A Gruta do Lou

Samba, futebol e cerveja entre nós

Não há muito a fazer, as caminhadas no final das tardes de outono, enquanto as folhas caiam preparando o estofo de inverno, os papos regados a bom vinho tinto, sob o calor dos aquecedores e a alma cheia de vida para gastar. Tudo isso se foi e são lembranças deliciosas, ternas e eternas. Não foram muitos dias, mas suficientes para entrar nos trilhos e balizar um lugar ao sol.

Os Pendergrass deram sua pitada em minha formação tardia e os dias passados em Huntsville – Alabama foram decisivos para o desencaixe de minha vida em instituições religiosas. O Don foi um pastor batista zeloso e exemplar. Conheci-o quando veio participar de um projeto de apoio da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos às Igrejas Batistas de São Paulo. Ele foi designado para a Igreja Batista do Sumarezinho. Como não havia ninguém na Igreja que falasse inglês, fui convocado às pressas para ciceroneá-lo. Na época, era seminarista daquela igreja e cuidava de uma congregação na Vila Madalena. Passamos vários dias caminhando pelo sobe e desce daquele pequeno bairro íngreme, entrando e saindo de casas simples, conversando com as pessoas nas ruas tentando convence-las que Jesus Cristo era uma opção legal.

Antes de voltar para casa, o Pastor Don Pendergrass cometeu o grave erro de me convidar para visitá-lo, caso fosse aos EUA. Pouco tempo depois, fiz uma viagem para lá por razões ligadas à minha empresa da época e apareci em Huntsville. Acabou sendo uma visita oportuna para os dois lados, para eles porque cheguei bem na semana de avaliação do projeto São Paulo e acabei funcionando como um documento vivo do trabalho.

Engraçada essa perspectiva dos irmãos norte-americanos a respeito dos brasileiros. Eles pareciam não saber que todo mundo aqui já sabia quem era Jesus, só não queríamos deixar o samba, futebol e a cerveja sagrada de todos os happy hours. Malandros foram os pastores brasucas que acabaram liberando tudo isso, enquanto logravam o êxito de obter uma frequência maior, com a consequência financeira implícita. A Igreja Batista do Sumarezinho que o Don tentou fazer crescer através da minha voz não existe mais. Virou parte da Igreja Batista da Água Branca.

Nessa altura eu já estava fora. Vim para Sorocaba e acabei não me encaixando em igreja alguma, como membro ou parte da liderança. Por alguma razão inexplicável, sempre que pregava em alguma delas, nunca mais me convidavam a voltar. Talvez seja o meu leve estrabismo ou por mexer demais as orelhas enquanto falo. Bem, algumas posições teológicas podem ter incomodado, também. Tenho péssimos hábitos como citar hereges do tipo de Bonhoeffer, Agostinho, Cipriano e até alguns católicos, como Anselm Brunn e, claro, o Manning. Que posso fazer se vivo cheio das palavras deles? Além disso, tenho péssimos defeitos como não tomar muita cerveja, não tolerar samba e estar cansado de futebol.

Poucos anos atrás, troquei E-mails com o Don Perdergrass. Ele jubilou e virou consultor de empresas. O filho dele é um cantor gospel de sucesso nos states.

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