A Gruta do Lou

Sakineh, a mulher adultera

Sakineh
Sakineh

Séculos atrás, dava aula em uma faculdade de teologia. Uma vez por semana, havia um culto onde todos participavam compulsoriamente. Era comum que o pregador (a) fosse um dos professores. Assim tive minhas chances, para horror de muitos, já que minhas prédicas costumavam causar certo frisson maniqueísta.

Uma das que mais guardo na lembrança, tinha por texto e tema aquela história da mulher adultera atribuída a Jesus, quando ele teria desafiado a algum dos presentes que não tivesse pecado jamais, a atirar a primeira pedra na vagabunda. Diz a lenda que ninguém se apresentou e Jesus teria dito à mulher: “Tão pouco eu te condeno, vá e não peques mais”.

Esse trecho das escrituras dá lugar a especulações sobre a vida pregressa de Jesus no seio do pecado. Afinal, se ele não tinha qualquer pecado, deveria ter lascado uma tijolada na abilolada da mulher safada. Mas os fundamentalistas logo alegariam que ele tinha o direito, mas preferiu abrir mão dele. Ainda me pergunto:  qual mancebo abriria mão de um direito desses.

No caso da iraniana Sakineh, muito pior do que o narrado pelo Mestre, pois além de dar para a vizinhança  toda com certa freqüência, ela ainda ajudou a matar o corno insatisfeito, digo, marido,  e não surgiu nenhum fanfarrão propondo algo semelhante, à proposta do Nazareno para casos de mulheres saidinhas.

Do que pude ver, pessoal cristão está  mais indignado com o método de punição, nem tanto com o mérito da causa. Ainda se fosse uma daquelas apetitosas injeções letais dos norte americanos, vá lá. Bom lembrar que Jesus e Paulo por pouco não foram apedrejados, apesar de que, os motivos eram outros, suponho. Aliás, eu também escapei por um triz de ser apedrejado por alunos e professores quando preguei o tal sermão de Cristo, dando a entender que a mulher adultera deveria ser perdoada e boa. Sorte igual não teve o tal de Estevão. Deve ser problema com o nome, Estevãos não merecem perdão, muito menos se for algum Hernandes.

Sou muito mais fanfarrão do que nosso irmão mais velho, Jesus, a saber. Por mim perdoaria logo todas as mulheres adúlteras. Bom, nem todas, há uma ou duas mulheres que não escapariam ás minhas certeiras pedradas, se adulterassem.

A minha proposta é que o Obama ou o Ban Ki-moon (presidente atual da ONU) ou algum clérigo importante, talvez o Bispo Edir Macedo ou o Caio Fábio, quem sabe o Papa, alguém com a estatura moral de Cristo, seja qual for sua procedência, proponha aos irmãos iranianos que quem não tiver pecado jamais, na história daquele país, atire a primeira pedra. Depois que todos se retirarem, cabisbaixos por terem manchas passadas no currículo, afinal ninguém ousaria mentir na presença de um desses gigantes morais, o tal a perdoaria, dizendo o tradicional: “Vá e não peques mais, e não deixe de passar lá em casa, hoje à noite, para comer uma pizza, tomar um copo de vinho comigo e o que a ocasião sugerir”.

Dizem que aquela mulher salva pelo Galileu passou o resto da vida agradecendo o não apedrejamento a todos os que resolveram não apedrejá-la. E olha que a lista era imensa, até quem não estava lá, tratou de por o nome como se estivesse e não perder a chance de perdoá-la, também.

Quem nunca tiver pecado, atire a primeira pedra em mim, aí nos comentários, ou cale-se para sempre. Mas não conte com a minha gratidão pós perdão.

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3 thoughts on “Sakineh, a mulher adultera

  1. Meus pecados são tantos e tais que a mim não faz diferença um a mais ou a menos: posso muito bem apedrejar a mulher ou você, depende da ocasião.
    O problema é que pode vir acontecer de eu ser o dito cujo “pego com a mão na botija” (céus, o que será “botija”?!?! algo imoral ou impróprio??? perdão!!!) e quando e se eu o for, quero ter o mesmo tratamento da mulher (apesar de não ter os mesmos encantos). Por isso, digo, da boca pra fora: Vá e não peques mais (nem menos).

    Meu, você não consegue disfarçar. É um dos maiores santarrões que conheço, se bobear entra no céu com pompa e honra. Para com isso.

  2. Lou

    Em se tratando de Ira, nao dar para saber até que ponto, tudo o que se divugla dela , Sakineh, ter traido e colaborado com a morte do marido, seja verdade!

    Se vc tivesse acesso a iranianos que foram punidos pelo Ira, presos e maltratados nas prisoes iranianas, vc teria dúvidas.
    Tenho amigos que se refugiaram na Suécia, em busca de calmaria apra a alma e marcas do corpo…que , sinceramente, nao dar para acreditar nas palavras de um Governo terrivel daquele4s

    Grace
    Obrigado pelo comentário.
    Não tenho a menor pretensão de defender o regime iraniano. Apenas tenho certa sensação de que deseja-se discutir o velho tema macroético: A Pena de Morte, acima de tudo. Creio que todos, culturas inclusas, deveriam definir-se ou redefinir-se sobre esse e os outros temas macroéticos (eutanásia, aborto, etc), pois temos muito mais elementos para incluir nessas discussões, na atualidade. Nesse caso, nossos queridos irmãos norte americanos deveriam puxar a fila, já que ninguém mata mais por pena de morte do que eles. Para o modelo ocidental, julga-se por aí, que a justiça deles é boa, mas não podemos esquecer que foi essa justiça que passou por cima dos grandes assassinatos, como os de John Kennedy, Martin Luther King, John Lennon, só para citar os mais escabrosos. Se fizeram isso com os grandes casos, o que não fariam com os menores. O que pensarão os orientais (médios ou distantes) de tal justiça?
    Quanto a mulher adultera (ou não) Sakineh, ironizei com a possibilidade de, de repente, ela ser mesmo safadinha. Para nós, ocidentais, o adultério (e os outros itens do decálogo mosaico) perde valor em termos de pecado, a cada dia que passa. A Igreja, os meios de comunicação, a escola e o governo nem ligam mais para a propaganda em favor da nova moralidade (que prega abertamente a promiscuidade do todos com todos), explicita nos programas de TV com censura liberada para crianças e adolescentes.
    Não creio que Jesus tenha encoberto o pecado da mulher adultera, mas que ele tenha utilizado o velho e surrado método do perdão, algo impensável em nossos dias, em todas as culturas. A mulher adulterou sim, mas quem somos nós para julgá-la (e essa é a essência da justiça divina: não temos moral para julgar) e Ele próprio, embora tivesse moral para tanto, abre mão de seu direito para deixá-la ir perdoada. Pessoalmente, estou treinando o perdão, embora não tenha conseguido perdoar ninguém que tenha pecado contra mim, ainda. Mas pretendo tentar até meu último minuto de vida, quem sabe saio dessa nem que seja com um perdãozinho no curriculum vitae?
    O governo Iraniano não tem o privilégio de governar mal. Nosso mundinho humano está cheio de maus governos, a começar dos que escondem sob o manto da propaganda maciça horrores inomináveis, como as milhares de vítimas da bomba atômica, dos vários socialismos e outras ditaduras de nossa era com suas infelizes histórias de assassinatos em massa , e vai por aí.
    Nossa ficou grande, acho que virou um novo post. Mas valeu sua intervenção! Gostei.

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