A Gruta do Lou

Selos e posses

Quarta-feira, Julho 26, 2006

filatelista

Christian era um homem comum. Destacava-se por ser muito bem sucedido. Sua família era quase um sonho. Uma esposa linda, companheira e devotada à família. Dois filhos em franco progresso, bons alunos, o menino em estágio avançado no violoncelo e a menina no quinto ano de piano. Tinha casa própria, dois carros e casa de na praia. Sempre estava bem humorado e não era para menos, a não ser, quando alguém tocava no assunto proibido.

O avô de Christian o iniciou na Filatelia (atividade de colecionar selos). Ele próprio tinha cerca de três mil selos raros. Ainda menino, Christian perguntou ao avô qual era o selo mais raro do mundo. Demorou, mas sentindo a morte chegar o velhinho chamou-o e fez a revelação: O selo mais raro do mundo é o Cavalinho Sardo, um pequeno gênio montado sobre um cavalo, impresso numa folha da qual constava a tarifa postal. Os cavalinhos foram emitidos pelo Reino da Sardenha em folhas de 15, 20 e 50 centavos: a emissão provisória, de 1819, era impressa em azul, e a definitiva, de 1820, era um relevo aplicado a seco. Só existem três no mundo, atualmente. Um está em exposição no Louvre, obviamente. O outro foi adquirido, recentemente, em um leilão em Londres pelo Bill Gates e quanto ao terceiro não há notícias. Antes de morrer, o ancião legou-lhe a coleção de três mil selos raros, como era de se esperar.

Desde então, a obsessão pelo Cavalinho Sardo tornou-se a miséria de Christian. Apesar de, aparentemente, bem sucedido em tudo na vida, tocar nesse nome era iniciar uma revolução. Os dias passavam calmos. Na casa da família ouvia-se o som do violoncelo e do piano, às vezes em conjunto e outras vezes em solo único.

Certa manhã, ao abrir sua caixa postal, Christian recebeu uma mensagem singular. O Senhor Eloin, proprietário da maior indústria da cidade, escreveu-lhe: “Doce é o sabor do mel, sublime o aroma das rosas na primavera e intrigante o galopar do Cavalinho Sardo. Apareça para o chá das cinco.”

Christian passou às oito horas mais terríveis de sua vida (tempo que o separava das cinco horas da tarde), naquele dia. Enfim, o grande momento chegou. Dirigiu-se ao local vestindo seu melhor terno. Foi recebido, pontualmente às cinco. Sr. Eloin tinha um brilho insuportável nos olhos. Fez uma onda danada ao fazer questão de servir o chá pessoalmente. Narrou todo o procedimento da cerimônia do chá que aprendera com um mestre no Japão, para o suplício do nosso amigo filatelista compulsivo.

Enfim, chegou o momento esperado começando pela grande revelação. Sr. Eloin ficou em pé, olhou Christian diretamente e anunciou sem mais rodeios: “Eu tenho o selo.” Fez uma pausa, observando o estado de saúde do pobre coitado e continuou: “Estou disposto a negociá-lo com você.”

Christian estava sentindo tudo. Alegria, dor de barriga, tonturas, etc… Demorou eternos minutos para conseguir articular algumas palavras. Por fim, conseguiu expressar: “Por quanto?”

O Sr. Eloin não era, propriamente um indivíduo fácil de tratar. Era conhecido como “osso duro de roer”. Enfim, respondeu: “Vamos ver, de quanto você dispõe em dinheiro? Diga logo tudo que têm para não perdermos tempo. Tempo é dinheiro.”

Christian pensou um pouco e respondeu: “Somando os investimentos, a poupança e o saldo em conta, R$ 2.500.000,00.”

Sr Eloin: “Muito bem! Eu fico com esse dinheiro todo. O que mais você tem de valor?

Christian: “A casa, digo, as casas. A que eu moro e a da praia.”

Sr. Eloin: “Fico com as casas, também. O que mais?”

Christian: “Bom, tenho os dois carros, as joias da família, algumas obras de arte, de certo valor, a mobília, os instrumentos musicais, utensílios domésticos, as roupas, os livros… e a coleção de selos, claro”

Sr. Eloin: “Ficarei com tudo isso, também.” O que mais você tem?

Christian: “Agora só me restou a família, minha mulher e meus filhos.”

Sr. Eloin: “Fico com eles, também.” Alguma coisa mais?

Christian: “Não, já lhe dei tudo que tinha.”

Sr. Eloin: “Muito bem. Gosto de negociar com homens que sabem o que querem. Aqui está o selo, o legítimo Cavalinho Sardo.”

Christian, não podia crer. No fundo, não acreditava que isso pudesse acontecer algum dia. De repente, caiu em si e refletiu: “Caramba! Acho que endoidei. Acabo de dar tudo que tinha por esse pedacinho de papel velho. Sem pestanejar entreguei até meus filhos e a minha esposa. Assim, decaiu-lhe o semblante.

Sr. Eloin estava observando-o. Então disse: “Meu caro Christian. Acho que sei em que está pensando, neste momento. Você é um bom homem. Embora você tenha me passado a posse de todos os teus bens e de sua família, vou deixar tudo isso com você, para que continue administrando. Mas lembre-se, nada disso lhe pertence mais. É tudo meu. Seu único bem, nesta vida, é esse papelzinho em sua mão. Sempre que eu requerer qualquer dessas coisas ou pessoas, você abrirá mão imediatamente, sem senões.

Christian saiu da indústria em puro êxtase. Seguiu seu caminho e agora tornara-se, verdadeiramente, o homem mais feliz do mundo.

# posted by Lou @ 12:28 PM

Capricornio PB

5 thoughts on “Selos e posses

  1. Caramba, e o velhinho depois me passou a conversa e disse que o último selo era o que me vendeu 😉

    Agora entendo que era verdade.
    # posted by Paulo Brabo : 7/26/2006 3:56 PM

  2. Cavalinho Sardo? Não era uma pérola, escondida num baú, enterrado num campo??? Acho que já cruzei com o doido do Cris por aí…
    # posted by rubens osorio : 7/27/2006 1:20 PM

  3. Hmmm
    Cristhian…
    Sr. Eloin…

    Mensagem subliminar hein…
    # posted by Hernan : 7/28/2006 1:28 AM

  4. Pingback: Lou Mello
  5. Também comprei o último selo do velhinho. Então Paulo, como é de domínio público, ele requereu algumas coisas da minha lista, alguns anos depois. 🙁

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