A Gruta do Lou

Quando o Cristianismo não faz sentido

nclivro

Respondendo ao desafio do Nelson Costa, por ocasião do início das festividades de lançamento do excelente livro que ele escreveu com esse título, aí vai o conjunto de palavras desencontradas que consegui juntar, embora não tenha a lucidez e capacidade do Nelson para dar alguma coesão a elas:

Minha impressão mais presente me diz que o cristianismo perde o sentido, para mim e para você, quando ele destoa da imagem de Cristo que construímos ao longo de nossas vidas. Sendo assim, poderíamos arriscar dizer que se houver no mundo dois bilhões de cristãos, muito provavelmente, haverá um número igual de cristianismos.

Quando dava aulas de teologia em nossos seminários vagabundos, que não passavam de choupanas no meio de florestas devastadas (se comparados aos castelos medievais da América do Norte e Europa), em território paulistano, ao ouvir um aluno mencionar a palavra cristianismo, automaticamente, perguntava de que cristianismo ele estaria falando, do Papa, de Lutero, Calvino, Dr. Shedd, o meu ou o dele. Na verdade, ousaria dizer que o único cristianismo capaz de fazer sentido para qualquer um de nós, é o nosso. Entretanto, quase sempre isso não acontece porque nós não conseguimos fazer sentido e muito menos dar algum sentido ao nosso cristianismo ou ao resto de nossas crenças.

Lá pelos meus vinte e poucos anos, pisei o solo sagrado de um seminário como aluno, também. Naquele tempo, a maioria dos meus colegas (rapazes e moças) sonhava com o ministério pastoral, eles com o púlpito e elas com a cadeira que geralmente é reservada à esposa do pastor. Parece que essa ordem já está em adiantado estado de decomposição e inversão. Como sempre fui meio patzo, meu plano era apenas o início de uma caminhada preparatória que me daria alguma condição ministerial, após meu aniversário de cinquenta anos, no mínimo. Não conseguia supor a possibilidade de estar preparado para o ministério antes disso. Para mim, não fazia sentido algum, qualquer outra possibilidade. Já estou muito perto dos sessenta e ainda não encontrei o meu sentido de cristianismo.

Uma definição de cristianismo é um livro que talvez faça algum sentido se for escrito no fim da carreira, como fez o apóstolo Paulo, com aquela afirmação prepotente de que terminou a carreira, guardou a fé, etc. Em outras palavras, ele disse, esse é o cristianismo que faz sentido para mim, aquele que vivi, contingencialmente (como propôs nosso amigo Brabo), pois cristianismo agente vive e ele é uma obra aberta, que cada um de nós constrói, dia a dia, ao longo da vida.

Mas será bem provável que o seu cristianismo não faça sentido para mim ou para o Gondim, assim como o dele não faz qualquer sentido para mim, mesmo fazendo todo sentido para você (o seu e o dele). Sei que não é nada fácil aceitar tal realidade. Todos nós gostaríamos de torcer pelo Cristianismo como se fosse um time de futebol, coeso, vencedor e cheio de glórias, com um bom papa entre nós e o criador, vestido com aquela fantasia ridícula e os cardeais e bispos a segurar-lhe a saia. Isso responde à minha insistência em detonar a todos os candidatos a papa que me aparecem. Ai papa, soy contra. Cristianismo só fará sentido se ouvirmos o que disse Paulo (o apóstolo), em um raro momento de lucidez: “sede meus imitadores como sou de Cristo”. O resto jamais fará sentido.

morcego-12

12 thoughts on “Quando o Cristianismo não faz sentido

  1. Pronto, praticamente já está lançado na Gruta o manuscrito herético sem sentido do tal Nelson Costa.
    Mas do que tu disse Lou, não vem de Deus!

    Tudo que eu falo vem de Deus, até eu venho de Deus; bom, pelo menos é o que dizem por aí, digo, por aqui. 🙂

  2. Agora, pronto, LH prefaciando Nelson, e me lembrando de um dia abandonar essa histeria de querer ser cristão, adquirindo assim a primeira condição de possibilidade de viver algo que abra espaço pra um cristianismo. Ótima notícia.

    Boa né? É a Gruta.

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