A Gruta do Lou

Quando um ignorante resolve pensar

 

Como pré requisito para ler e entender bem esse post, recomendo a leitura de dois textos do Brabo (aqui e aqui ) e um comentário do Djalmir no Blog Teologia Livre do Roger (aqui ).

Não me lembro direito dos meus sonhos dessa noite, mas acordei pensando na ignorância. Salvo engano, a ignorância é a doença mais democrática e sem preconceitos desse mundo, pois não há uma só pessoa, onde quer que seja, passado, presente ou futuro que não a possua, em algum grau. Sim, até eu e você.

O Djalmir, que se acredita como um filósofo e eu o vejo assim, enaltece em seu comentário o fato do Brabo ser reconhecido pelo Roger como Filósofo, em detrimento da canalhada formada pelos teólogos. Muitos, e me incluo entre eles, esperavam que o Brabo fosse a luz no fundo do túnel da teologia brasileira (sic), se é que ela já existiu algum dia.

Tanto fazer filosofia como teologia é, a meu ver, trabalho árduo e isso, tira os brasileiros da parada. Se tem algo que nos afasta da cruz, sem dúvida, é o trabalho. Não falo de emprego, coisa que a maioria de brasilianos adora, desde que não haja trabalho incluso no negócio. Com quase dois séculos de existência no Brasil, os protestantes possuem, basicamente, uma única academia teológica que merece algum respeito, que é a Universidade Metodista de São Bernardo, localizada, paradoxalmente, em Rudge Ramos, São Paulo, o resto é piada de péssimo gosto. Salvo Engano.

O Brabo, sabe-se lá por que, é um cara quase único entre nós, porque tem o péssimo hábito de praticar o ócio produtivo, enquanto nós recorremos ao nosso modo de fazer ócio, não aquela imbecilidade inventada pelo sábio Domenico de Masi, mas o nosso é o ócio improdutivo, mesmo. Nosso negócio teológico se resume em ler meia dúzia de livros da moda e ver alguns vídeos do John Piper (aquele do sofrimento é massa). Ai daqueles que forem encontrados imprudente lendo o livro do Brabo, algum do Rubem Alves ou do Manning, ´porque eles não verão a Deus.

Esse é o limite da maioria, jamais, alguma coisa do Eugenne Peterson, as pérolas do Jacques Ellul ou os livrinhos infantis do C. S. Lewis. Pior é, que nada disso seja teologia, ainda. As novas gerações, especialmente as que ainda teimam em fazer cursos acadêmicos, se podemos chamá-los de forma tão aloprada assim, dificilmente ouvem falar dos grandes “Bs”, Bonhoeffer, Barth, Berkouuver, Bulttman ou do apóstata da letra B, Paul Tillic, ou seja, onde começa o pensamento teológico.

Depois disso o trabalho é impensável e incomensuravelmente calculável. Talvez essa seja a razão porque a maioria dos teólogos acaba migrando para a confortável filosofia, onde podemos dizer o que bem entendermos e, se formos capazes de escrever com notável erudição, vir a desfrutar de algum lugar ao sol. Sem falar que os gregos pensaram e escreveram tudo que podia ser dito em termos filosóficos, o resto só repete a velha ladainha socrática com a gíria do seu tempo. “Conhece-te a ti mesmo”, seu trouxa.

Tolo como só eu, resolvi empreender trabalho teológico nos moldes realizados por Albert Schweitzer quando decidiu escrever a Vida de Jesus. Em seu livro “Minha Vida e Minhas Idéias”, uma espécie de auto-biografia, narra ter enchido seu quarto com livros sobre Jesus, pois decidira ler tudo que encontrasse a respeito antes de escrever. Bom, ainda estou na fase de reunir os livros, com os que já consegui seria possível encher uma caixa de meio metro quadrado. Assim que conseguir encher um quarto, começarei a lê-los.

Mas a idéia de satanizar os teólogos foi, na verdade, do Nietzsche, chamando-os de niilistas, aliás não apenas os pastores teólogos, mas aos filósofos, também, tendo o cuidado de migrar para Filologia antes dessa desistência.

Enfim, continuo em meu árduo trabalho como agente da ANA, como se vê. Já que o Brabo liberou o codinome de agente dele, farei o mesmo, sou o agente ANA ALFA BETA. Não gostei muito do BETA, preferia BETO, mas a designação utiliza o alfabeto grego e BETA é o nome da letra e não uma identificação de sexo, no caso. Na verdade, o Brasil é o maior celeiro de teólogos e filósofos do mundo, mas nós tratamos de acobertar e não deixar que os outros saibam, principalmente os alemães, ingleses e norte-americanos.

Agora, o mais importante, tanto ou muito mais que a Bacia das Almas, a Gruta está em agonia, faz algum tempo. Tentei transformar em uma rede social, mas não colou, pelo jeito. Também não tenho a menor intenção de deixá-la virar algum tipo de instituição sem e, muito menos, com algum tipo de hierarquia. Enviei um E-mail ao Brabo sugerindo que ele não matasse o blog, mas o deixasse falecer em paz, exatamente o que venho fazendo ultimamente., com a Gruta. Quando ela quiser partir dessa para melhor, respeitarei.

Quanto a mim, estou muito a fim de praticar algo que seja minimamente coerente com as minhas palavras grafadas aqui. Não pretendo gastar o resto da vida chorando isso e aquilo e me deixar levar pela falta de coragem de assumir e agir segundo minhas convicções. Acredito na força da desistência como forma de ativismo. Assim, quando chegar a hora, desistirei do blog, das redes sociais, da consultoria com site incluso e migrarei, embora ainda não tenho definido para onde. Sinto que esse tempo não está longe.

Então repito as palavras do Brabo: “Que essa enumeração sirva para lembrar não só que para não ser uma instituição é preciso manter-se uma pessoa, mas que para não ser uma instituição é preciso manter-se um corpo”.

 

4 thoughts on “Quando um ignorante resolve pensar

  1. Lou, quando fazia o comentário, lembrei de colocar aspas na teologia, não o fiz, por querer dá um pouco mais de força ao que estava querendo dizer. Afinal de contas a “teologia” foi e ainda é a causa de muitos males sofridos pela humanidade, em alguns países, ainda.

    Sou ignorante, quanto à eficácia de filósofos brasileiros atuando na área religiosa. A religião no Brasil sempre deu suporte aos poderoso em detrimento dos mais pobres e ignorantes, como eu. E prevaleceu! Talvez existe alguém e eu não sei; se a Gruta fosse mais antiga, talvez eu soubesse.

    Os teólogos citados por você no texto, não os conheço, ignoro seus escritos. Perdi completamente o gosto pela teologia. Meus livros de teologia coloquei-os todos dentro de caixas e os guardei; meu sogro que é pastor achou um sacrilégio e levou-os todos.

    Eu deveria ter seguido o conselho de Sócrates: “Uma coisa sei é que nada sei”, mas, aí me encontrei com o Schopenhauer e o Nietzsche…, Isso me encheu de orgulho, então abandonei o conselho de Sócrates, embora saiba que Sócrates estava certo, certo?.

    Você coloca meu nome aí na Gruta, junto com o do Brabo e o Roger, isso me deixa mais orgulhoso ainda. (rs)

  2. Djalmir
    Tenho um amigo, faz tempo que não o vejo, dos tempos do seminário. Trabalhamos juntos na Portas Abertas (quando aquele espelunca funcionava) e fui péssima influência para ele. Ele também dava aulas de teologia na Faculdade Metodista Livre e chegou o tempo de concluir, como você, a falácia teológica. Ele doou todos os livros teológicos para a escola e foi trabalhar em Marketing na Erikson. Quando isso aconteceu com o Nietzsche (ele passou por duas fases dessas, a segunda foi com a Filosofia, sua próxima crise) ele migrou para a Filologia, afinal não havia marketing nem o Lou para influenciá-lo para o mal. Meu amigo é hoje o principal homem da Marketing da Erikson, trabalhando na matriz holandesa. Acho que eu deveria ter feito mais do que só mostrar o mapa da gruta aos outros.
    Os teólogos que citei são muito interessantes, mas se você não os leu até agora, esqueça. Deixa para a outra encarnação e vá direto para o marketing ou para as Redes Sociais, o top do momento.
    Você se enganou, na verdade, quem inscreveu seu nome junto com essas feras foi você mesmo, com suas precipitações inquietantes, bem ao estilo deles.
    Abraço

  3. Lou e Djalmir, amigos, como já disse alguém, é mais fácil se defender de uma crítica do que de um elogio.

    Você e Brabo tentam sair pela porta da “não institucionalização”… um exagero típico (talvez mais do Brabo e menos seu) de pessoas que, já beberam demais dessa fonte.

    A rede social está aqui, e não é nem a Gruta, nem a Bacia e nem A Teologia Livre sozinhas. Nossas ambições nos impedem de enxergar isso… Mas a instituição já foi iniciada no primeiro post “publicado e não lido”. A hierarquia já estava se formando. O contrato, o casamento, os jogos de poderes e papéis.

    Em toda instituição (e Max Weber não me deixará mentir sozinho) há algo de proveito e algo de desproveito. Mas não posso pedir para anarquistas como vocês, Lou, Djalmir e Brabo concordem comigo, nisso. O resto são coisas não essenciais.

    Abraços fraternos,

    Roger

  4. Roger
    Essa é, portanto, a tarefa missionária e sacerdotal. Mas falo por mim, sei que todos estão pecando adoidados por aí, mas mantenho os dogmas em pé. O sal não pode tornar-se insípido, nem a lampada colocada sob a cama, mas no velador. Uma vez, um grupo de jovens me convidou para uma palestra sobre namoro, noivado e casamento, imaginando que fosse aliviar a situação imoral deles, com esse meu jeitão anárquico. Fui lá e falei sobre adultério, na base dos dois que se fazem uma só carne quando se unem e o dogma religioso não reconhece o estado civil, que é coisa desse mundo. Apesar de toda confusão que agora vemos, a igreja ajudou a manter o equilíbrio moral da humanidade, durante todos os séculos anteriores, fazendo o contraponto à tendência humana para a imoralidade, na base dos dogmas. Quando isso não foi possível, a sociedade se dilacerou.
    Tenho consciência da existência das entidades, organizações, empresas, governos, etc., e tratarei de transitar com equilíbrio e bom senso por elas. Agora quando me perguntarem, dogma neles.
    Forte abraço meu
    Lou

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