A Gruta do Lou

Restos dos ossos

Não sei se posso dizer que sou uma pessoa única. Sou um cara de várias fases. Tive meus tempos mais calmos, outros mais nervosos, épocas mais pródigas e tempos de vacas magras. Mas tive alterações de humor importantes, de crenças e valores, também.

Durante um tempo pequeno, época de estudante, cultivei simpatia pelo que eu chamava de socialismo (pois nunca quis ser identificado como um comunista) onde aderi ao ódio pela mais-valia e virei pregador da socialização dos meios de produção. Daí veio o cristianismo, na verdade ele já estava instalado, desde os tempos do colégio católico. Converti-me em uma igreja pentecostal e depois saltei para a igreja batista, por causa da Faculdade Teológica. Nesse tempo, pensava como Lutero e queria reformar a igreja.

Casado, vieram os filhos. Deixei a missão, chutado por capitalistas nojentos, e me tornei capitalista. Adquiri uma empresa e comecei a ganhar dinheiro. Comecei a pensar em ações, patrimônio e essas coisas que levam um homem da Vila Mariana para o Morumbí. Se bem que nunca morei lá, mas quase comprei um apartamento. Fiquei com a família nas proximidades de Vila Madalena, antes de ir para os Estados Unidos, quando perdi tudo.

De volta ao Brasil, voltei a dar aulas de teologia em seminários e fui morar com a família em Perdizes, um bairro nobre que gosto muito. Não era mais socialista, estava com ódio mortal do capitalismo americano e perdera o tesão pela reforma da igreja. Meu nível de exigências éticas baixou e transigi em certos pontos. Ganhava a vida vendendo produtos contrabandeados, sobretudo aparelhos de fax e depois microcomputadores. Cheguei a ganhar um bom dinheiro. Mas minhas crenças estavam confusas.

Acho que nunca perdi certo amor e admiração pela pessoa de Cristo que idealizei. O texto sagrado da Bíblia me encanta, também, independente de inerrâncias, autorias e influências. Tê-lo em nossos dias é um fenômeno mágico para mim. Voltei a sonhar com a reforma da Igreja, se bem que, de forma mais light. Mas não cogito voltar a ser um participante ativo dela. Sou muito pecador para o padrão exigido. Carrego comigo as marcas do pecado e da vida pouco dogmática. Minha presença entre os santos seria um grande incômodo.

Algumas características atravessaram a vida comigo em todas as fases. Certa patetice, um determinado espírito de Quijote, um desprendimento doentio das coisas materiais, um certo romantismo ultrapassado e uma vontade irresistível de ser generoso. Adoraria ter posses para praticá-la, já que as pessoas estão pouco interessadas em generosidades abstratas. Ah! Sempre me senti desconfortável ao lado de gente egoísta e individualista, ou seja, do mundo.

Não sei direito o que sobrou. Posso afirmar que perdi a vontade. Tudo que desejo com grandeza, hoje, é ajudar meu filho a ganhar uma qualidade de vida melhor e ver os outros dois em um caminho minimamente feliz para eles. Se minha esposa andasse feliz pelos cantos de nossa casa, me daria certa alegria, também. Fora isso, não tenho nada em mente, a não ser o medo da hora má. Fico pensando se Deus ou a vida me trarão algo inesperado, ainda. Mas acabo ficando pessimista ao lembrar que ainda pode vir mais tempestade, por aí.

Se eu tivesse o mar à minha frente para me surpreender, acho que estaria mais otimista, desde que a surpresa não fosse nenhum Tsunami.

5 thoughts on “Restos dos ossos

  1. Olá Lou primeira vez que passo por aki, não sei se posso comentar a respeito do seu texto, pois estou bem no começo de minha vida e sei que tenho muito que apreender, mas se tem uma coisa que mes pais me ensinaram foi que nada vida, tudo pode mudar se pra melhor ou pra pior ninguem sabe, temos que ter nossos pés bem firmes no chão para qualquer eventualidade. Espero de forma sincera que tudo de bom lhe aconteça e que voce possa ter aprendido muito o que de ruim te aconteceu em alguns momento dessa vida, para que se torne sempre uma pessoa mais forte… Bju 😉

  2. Lou,
    tuas barreiras estão caindo,
    e isso é maravilhoso.
    Não para mim ou para quem lê, ninguém tam nada com a tua vida, mas para ti e para o caminho que tens a atravessar.
    Quero te dizer que hoje saíste da gruta e viste o sol como há muito não vias…
    e sentiste seu calor.
    O meu coração se apertou num misto de alegria, medo e comoção.
    God bless you.
    T.

  3. Pingback: Lou Mello
  4. As tempestades vêm, com certeza, e nossa tendência enquanto SERES HUMANOS é o pessimismo, porém, e no fundo, sabemos que Jesus está conosco, a fé está viva e a esperança nunca morre. E esse mar de que você fala já esteve à sua frente, com muitas Tsunamis que você já viveu ao longo da caminhada…

    Eu e algumas centenas de grutenses nos sentimos assim, na maioria do tempo. Deve ser algum tipo de virose.

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