Projeto de vida= menosprezar

Maria Nilde Mascelani

A grande dificuldade de todos os empreendedores públicos continua sendo ter um projeto.
Dna. Maria Nilde Mascellani, juntamente com Olga Bechara, pensaram o Sistema Vocacional de ensino, onde fiz o ginásio, sobre os pressupostos: livre pensar, trabalho em equipe, estudo do meio e currículo abrangente, contendo Artes Industriais, Práticas Comerciais, Economia Doméstica, Educação Musical, Artes Plásticas, Religiões, além das matérias básicas.

Era uma proposta concreta para educação pública de qualidade, onde importava o ensino e a aprendizagem. Prédios tinham importância relativa, embora fosse tudo bem ao gosto da era industrial. Hoje, estou em contato via web principalmente, com meus antigos colegas e não gosto muito do que vejo. Em verdade, o que ficou foi um certo apego à escola que aproximou mais os alunos, mas não para muito além dela própria.

Vendo e ouvindo essa penca de candidatos aos cargos públicos, tudo que consigo concluir é que, sem exceção, não há nenhum deles com algum projeto que se preze. Enxergam ensino, saúde e justiça como prédios tipo céu ou inferno, transportes é asfalto de qualidade duvidosa em estradas cujo destino não se pode ver e por aí vai.

Ponto para Jesus Galileu, pois ele veio a esse planeta com um projeto muito bem definido que era: redimir a humanidade do pecado e da culpa e dar-lhe a vida eterna, de novo, quer ela o desejasse ou não.

Não faço a mínima ideia de quem teria dito a Gandhi qual era a missão dele na vida e o cara sem nunca ter ocupado um único cargo público sequer e pregando a não violência libertou a Índia do domínio autoritário e sangrento Inglês.

Algo parecido aconteceu com Martin Luther King que sabe-se lá de onde tirou a ideia de libertar os negros norte-americanos de um dos mais trágicos e violentos preconceitos jamais sofridos nesse mundo. Tampouco sabemos como o negro Nelson Mandela, um homem que passou boa parte de sua vida como hospede de uma prisão afrikan infame, assumiu a tarefa de livrar seu povo do violento sistema segregacionista do Apartheid, a que os negros sul africanos foram submetidos durante anos.

Madre Tereza de Calcutá, que era albanesa de nascimento, também teve um projeto bem definido que consistiu em melhorar a vida poluída do povo indiano com reflexo a populações pobres de todo o planeta. Todas essas pessoas tinham projetos muito claros que podiam ser expressos em uma única frase curta e seus feitos foram grandiosos em benefício de milhares de gentes, sem qualquer vantagem pessoal.

Não sei bem qual é o meu projeto de vida, nem mesmo se deveria ter um, além daquela mediocridade de ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Estou escrevendo a quase cinco anos em um blog e ainda não consegui definir qual é a minha. Planejei ser professor, marido, pai, missionário, pastor, empresário e, por último, consultor. Em todos esses casos, nunca cheguei a enxergar além de mim mesmo. Honestamente, minha atitude secreta é egoísta em geral. Acho que isso explica minha vontade de desistir, sempre presente. Afinal, desistir é uma forma de ativismo como outra qualquer, tão egoísta quanto.

Insuportável é olhar para Cristo com toda aquela capacidade de dar-se sem nenhum pingo de individualidade. Ele nunca disse, e acho que nem pensou, no espaço dele, em viver um pouco para si mesmo, ou se permitir algum prazer, mínimo que fosse, em menosprezar alguém. Sua abordagem para com as pessoas em situação de risco sempre foi a de se considerar o menor de todos. Fazia isso sem hipocrisia e parecia não sentir qualquer traço de superioridade em relação aos outros.

Da mesma forma, comportaram-se Gandhi, King, Mandela, Madre Tereza e tantos outros. Fico, então, tentando formular algum plano de vida, mesmo na idade que alcancei, sem ter feito nada que não fosse satisfazer meu proverbial orgulho. Mas tudo que penso, em algum ponto, acaba sendo para me engrandecer de alguma forma, ou de satisfazer as necessidades de meu ego. Não tenho plano algum para nada, ou poderia arriscar, que meu plano é nunca fazer planos e viver repetindo, para mim mesmo, que estou aqui para fazer o melhor pelos meus semelhantes, guardando em meu coração a intenção verdadeira que é me dar bem, enquanto os outros, a quem considero inferiores, que se danem.

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