ao lado de uma aboboreira em decomposição, relutando em avisar os ninivitas da destruição iminente, caso não se arrependam de terem se convertido ao neoliberalismo ou em uma cela qualquer, de alguma prisão infame do Egito, acusado de comer a mulher de Potifar, sem tê-lo feito, ao menos. Pior, no caso de José houve a bondade do cozinheiro que lembrou ao Faraó sobre o decifrador de sonhos na Prisão, enquanto ninguém lembra, a nenhum desses malditos Faraós pós modernos, de minha sabida capacidade de interpretar sonhos e coordenar projetos de desenvolvimento. Só me resta apreciar a demolição … inevitável. Além, é claro, da tentação monstruosa e sempre presente de sucumbir ao inimigo e vender-lhe a alma por um prato de lentilhas, se bem que, seria mais provável se fosse por uma pizza daquelas que só encontramos em pizzarias paulistanas.

Enquanto puder resistir, seguirei escrevendo meu livrinhos e apostilas sobre a administração ética e bíblica das ONGs cristãs ou não, esperando que uns poucos mil ou dois mil os solicitem. Aliás, essa tem sido minha principal desculpa aos credores, assim que terminar de escrever o material e dar-lhes alguma forma de edição, certamente eles serão requisitados aos montes e poderei saldar todos os débitos pendentes no mercado. Claro que alguns malucos como eu, mas mais abençoados, poderão enviar suas contribuições sem essas contrapartidas duvidosas. Nesse caso, a recompensa fica por conta do divino, como bem me ensinaram o Murdock e o Malafaia. Justiça seja feita, o Jorge Tadeu e o Tio Cássio também merecem algum crédito por isso. Acho que ainda tenho esse direito, mesmo porque, as unções ministeriais continuam sendo vitalícias, se não me engano, e me mantenho dentro dos meus votos sacerdotais, até mais do que certos padres, pastores e bispos por aí, embora minha igreja e meus projetos sejam mais cibernéticos. Ninguém me doou aquela esmolinha de mil, igual fizeram ao Malafaia, mas um dos doadores dele, meu conhecido, me doou cem, afinal era necessário guardar as devidas proporções.

Entretanto, estou confiante. Certamente vencerei o dia, como sempre, mesmo sem qualquer notícia auspiciosa até agora. O pessoal costuma fazer suspense e só faz pedidos ou esmolas na Bacia das Almas. Não estou falando do blog do Brabo agora, mas do significado original da expressão, como meu pai costumava usá-la em relação à feira da semana.


7 thoughts on “Senda de um renegado

  1. Puxa! Até parece que vc tá falando de mim…(eu até poderia assinar embaixo).
    Um abraço.

    OBS: Chego ao fim do dia crendo em Deus mas ainda me sentindo um lixo.

    Supõe-se que há muitos mais como nós para os quais esse texto se encaixaria como uma luva.

  2. Olá tio,
    O prof. Mário Cortela disse que a plataforma da ética é estabelecida no querer, poder e dever. Ou seja, nos imperativos que suprem e regulam nossas necessidades. Então, meu caro amigo, se ele(Cortela) tem razao, sua “posição “renegada” esbarrou em algum pilar imposto pelo neoliberalismo.

    Ele deve estar certo, então.

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