A Gruta do Lou

Quando o trabalhador não é digno de seu salário

Fila de trabalhadores

Ali pelo meio do evangelho (no caso de Matheus, está no capítulo 10), Jesus resolveu enviar seus discípulos para realizar a grande missão. Deu-lhes orientações detalhadas sobre como agir, a quem buscar e a mais impressionante, a meu ver, diz respeito à questão da grana. Veja lá:

“Vocês receberam de graça, deem também de graça. Não levem ouro, nem prata, nem cobre em seus cintos; não levem nenhum saco de viagem, nem túnica extra, nem sandálias, nem bordão; pois o trabalhador é digno do seu salário.”

Seguem-se outras instruções impressionantes até o início do Capítulo onze, em minha opinião, o Mestre estava tomado de grande entusiasmo, embora os tenha alertado dos perigos, orientou-os de forma otimista.

Sempre que leio ou lembro de Mateus 10, texto que usei muitas vezes para despachar meu discípulos, muitos mais que os ínfimos doze de Jesus, não consigo deixar de pensar em duas coisas. Primeiro em mim, egoísta que sou, vivo com esse sentimento de indignidade, afinal não tenho sido digno do meu salário, apesar de dar o recado (O Reino dos Céus está próximo) do Nazareno por esse mundo do Pai dele.

Depois, talvez eu venha falhando em curar os enfermos, outro item incluso na missão. Acho que faltei nessa aula lá no seminário batista e confesso, não sei curar os doentes, a começar pelos de minha casa e não seria nada mal se soubesse como, pelo menos me pouparia toda essa humilhação de Projeto Coração Valente e intermináveis solicitações por esmolas, com resultados pífios, em que pese os dois contribuintes fieis do projeto.

Para ser honesto mesmo, tem mais, outra parte da missão que nunca fui capaz de realizar, ou seja, ressuscitar os mortos. Nos poucos enterros que realizei, não fui capaz de orar pela ressuscitação dos infelizes moribundos, durante o culto fúnebre.

O meu amigo Pr. Wagnor de Azaré me disse que costuma cumprir esse mandamento, embora nunca tenha logrado êxito. Conheci uma mulher que foi ressuscitada pelas orações do missionário Arno Stiegel, em Durban, África do Sul, país onde acontecerá a próxima copa mundial de futebol. Talvez ele esteja com o salário em dia, nesse caso.

Tem mais, também nunca purifiquei nenhum leproso. Nem unzinho sequer. Conheci uma pessoa que levou esse mandato a sério, resultado, ficou ela leprosa. Ainda bem que nunca topei com nenhum leproso pelo meu caminho, pelo menos, não que eu saiba. Isso teria sido bom para mim e para ele também. Melhor que encontre alguém capaz de crer nas palavras de Jesus.

Quanto a expulsar demônios, sou obrigado a admitir que já o fiz, muitas vezes, sobretudo nos tempos do primeiro amor ao evangelho. Nesse caso tenho algumas boas histórias para contar. Entretanto, não aconselho a ninguém, em especial às crianças, brincar com isso. Suspeito ter sido vítima das consequências funestas desses atos tresloucados. Astutamente, Jesus não nos informou sobre esses detalhes menos importantes e você pode não gostar do que possa vir a lhe acontecer em represálias do inimigo de Jesus.

Mas, o mais significativo de tudo isso, é que não fui o único missionário picareta de Jesus, os próprios doze enviados em pessoa pelo mestre foram incapazes de cumprir todo o mandato. Eles também conseguiram fazer uma coisa ou outra, mas não tudo.

Teve demônio que não saiu, doença que não foi curada e eles também evitaram os leprosos, sem falar que não há noticias de ressuscitamentos pelas mãos deles. Segundo Albert Schweitzer, a missão dos doze foi uma grande decepção para Jesus, e isso o teria levado à mudar seus planos e tomar para si a tarefa toda, dar sua vida por todos esses infelizes que aguardavam solução, teria a única saída encontrada pelo Galileu.

Nunca mais tive coragem de participar dessas conferências sobre missões e ajudar a mandar jovens inocentes para o meio de lobos vorazes. Talvez o fato de nunca mais ter sido convidado também tenha contribuído, mas o fato é que não cometo mais esse tipo de pecado. No máximo, incentivo os jovens a fazer o curso da bolsa de valores e viverem de aplicações, embora eles nunca tenham me ouvido, a começar pelos de casa.

Enfim, saí por aí sem me preocupar em levar ouro e as outras coisas recomendadas por Cristo. Quando o fiz, doei tudo para o pessoal visitado, até o meu terno do casamento foi parar no guarda-roupas de um pastor do leste europeu, na época da Cortina de Ferro.

Quando voltei daquela viagem, em minhas malas só haviam livros, pois minhas roupas ficaram por lá, exceto algumas meias e cuecas. Parece que assumir esses compromissos com Cristo se tornam atos vitalícios dos quais não conseguimos nos livrar jamais.

Até hoje estou andando por esse mundo neoliberal sem esses equipamentos proibidos por Jesus, salvo uma ou outra merrequinha, quem sabe mais alguma coisa doada por minha sogra ou adquirida a prestação por aí, embora dificilmente eu pague essas coisas até o fim.

Sou, provavelmente, uma das melhores expressões de um missionário do Filho de Deus, não tenho onde reclinar a cabeça (nem mesmo um apartamentozinho em algum bairro menos nobre de S.Paulo) ao contrário dos lobos que detém seus covis. Nem assim sou digno de meu salário, nem mesmo desses mínimos que existem por aqui.

Capricornio PB

3 thoughts on “Quando o trabalhador não é digno de seu salário

  1. Não seríamos dignos de salário nem mesmo se cumpríssemos nossas tarefas mais corriqueiras, ou seja, amar o próximo como a nós mesmos e a Deus sobre todas as coisas.
    Portanto, os que recebem salário ou descobriram “O Segredo” ou estão muito, mas muito enganados…
    Salvo engano.

    Tomara que a resposta certa seja a segunda opção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *