A Gruta do Lou

Prazer em viver

Lou Mello, mais velhinho, hoje.

Ontem conversava com um amigo que fez 52 anos no último dia 4 e ele dizia que se sentia da mesma forma que no tempo de juventude, em termos da mente e do pensamento, mas seu corpo denunciava o passar do tempo, quando insistia em não corresponder mais às suas expectativas.

Pratiquei esportes em profusão e imaginava, ainda jovem, que manteria meu corpo sempre em forma, ao longo da vida. Os anos passaram e não consegui cumprir meu objetivo, por uma razão ou outra. No final do dia, tive o prazer de assistir a reprise da entrevista que o Programa Roda Viva da TV Cultura fez com Guilhermo Arriaga (Roteirista de Babel) e lá pelas tantas ele disse: Esconder as cicatrizes da vida (careca, rugas, barriga, varizes, etc.) é lutar contra a morte. Precisamos celebrar a vida, sem medo das marcas que ela nos deixa.

A minha vida não tem sido fácil. Vivo brincando com as falsas crenças veiculadas pela Igreja irresponsável de um Deus intervencionista, mas a grande verdade é que se há algum responsável por minha sorte, sem dúvida “The winner” sou eu. Mas eu não poderei dizer, no leito de morte, que não vivi. Minhas cicatrizes da vida denunciam o quanto saboreei meus dias, mesmo que os momentos desagradáveis tenham acontecido, concomitantemente.

Tenho vivido ao lado de uma grande companheira, com quem tenho dividido essas cicatrizes da vida. Ainda que existisse um anjo do mal a surrupiar meus bens, ele não teve o poder de me privar dessa benção.

Agora, tenho a alegria de viver nesses dias fantásticos, em meio a essa revolução da informação que nos trás de volta tantas pessoas com quem convivemos em nosso passado, presenteia-nos com uma quantidade inimaginável de novos amigos, resgata o poder da palavra escrita (até os nossos jovens estão escrevendo em profusão, via E-mails, torpedos e posts) e, com isso, a leitura está ganhando um novo e inesperado impulso, para minha alegria incalculável.

Não sei quantos dias ou anos Deus ainda tem me reservado. Se tivesse que fazer os tais três pedidos agora, não hesitaria em solicitar a liberdade de viver para o Thomas, para a nossa família e muitos, muitos novos amigos. Não sobraria pedido para qualquer coisa material. Claro que a possibilidade de desenvolver um trabalho profícuo e que ainda me cause um sustento digno seria legal. Poderíamos, quem sabe ainda, conquistar uma casa própria e ter nosso carro outra vez (aceitaria até um Land Rover Defender ou um Toyota Corona). Mas nada disso seria mais prazeroso que a vida de todos nós.

Não temo a morte. Como disse o Guilhermo, ela tem me dado suas lambidas e eu não tento escondê-la com plásticas, exercícios e dietas intermináveis. Ela é parte do plano. Tudo que desejo é cumprir minha carreira inteira (a única frase decente que Paulo cunhou) e guardar a fé.

No mais, sou grato a todos, a cada um dos privilegiados que foi conduzido por Deus, destino, seja quem for, a ler essas mal traçadas linhas. Todos vocês têm contribuído para uma vida rica, relevante e gostosa de ser vivida. Mesmo o sofrimento e os acontecimentos desconfortáveis me fazem crescer e vibrar. Tenho prazer em viver, mesmo depois de 57 anos.

17 thoughts on “Prazer em viver

  1. PArabéns mais uma vez Lou!
    Em especial pelo texto tão cheio de esperança e alegria!
    Que é o que tu tens dentro de ti!
    Deus te continue a abençoar muito!
    :))
    Um abraço amigo.

  2. Hei Lou!!!

    Nada de cirurgia plástica, viu, nao quero que você fique com cara de peixe, kakakaakakak!!!

    Grande abraco, parabéns pelo dia de hoje.

    Nao sei mais em quantas página já te desejei tudo de bom, mas é isso ai.

  3. Só pra deixar registrado aqui que te desejo tudo de melhor.

    E que bom encontrar quem reconheça que a vida vale à pena!

    Beijão!!!

  4. Há “hoje um phatos de ênfase invertida: o alvo não é envelhecer, mas permanecer jovem, não é amadurecer e afastar-se de Mamãe, mas apegar-se a ela.” (Campbell)

    O envelhecimento é um honra – que ninguém deseja, é verdade – o que, no entanto, não é capaz de torná-lo um fato menos honroso.

    Brindar as “lambidas da morte” é sensato: sem a morte a vida é apenas um inútil correr atrás do vento; os medievais (aqueles obscuros) sabiam disto; os mexicanos – Arriaga não nos deixa mentir – também conhecem a lição. Silenciar a morte com cosméticos e academias é uma maneira muito boa de sustentar esta ideologia da ostentação e acumulação que nos acorrenta.

    Felicidades!

  5. LOu !! hoje, por ser seu aniversário, e por eu desejar te dar um presente (é legal ganhar presentes), vou te contar um segredo:
    Cara, adoro seus posts, vc escreve bem demais, merece alguns livros… hoje vc é segundo cara que eu persigo em textos, o outro é nada menos que Phillip Yancey….heheheee…. é sério, já se tornou um vício ler vc.
    Caso ninguém nunca te disse , encontro Deus em suas palavras (de verdade), encontro Deus na sua sinceridade, sagacidade e coragem de assumir sus agruras.
    Admiração talvez seja a palavra mais certa pra expressar a vc, mas respeito demais suas idéias.
    Espero um dia conhecer vc , a Dedé, o Thomas sua casa e seus bichinhos de estimação, vcs certamente são uma linda e abençoada família.
    Se em alguma hora vc e a Dedé se sentirem tentados a fugir de Sorocaba para uma cidadezinha bucólica na curva de um rio e perdida no mapa ( mas um pedaço do Édem ), fica aqui meu convite para recebe-los em minha casa !! certamente farias uma loira feliz !! rsrsssss.
    Parabens pra vc !! que Deus te abençoe com lindos e vitoriosos dias , por toda sua vida, e….. brigadinhu viu !!
    abraços

  6. Inspirado pelo tom do seu próprio texto de celebração da vida, deixo de presente de aniversário Quintana, para o amigo Lou:

    VII

    Recordo ainda…E nada mais importa…
    Aqueles dias de uma luz tão mansa
    Que me deixavam, sempre, de lembrança,
    Algum brinquedo novo à minha porta…

    Mas veio um vento de Desesperança
    Soprando cinzas pela noite morta!
    E eu pendurei na galharia torta
    Todos os meus brinquedos de criança…

    Estrada afora após segui…Mas, aí,
    Embora e idade e senso eu aparente,
    Não vos iluda o velho que aqui vai:

    Eu quero os meus brinquedos novamente!
    Sou um pobre menino…acredita…
    Que envelheceu, um dia, de repente!…

    Mario Quintana

    [parabéns! valeu por td =]
    [abraço’s, Ricardo Oliveira]

  7. Estou gostando dos presentes. Mas tomem cuidado com a minha tendência à soberba.

    O fato é que só a presença, a coragem e disposição em deixar um comentário e esse carinho todo me faz vê-los com os olhos mareados e com uma grande vontade de abraçar cada um com muita força. Um beijo a todos, inclusive você aí que está vendo de trás do muro.

  8. Que qui há velhinho!!!
    Tô na tua cola (55), meu, não vacila.
    Vai com calma que a gente já chegou lá (só não sabemos onde…)
    God bless you!!! (soa mais chic)
    Abração

  9. Bem eu sei a fonte que mana e corre
    Embora seja noite.

    Aquela eterna fonte está escondida
    mas sei bem d’onde ela é suprida
    embora seja noite.

    Sua origem desconheço, pois não a tem
    mas sei que toda origem dela vem,
    embora seja noite.

    Sei que não pode haver coisa tão bela
    e que céus e terra bebem dela,
    embora seja noite.

    Sei bem que fundo nela não se acha,
    e que ninguém pode atravessá-la,
    embora seja noite.

    Sua claridade não é nunca escurecida
    e sei que sua luz toda já e vinda,
    embora seja noite.

    Sei ser tão caudalosas suas correntes
    que regam céus, infernos e as gentes,
    embora seja noite.

    A corrente que nasce desta fonte
    sei eu que é forte e onipotente,
    embora seja noite.

    E das duas a corrente que procede
    sei que nenhuma delas a precede,
    embora seja noite.

    E esta eterna fonte está escondida
    neste vivo Pão pra dar-nos vida,
    embora seja noite.

    Aqui ela está chamando as criaturas
    e se fartam desta água, ainda que às escuras
    porque é de noite.

    Esta viva fonte que desejo
    neste Pão de vida a vejo,
    embora seja noite.

    São João da Cruz (1542-1591),
    o frade espanhol que dizia que somos aquilo que amamos.

  10. Parabéns Lou. Não venho muito por aqui, mas a Geórgia nos disse que aniversariava hoje.
    Lhe desejo do coração que os seus desejos se concretizem.
    Um abraço

  11. Olá Luiz, lembra de mim? Sou amigo do Thomas. Feliz aniversário! Pena que ainda não pudemos conversar mais no MSN.

    Até mais!

  12. Esse ano tá passando tão rápido, tão rápido, que o Lou já aniversariou!!

    Aceite o meu abraço. Nossos abraços precisam ser mais constantes e contínuos do que as lambidas da foice ceifadeira.

    A vida é difícil, mas inigualável, exclusiva, singular – ainda mais pra quem se esconde numa gruta que tem por apelido “A Graça”.

    Continue com Deus e a paz dEle.

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