A Gruta do Lou

Rússia

Em tempos da cortina de ferro, a KGB era o órgão de repressão mais temido dentro da URSS. Milhares de pastores e cristãos sofreram nas mãos desse organismo. Do ponto de vista dos cristãos, a perseguição dava-se em razão de suas crenças. Mas, a KGB não tolerava discursos contrários e dissidentes, coisa que esse pessoal insistia em fazer. Dentre alguns milhões que perderam a vida durante a vigência do regime socialista, estavam muitos irmãos em cristo.

Quando eu trabalhava na Open Doors Mission, em minha sala, bem atrás de minha mesa, coloquei um quadro na parede, com uma fotografia de um casamento na Rússia. Para entendermos o que ele significava, deixem-me relatar um acontecimento:

Havia, em certa região russa, um cristão cujo nome era Josef Boldarenko. Ele era um pregador itinerante do evangelho do Senhor Jesus. Foi preso várias vezes pela KGB. Certa vez, um oficial da KGB o chamou para uma conversa. Ele estava preso em uma prisão de Moscou. Disse-lhe o oficial: Tenho notado que em todo lugar que você está, reina a paz. Sua pregação funciona. Há uma prisão na Sibéria onde temos enorme dificuldade em controlar os presos. Você aceitaria ser transferido para lá? Nós lhe daríamos total liberdade para pregar seu evangelho cristão. Josef aceitou e foi transferido, imediatamente.

Era inverno e Josef foi recebido com grande entusiasmo pelos oficiais encarregados da segurança da prisão. Queriam testar sua fé. Nos primeiros dias, deram-lhe certa liberdade e ele anunciou o evangelho entre os outros presos.

Então, resolveram apertar-lhe um pouco e sob um pretexto fútil o atiraram em uma solitária. Estas celas ficavam separadas dos prédios. Eram feitas de latão e situavam-se ao relento. Não tinham teto e o telhado era cheio de buracos, por onde a água da chuva e da neve derretida passava. A primeira providência, quando um preso era colocado nesse lugar, era molhar o chão para impedir que o infeliz deitasse ou sentasse. Com Josef não foi diferente. Sem roupa de frio apropriada, ele manteve-se lá em pé, mas com a resistência diminuindo a cada hora.

Depois de dois dias, um dos oficiais resolveu dar o golpe de misericórdia. Mandou os guardas colocarem o pior elemento, dentre os presos, com Josef. Era um homem grande, uns dois metros de altura e muito forte. Conhecido por detestar pregadores cristãos. Quando esse cara entrou na cela, Josef estava muito debilitado e não aguentava mais ficar em pé. O frio era intenso. O chamado frio siberiano. Aquele sujeito enorme olhou para Josef ali caído e disse: Você não deveria estar aqui e muito menos sofrendo essas infâmias. Eu sim mereço isso. Sou mau. Matei, roubei e fiz todo tipo de porcarias nessa vida. Vivo amolando e espezinhando gente como você, sem motivo e só para divertir os outros. Enquanto falava, agarrou Josef que não tinha força alguma para oferecer qualquer tipo de resistência, abriu sua túnica e sua camisa, deixando aparecer seu barrigão. Fez o mesmo com Josef e o abraçou, bem apertado, contra seu próprio corpo. Não se sabe quanto tempo ficaram assim. Foi uma eternidade, para eles.

Quando os guardas abriram a cela, esperando resgatar o corpo de Josef morto, encontraram os dois abraçados. Esse abraço salvou sua vida. Fora salvo pelo pior elemento da pior prisão soviética, na Sibéria. Tempos depois, por diversas razões, esses dois homens foram colocados em liberdade.

Jossef Boldarenko casou-se com uma mulher cristã muito querida por sua gente. No casamento, que reuniu milhares de pessoas, foram feitas diversas fotos. Durante a cerimônia fotografaram o casal, o pastor celebrante e atrás deles o padrinho, um homenzarrão de uns dois metros de altura.

Essa era foto, no quadro atrás de minha mesa.

Ontem, o Paulo Brabo escreveu um artigo impecável sobre o fim da URSS, em 1991. Meu objetivo, passa bem longe de querer contestá-lo. Ocorreu-me sim, contribuir para um melhor entendimento de tudo aquilo. Para mim, a pressão ocidental, a guerra fria e os interesses capitalistas não determinaram o fim daquele regime, apenas estremeceram. Acredito que o horror impingido à população pela KGB e seus cooperadores foram muito mais contundentes nesse sentido. Mas concordo e rejeito a intromissão liderada pelos americanos do norte em questões internas de outros países, como repudio veementemente a atual atitude, desse mesmo pessoal, no Iraque.

Paradoxal é o fato da Rússia que floresceu estar nas mãos de ex-oficiais da KGB. Não apenas Wladimir Putim é um ex-oficial da KGB, mas seus principais colaboradores e opositores também o são. Nos últimos dias, um desses dissidentes, com folha corrida de espião, foi assassinado em Londres, envenenado com Polônio 210, um produto altamente radioativo.

Ajudei a contrabandear bíblias e todos os itens necessários à manutenção dos líderes cristãos nesses lugares, naquela época. Minha participação, nesse trabalho foi ínfima. Mas se ele não fosse feito, a vida de nossos irmãos cristãos teria sido muito pior naqueles dias.

Espero que essa missão não venha a se tornar necessária, nunca mais.

 morcego-12

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