A Gruta do Lou

Razão e Fé, quando nenhum acordo é possível

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Pr. Jonathan, Carlos Siepierski e Lou Mello em Moçambique, 1981

Antes de Kierkegaard, muitos tinham tentado provar a existência de Deus ou então entendê-la racionalmente. Mas quando nos envolvemos com tais provas da existência de Deus ou com tais argumentos racionais, perdemos nossa fé e, com ela, nosso fervor religioso. Isto porque o fundamental não é saber se o cristianismo é verdadeiro, mas se é verdadeiro para mim. Na idade Média expressava-se o mesmo pensamento com a fórmula “credo quia absurdum“. (Creio, porque é absurdo).

Jostein Gaarder

Não creio que esse dinamarquês que viveu um século e meio antes de mim tenha feito a minha cabeça. Na verdade, quando o encontrei, descobri alguém que, há um século e meio antes de mim, já pensara as mesmas coisas que eu. Para ele a Europa caminhava para a bancarrota e a Igreja para o esvaziamento total. Alguém disse, certa vez, que o cara era doido, afinal a Europa continua aí até hoje e mais forte do que nunca e o mesmo se dá com a Igreja Cristã. Mas se considerarmos as coisas do ponto de vista do filósofo, a Europa perdeu seus bens mais preciosos da época em que produziu os grandes pintores, compositores e pensadores, hoje ela vive o mundo materialista de nossa era. O mesmo deu-se com a Igreja Cristã.

Como ele, também penso que razão e fé são como água e fogo. Se desejo entender Deus objetivamente, isto significa que não creio. Descobri que não posso entender Deus objetivamente e por isso preciso crer. Ter uma fé cristã significa seguir os passos de Jesus.

Outra semelhança relaciona-se ao fato de me interessar pelo essencial. Não tenho tempo para definir Deus e suas peculiaridades. A morte é certa e está cada vez mais próxima. Mas o mundo me enredou inapelavelmente. Para horror do Kierkegaard estou sentado atrás de uma mesa tentando entender tudo e construir um plano de vida, exatamente o oposto do que acredito e gostaria de fazer com meus dias.

Se eu verdadeiramente estivesse seguindo os passos de Jesus, estaria caminhando para a cruz como ele ensinou, mortificando minhas tendências pecaminosas e meus feitos nada elogiáveis. Minhas palavras e ações gerariam generosidades e solidariedade, ao invés de perturbação e rancor. Se bem que os acomodados e os que se perdem nas loquacidades frívolas da teoria acadêmica precisam ser perturbados pelos homens cheios de fé.

Não é possível entender Deus objetivamente. Devo lembrar que vivo a incerteza objetiva. Isso explica minhas insistentes prédicas aqui na Gruta. Sempre que exponho minhas chagas abertas pelas lâminas da razão, alguém corre para aplicar argumentos racionais, abrindo ainda mais as fendas que não cicatrizam com os remédios fabricados nos laboratórios da razão.

Onde está a paixão dos meus dias de missões? Nesse momento sinto-me com alguém que caiu de um navio em alto mar. Não me interessa saber quem está certo, se Calvino ou Armínio. Tudo que desejo é um colete salva-vidas e a aproximação da turma do deixa – disso me atirando a corda da salvação (um exemplo bem ao estilo Kierkegaard).

Sim, eu creio porque é absurdo. Minha fé não dispõe de razões que a sustentem. Não tenho nada para provar minha fé. Apenas creio e ainda tenho paixão. Nada me entristece mais do que estar longe dos campos de batalha, preso nos campos de concentração mantidos pelo inimigo, amarrado pelas cordas da solidão, da desesperança e da incompreensão. Entretanto quero sair daqui e lutar na solução dos meus problemas pessoais e administrar minha vida, guardando a fé enquanto distribuo generosidade e solidariedade. Ainda que fosse de se esperar não guardo magoas, a recíproca quase inexistente e não esperada pouco me incomoda. Posso decidir por mim, apenas. Claro que meu coração se aperta quando testemunho as pessoas perdendo suas oportunidades de estender a mão ao necessitado. O que mais me incomoda é assistir essas gentes tentando explicar Deus e a fé, para eles e para os outros. Acho que esses não crêem.

Texto escrito em homenagem ao Volney Faustini e ao Daniel Fresnot.

14 thoughts on “Razão e Fé, quando nenhum acordo é possível

  1. Sou um cético. Percebo o absurdo da minha fé, mas não consigo abrir mão dela. Afundaria nesse mar de materialismo insensato.
    Então, refugio-me na Gruta e sigo em frente – pra onde, ó Céus? – na esperança de que minha fé seja real…

  2. Meu mais recente esforço de fé não é do tipo intelectual. Eu realmente não faço mais isso. Mais cedo ou mais tarde você simplesmente descobre que há alguns caras que não acreditam em Deus e podem provar que ele não existe e alguns outros caras que acreditam em Deus e podem provar que ele existe – e a esse ponto a discussão já deixou há muito de ser sobre Deus e passou a ser sobre quem é mais inteligente; honestamente, não estou interessado nisso.” – Donald Miller

    Concordo contigo, precisamos de paixão e menos racíocinio…

    adicionei vc na minha lista de Links Brilhantes e adicionei o selo da gruta tb.

    Abração Lou
    Fica com Deus

  3. uauuuu
    amei o post.
    amei.
    não há muito o que comentar.
    não é preciso complementar o que vc colocou acima.
    já tá dito!!!
    e bem dito!
    beijos,
    alê

  4. Lou,
    Grato pela homem nagem. De uma certa forma você é o nosso contra-ponto e a nossa convergência.

    Como todos os dias lembro de você, hoje (hoje mesmo) em especial não deixei você de fora – se é que me permites … Xi agora é tarde!!

    P.S. – O Seal cantando o hino da Gruta é simplesmente lindo! Se você não traduzir eu vou! Correndo os riscos – claro!

    O hino do vf é: We are never gonna survive unless we get a little crazy, também pelo Seal.

  5. Obrigada Lou, muito obrigada ,por tudo o que deixou escapar da sua alma e partilhou conosco.

    Sabe o que eu gostava?

    Gostava de sentar-me ao seu lado num banco, no seu quintal, e, olhos nos olhos ,conversar consigo sobre tudo isto e muito mais…

    Mas temos o Atlântico por o meio!

    Mas já sabe, se vier a Portugal, terei muito gosto em recebê-lo na minha casa.

    Eu e a minha Igreja continuamos a orar por o seu filho Thomás e por si.
    Eu creio que o bom Deus vai responder!

    Um abraço

  6. V. Carlos

    Agradeço sua visiita, comentário e o link. Fiz uma visita inicial ao seu blog e, em breve, comentarei por lá, se você permitir. Seu link já está entre os nossos amigos. Abraços.

  7. Ale

    É bom abrir a caixa de comentários e ver seu recado nela. Não nos prive disso. Beijos para você também.

  8. Volney

    Obrigado pelas lembranças diárias e se você quiser mesmo fazer a tradução, manda bala, ficarei muitíssimo grato. Minhas inúmeras tentativas nessa área resultaram muito mal. Descobri que para isso, também é preciso um ouvido musical, coisa da qual fui privado ou, talvez, tenha dado uma de malandro e passado direto por essa fila, também.

  9. Viviana

    Seria um encanto realizar essa conversa de quintal, coisa que aprecio muito fazer. Ainda mais se fosse aí, na boa terra. Quem sabe, nosso Pai não tem esse plano para nós todos. Sabes que não seria a primeira vez? É, já pisei nessa terra e tive boas conversas de quintal por aí. Vamos colocar isso em nossas orações. Que tal?
    Agradeço as orações e peço que agradeça a Igreja por mim e que continuem, essa dificuldade está resistente e tudo que as dificuldades não suportam é o povo orando contra elas. Grande abraço.

  10. Luma

    Obrigado! Valeu! Gostei de sua visita e comentário. Aproveitei e fui conhecer seu blog. Podia?

  11. “Não é a razão a Luz Natural? Não é ela o Sol que ilumina todas as coisas e em torno do qual tudo gira?” (Kant)

    “Assim, a razão, além de ser o critério para avaliar os conhecimentos, é também um instrumento crítico para compreendermos as circunstâncias em que vivemos, para
    mudá-las ou melhorá-las. A razão tem um potencial ativo ou transformador e por isso continuamos a falar nela e a desejá-la.” (Kant)

    A razão é faculdade de raciocinar, de aprender, de compreender, de ponderar, de julgar; a INTELIGÊCIA.
    Ex.: o homem tem o uso da razão

    É o raciocínio que conduz à indução ou dedução de algo
    Ex.: através da razão apreendemos certas RELAÇÕES OBSCURAS.
    É a razão que capacita o ser humano a avaliar com correção, com discernimento; bom senso, juízo
    Ex.: o amor intenso fê-lo perder a razão

    No cartesianismo, razão é a faculdade caracterizada por seu poder de discernimento entre o verdadeiro e o falso, ou o bem e o mal, e eventualmente acometível por afecções antagônicas, tais como a paixão e a loucura; bom senso.

    Se tivesse me expressando em Grego, estaria falando sobre o logos; se em latim, estaria falando sobre a ratio; estou me expressando em portugues. Quando Aristóteles disse que o homem é um animal racional, estava dizendo que o homem é portador do logos.

    Se João vivesse no Brasil hoje e fosse escrever o primeiro versículo do evangelho, escreveria assim: no princípio era a razão, e a razão estava em deus, e deus era a razão. (As palavra são colocadoas nessa sequencia, nos melhores textos)

    Eu prefiro o Diderot. “Não conheço nada tão indecente como essas declarações vagas dos teólogos contra a razão. Ao ouvi-las é de se supor que os homens não pedem entrar no seio da cristandade a não ser como uma manada de bois entra num estábulo.” – Denis Diderot.

    Djalmir
    Obrigado por sua visita e comentário.
    Aliás, seu comentário poderia ser replicado no blog do Roger Teologia Livre que tem discutido sobre o tema em cima do famoso livro do Francis Schaeffer: Morte da Razão e me desafiou a escrever esse post.

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