Êxtase

 

êxtase

“O último dos simples, contanto que pratique o culto do coração, é mais esclarecido sobre a realidade das coisas que o materialista que acredita tudo explicar pelo acaso e o finito.”

Ernest Renan em A Vida de Jesus

 

Decisão tomada, sim por que não? Posso optar por minha religião com consciência, razão e meu ser adulto. Posso mais, estar livre para sentir. Fiz do cristianismo e seu herói perdedor a minha religião. Seria injusto se não reconhecesse que foi ela quem primeiro me encontrou, e não perdeu tempo, me cativou ainda menino. Embora estivesse muito próximo da Igreja Católica, com sacramentos inclusos, não foram os padres somente, mas o que eu podia ver, ouvir e sentir, além deles. Depois vieram os pastores e fizeram bem a sua parte. Pena que não existem mais como eles.

Longe de mim tentar esconder meus encontros nas madrugadas com o Raniel, acho que ele busca conselho comigo, pode? E os anjos que vejo por todo lado, coisa incomum? Nem, tampouco aquela língua estranha falada na solidão de minhas viagens noturnas de carro, entre São Paulo e Sorocaba, as visões, os sonhos, as mensagens, tudo referendado por ninguém menos do que Paulo, o apóstolo, apesar de toda sua calvinice e calvície.

Passei horas, dias e meses aos pés de um Rabino. Um de meus melhores amigos é judeu. Inebriaram-me os tibetanos e os samurais japoneses. Troquei ideias com um muçulmano sobre o Islã, por muito tempo. Quando criança, tínhamos uma casa na praia e, principalmente, no primeiro dia de cada ano, ficava horas ao lado das rodas de Umbanda que se formavam na areia assistindo o batuque, a dança e o acasalamento entre os fiéis e seus espíritos possuidores, fascinado com aquele êxtase, sem nunca ter desejado experimentá-lo. Ainda citando Renan: Os mais graves erros que elas misturam a essa afirmação não são nada comparáveis ao preço da verdade que elas proclamam.

Sou incapaz de não me emocionar com uma criança que me traz uma goiaba apetitosa sem qualquer interesse. Mas o sofrimento humano em todas as suas facetas perversas me esmaga. As crianças sujas e se-viciadas em nossas favelas, as vítimas da fome, das guerras, da miséria e agora da AIDs no continente africano, os iraquianos em sua desgraça, os libaneses e sua dor, os doentes, os endividados e os sócios do Bolsa Família. Todos unidos em fazer de mim o mais miserável discípulo perdedor de um Deus cristão paradoxal, mas fascinante.

Em minhas insanas racionalidades, sou o ser mais emocional, emocionado e cativo das minhas emoções sobre a face da terra, a meu ver. Agarro agora a Morte da Razão do Francis Schaeffer e continuo sem poder fazer parte dessa conspiração que visa matar meu único ponto de equilíbrio, capaz de manter-me em pé, mesmo com toda a adversidade que me sufoca e me puxa para o fundo do abismo inundado pelas emoções, seja qual for a cor delas.

 Essas duas companheiras, a razão e a emoção irão comigo em êxtase até o último suspiro, posto que não viveria sem elas.

090613_0140_Umanjoentre2.jpg

Powered by ScribeFire.