Quando ousei compartilhar a mim mesmo

Paul Tournier

Pelo fato de eu ter escrito bastante sobre a necessidade de tornarmo-nos “pessoas”, uns para com os outros, muita gente chegou à conclusão de que eu sou uma daquelas almas abertas e calorosas, para quem é fácil estabelecer relações pessoais. Nada poderia estar mais longe da realidade.

Uma olhada nos acontecimentos do início da minha vida, que influíram na formação do meu caráter, pode explicar algo sobre essa inabilidade de minha parte. Meu pai morreu quando eu tinha três meses de idade. Ele era pastor da Igreja de São Pedro, em Genebra – Suíça (aquele enorme monumento acinzentado), onde Calvino pregou e, às vezes, tinha a impressão de que o homem que sucedeu a meu pai estava tentando substituí-lo em minha educação, também. Convidava-me para ir a seu escritório e perguntava, com voz de janela rangendo: “Muito bem, Paul! Como vão as coisas com você, filho?” Eu ansiava realmente dizer-lhe, mas, nenhum de nós tinha a menor idéia de como comunicar tais coisas um ao outro.

Minha mãe morreu quando eu era muito novo e cheguei à adolescência sem jamais ter estabelecido um relacionamento real com alguém. Quando eu tinha doze anos, fui a uma igreja, ( não era a de São Pedro), por acaso. ali ouvi um sermão evangelístico apaixonado, bem diferente dos cultos solenes a que eu estava acostumado. Ao terminar, o ministro fez um apelo para irmos à frente. Tímido, como era, não poderia apresentar-me na frente de tanta gente, mas, secretamente, dentro do meu próprio coração, entreguei minha vida à Jesus. Tive, imediatamente, a maravilhosa sensação de estar sendo chamado para fora deste mundo (onde, de qualquer forma, não me sentia muito à vontade) para um lugar à parte. O espantoso resultado foi que, da segurança desse meu lugar à parte, tornei-me um líder.

No decorrer de minha adolescência e na escola médica, organizei e dirigi vários grupos de estudantes cristãos. As alocuções que eu proferia eram obras primas de pesquisa, com citações de uma dúzia de filósofos e teólogos. Quanto mais abstrata era a coisa, mais eu sentia estar honrando a Deus.

Contudo, todo esse tempo, meu ser íntimo permanecia tão afastado dos outros quanto antes. Não foi senão depois que me graduei na escola médica e comecei a praticar a profissão que as primeiras dúvidas indefinidas sobre tudo isso começaram a surgir. Eu era clínico geral, nessa época, e via as coisas que todo médico de família vê: a criança brilhante fracassando na escola, a família destroçada pelo alcoolismo, as pessoas idosas solitárias e amarguradas. Uma noite por semana, tinha um descanso desses problemas, quando me reunia com um grupo de médicos cristãos para oração e estudos.

Esses eram gloriosos serões, afastados dos aborrecimentos do dia, tanto quanto eu acreditava que a religião deveria ser. Por que, então, os rostos do meu consultório haveriam de vir distrair-me a atenção? Quanto mais tentava me concentrar em assuntos teológicos, mais meu espírito vagava pensando em gente real, com problemas reais.

Tinha trinta e quatro anos, quando ouvi falar de um novo grupo cristão que se reunia em Genebra. Um grupo que estava atraindo médicos, psicólogos, matemáticos, profissionais mundialmente famosos. Lembro-me da excitação com que fui à minha primeira reunião com eles, em uma casa antiga e majestosa na “Rue Calvin”.

Que festim de erudição e permuta intelectual não seria! Imaginem minha perplexidade quando a primeira meia hora dessa assembléia de mentes brilhantes passou-se em total silêncio! Um silêncio “de escuta” explicou; mas tudo o que podia ouvir era o tique-taque do relógio que me dizia que tempo precioso estava sendo desperdiçado. Finalmente, um eminente cientista começou a falar. Contou uma história irrelevante sobre ter omitido algo em sua declaração de imposto de renda. Mais silêncio. Então um teólogo de fama mundial relatou que havia escrito uma carta a sua irmã, pedindo perdão por alguma antiga ofensa. Um psiquiatra narrou como tinha vencido a antipatia por certo paciente. E, assim foi a coisa, enquanto escutava, cada vez mais incrédulo, pequenos e triviais assuntos pessoais, nenhum grande tópico foi mencionado ou, muito menos, resolvido. Ao mesmo tempo que incrédulo, estava me sentindo irritado com aquela gente por desnudarem suas almas daquela forma. Lembro-me de ter dito secamente, no final da noite: “Eu vim em busca de pão e vocês me deram pedra”. Estava, contudo, bem mais impressionado, do que admitia, até mesmo para mim.

Sem dúvida, a irritação vinha do fato daquelas pessoas estarem falando coisas reais e eu o sabia. Na manhã seguinte, um tanto de má vontade, sozinho em meu quarto, tentei esse negócio de ouvir a Deus. E no silêncio comecei a compreender que eu nada sabia sobre Seus pensamentos a meu respeito. Bem, eu podia tecer, em minha cabeça, discursos eruditos sobre Ele, porém, com relação a abrir-lhe meu “eu”, sabia menos ainda do que diante de outras pessoas.

E, assim, voltei aos meus novos amigos para aprender. Enquanto, gradualmente começava a conseguir, pela primeira vez na vida, um real compartilhar, começava a descobrir que a religião não é um compartimento separado, à margem de nossas preocupações cotidianas, mas que quando nós o permitimos ela pode permear e transformar completamente essas atividades.

Mais difícil do que tudo, para um indivíduo como eu , foi começar a aprender que nos aproximamos mais de Deus, não quando caminhamos à parte, mas sim, quando nos aproximamos uns dos outros. Uma das primeiras ordens que me vieram, quando aprendi a cultivar esse silêncio de escuta, foi que eu devia visitar o ministro a cujo apelo havia respondido quando tinha doze anos. Lutei contra a idéia durante todo o caminho para a sua casa.

O que poderia o homem pensar de um perfeito estranho intrometendo-se em sua vida particular com alguma reminiscência pessoal? O que encontrei ali, quando cheguei, (e que Deus sabia) foi um homem velho e alquebrado pela vida. Nesta triste disposição de ânimo, parecia-lhe quase que desperdiçado. Ele ficou completamente atônito ao saber que seus sermões haviam transformado vidas e eram recordados através dos anos. Foi como se eu lhe houvesse dado um presente de inestimável valor.

Pouco depois, li nos jornais que falecera. Através dessa e de dúzias de experiências semelhantes, compreendi, gradualmente, o poder que advém do compartilhar, embora, isso contrariasse minhas tendências.

Quando ousei compartilhar a mim mesmo em minhas relações cristãs, compreendi que isso também era necessário no meu consultório. Não devia olhar para meus pacientes como um caso, mas, como pessoas; não devia preo
cupar-me com seus sintomas, apenas, mas com sua família, seu trabalho, com todo o complexo de suas experiências passadas, suas esperanças e temores quanto ao futuro.

Mais terrificante do que para o indivíduo afastado e fechado que eu continuava a ser por instinto, foi saber que deveria tornar-me uma pessoa para com meus pacientes. Não o “monsieur le docteur” de avental branco e estetoscópio, mas um ser humano amigo que encarava os problemas da vida como seus próprios. Com o tempo, essa transformação do meu pensamento levou-me à psiquiatria, onde o ato de compartilhar pode ter surpreendentes resultados.

Uma vez, Deus orientou-me para compartilhar com um paciente algo que me pareceu tão trivial e, sem dúvida, constrangedor. Algo que só com anos de aprendizado no “confiar Nele”, forçou-me a fazê-lo. Esse homem vinha me visitando, há várias semanas, sem jamais descer ao que o estava incomodando, Certa manhã ele me perguntou: “Como você usa o período de silêncio citado em seus livros?” Suspeitando que ele não estava interessado, realmente, mas procurava evitar algum assunto que o assustava, novamente, disse-lhe: “Não vamos falar sobre isso. Vamos experimentar!”

Fechamos nossos olhos e eu orei fervorosamente para que ele pudesse ter uma experiência real com Deus. Quão edificante seria se Ele nos desse sua mensagem inspiradora! Contudo, em vez de inspiração, parece que tudo que consegui pensar foi sobre contas a vencer naquele mês. “Tenho que me sentar esta noite (refletia) e estudar as despesas da casa com minha esposa”. Isso jamais deveria ter acontecido! Eu deveria estar dando um exemplo de oração e não estar me preocupando com meu dinheiro. Então, veio a ordem inconfundível: “Confesse a esse homem o que você estava pensando”. Bem, resisti como sempre faço, mas falei, finalmente. Ele me pareceu ficar espantado. “Esse é o meu problema” gritou. “Preciso mentir à minha esposa a respeito de dinheiro todos os dias porque tenho uma vida secreta.

Como soube?” Com a verdade diante de nós, finalmente, fomos capazes de encarar seu problema, juntos. Isso poderia não ter acontecido se eu tivesse tentado esconder-me por trás da fachada de “mentor espiritual”. Se, de fato, negasse compartilhar meu falível “eu”. Porque descobri que não é quando estamos espiritualmente ensoberbecidos, mas sim, quando somos mais humanos que nos aproximamos mais de Deus. Essa é uma verdade que Ele tem que me ensinar todos os dias, novamente.

(Paul Tournier, médico suíço foi um dos mais renomados psiquiatras cristãos deste século. Reconhecido como homem de ciência e fé. Foi autor de inúmeras obras, traduzidas em vários idiomas, inclusive para o português. Este artigo foi traduzido da revista “Guideposts” pelo CPPC e publicado com autorização.)