A Gruta do Lou

Quem me libertará, afinal?

Quem me libertará?
Quem me libertará?


“Por que, descuidado leitor, o que você empreenderia se entendesse de repente que não deve nada aos seus empregadores? O que você faria agora mesmo se entendesse que não deve nada a seu banco, a seu governo ou a si mesmo?

Por tudo que é sagrado, o que você faria se entendesse que não deve nada a Deus?”

Essas Perguntas foram feitas pelo Paulo Brabo em mais um de seus excelentes textos Perdão e poder.

 

Faz tempo que me empenho em questionar a ideia de um Cristo cobrador, dogmático e acusador. Até os enfoques dados à morte de Jesus Galileu, cuja ênfase se presta à manutenção da culpa devido ao estado pecaminoso das pessoas, combati veemente. Certa vez, tive a oportunidade de narrar a Vida de Cristo e encerrei meu trabalho na morte dele, sem mencionar o capítulo da ressurreição. Sabe, tenho uma enorme sensação que essa questão jogada no ar sem um cuidado muitíssimo especial, redunda em grande ênfase ao tal estado e, consequentemente, enaltece a culpa.

Como diria meu dileto amigo Kierkegaard em “O Conceito de Angústia”: É por meio da culpa que cada um de nós perde a inocência. … O que existia então? Nada. Que efeito produz, porém, este nada? Esse nada dá nascimento à angústia. Sonhador, o espírito projeta a sua própria realidade, que é um átimo, e a inocência vê sempre e sempre, diante de si, esse nada. A angústia é determinação do espirito sonhador e, a tal respeito, ocupa lugar a Psicologia…. porém, o homem que a sua angústia torna culpado, é por fim inocente (não era ele próprio, porém a angústia, isto é, um poder estranho que o dominou, um poder que não amava, e que, contudo, o atormentava)”

Vivemos angustiados, salvo raras exceções, e atormentados, portanto, e os dogmas da igreja, geralmente acrescidos das especulações psicológicas, não dão chances em nenhum momento ou circunstância. Volto aqui a citar o Kierkegaard, ainda no mesmo livro: “toda a observação da realidade do pecado, como objeto do pensamento, não é da competência da Psicologia, dizendo respeito sim à Ética, porém não como objeto de observação, visto como a Ética jamais é observadora – antes ela acusa, julga, age.”

Ah há! O Brabo está falando de Ética e não de Psicologia ou Teologia, se eu estiver psicologicamente correto em minha observação. Nosso professor de Ética no seminário, o imortal Lourenço Stelio Rega dizia-nos enfaticamente que tudo passa pela Ética, portanto, impossível viver sem ela. Mas o que o Brabo, com meu total e irrestrito apoio, sem falar na concordância de Jesus de Nazaré e do Rubem Alves, está propondo é muito subversivo e até difícil de verbalizar, digo, escrever. Enfim, lá vai: deveríamos viver sem ética. Pronto falei, ou melhor, escrevi! Uau!

Sabe, vivemos dias difíceis com corrupção e picaretagens correndo soltas por aí, inclusive nos meios eclesiásticos, pasmem. Aí, a turma do sacerdócio, seja pastoral, political, professoral, psicologal ou advocacional, logo puxa a sardinha para as suas brasas e brada: Tá faltando uma leizinha básica aí, pessoal! E toma: A partir de hoje, fica resolvido que comer a mãe é pecado em todos os sentidos e quem o realizar estará sujeito à pena de prisão, no mínimo o resto da vida e no máximo por toda a vida eterna.

Cara, o Brabo está certíssimo. Quanto mais ética, mais angústia e essa dói pra chuchu, dá câncer e daí a morte e morte de cruz.

Enquanto escrevo, toca o telefone e é a moça do Banco Itaú, como sempre, muito educados esses servidores do SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente), ela indaga sobre o atendimento a mim prestado. Então me pego pensando: Por que raios estou perdendo tempo com isso, afinal e na verdade, não devo nada ao banco. O que existe é só ética, segundo o Lourenço, e fui condicionado a acreditar que se macular essa senhora estarei em pecado e sujeito às penalidades das leis, por ela administradas, fora esse insustentável sentimento de culpa.

A quem servirei com todo o meu ser, de todo o meu coração e de toda a minha alma? Ao Deus que me criou, deu-me vida e ainda seu Filho único para que eu não acreditasse na Ética, ou na própria culpa? Essa infeliz f… melhor nem dizer. Isso me lembra do herege do Nietzsche, “a moralidade é uma conspiração das ovelhas para convencer os lobos de que comer ovelhas é imoral”. Para a Igreja e todo mundo, a imoralidade é igual a pecado. E o que vem a ser a Moralidade, se não, mais um conjunto Ético de leis e regras? Meu, não se deixe enganar, tudo que o homem contemporâneo faz, começa com algum conjunto de leis, normas e regras, seja lá a constituição que você estiver metido. Até casamentos começam assim. Fora a força que a culpa empresta para gerar dinheiro. Pessoas culpadas fazem qualquer negócio, digo doação.

E agora, vamos todos pegar as palavras do Brabo, endossadas por gente imprudente tanto quanto, como eu, Kierkegaard, Nietzsche e Jesus o Nazareno e cair na gandaia? Tá cheio de pastores, professores, psicólogos, políticos, advogados, etc., esfregando as mãos, mas não é nada disso. Todos nós, inclusive o Nietzsche e eu, concordamos com a proposta crística: “Conhecerei a verdade e a verdade os libertará”.

O fato é que a Ética e suas leis escraviza e nos enche de culpa. Não deu certo nem quando Deus instituiu a Lei, mesmo com Moisés e toda aquela pompa e circunstância das Tábuas. Portanto só nos resta um caminho: o manso e humilde de coração que os homens éticos crucificaram naquela infame cruz, só porque distribuiu perdão e liberdade a quem se sentia culpado de ter infringido uma lei ou regra qualquer.

Então: Por tudo que é sagrado, o que você faria se entendesse que não deve nada a Deus?” Anda, o Brabo está nos perguntando, responde pô!

Um calice pouco sagrado

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