A Gruta do Lou

Práticas Comerciais

Gastei seis anos entre a pré escola e o primário, depois foram mais sete anos entre o ginásio e o colegial. A seguir foram mais oito anos em bancos de faculdade e pós graduação. Vinte e um anos gastos em estudos e preparação e sem mencionar cursos menores, seminários, etc…

Com tudo isso, raras foram às vezes em que tratei de finanças pessoais. Salvo algumas noções de contabilidade na matéria Praticas Comerciais (que só havia em minha escola) e nas matérias obrigatórias no currículo de Administração de Empresas, se bem que de finanças pessoais pouco se tratou, em todos esses anos de aprendizado, não aprendi quase nada sobre esse assunto que ocuparia mais de noventa por cento dos meus dias, nessa vida bandida.

Convivi, algum tempo, com famílias de origem ismaelita. O Khalil, meu grande amigo é descendente de Libaneses. Também, estive muito próximo de uma família de armênios, composta de libaneses e árabes.

Nos dois casos, ficou claro a importância e a preocupação dos mais velhos ensinarem a arte das finanças aos mais novos. Claro que não estou me referindo aos cursos acadêmicos, mas ao ensino de fatores essenciais para a vida, no seio da família. Assim como os judeus, pessoas formadas nessas culturas mostram-se muito mais aptas a enfrentar as necessidades financeiras do dia-a-dia.

Desde cedo, meninos e meninas aprendem as rudimentares e essenciais leis do comércio e da troca. São exímios em contas de somar e multiplicar, noves fora. Geralmente, nos assustamos com essas habilidades. Mas, no curso dessa vida, descobrimos como eles são muito mais aptos que nós.

O Khalil já gastou muitas horas tentando me ensinar um pouco de sua arte na área financeira. Mesmo sendo um missionário, ele não erra em seus negócios. Em uma de minhas intermináveis crises financeiras, perguntei-lhe se alguma vez ele havia passado por situação igual a minha. Depois de pensar um pouco ele respondeu: “Não nunca. Deve ser porque sou bom em contas de mais, noves fora.”

Em uma missão lá em São João Del Rey, descobri no meio do trabalho que não havia levado camisas suficiente. Estávamos na metade do trabalho e já utilizará todas as que havia levado. Então olhei para o Khalil e anunciei que iria mandar o hotel lavar as minhas camisas. Sem pensar mais do que um segundo ele redarguiu: “Você tá louco! Com o dinheiro que você pagaria para eles lavarem, você compra três camisas novas e boas no comércio da cidade e ainda sobrará troco.” Fiquei olhando para ele alguns segundos e percebi que não o convenceria a do contrário. Então disse: ok, vou a cidade comprar camisas. Ele respondeu, vou com você. Tremi na base, pois sabia como era difícil pra mim comprar qualquer coisa junto com um libanês da gema.

Não deu outra. Entramos em todas as lojas de camisa da cidade e não compramos uma única camisa se quer. Depois de sairmos da última loja, olhei para ele e disse: “Bom meu amigo, pelo jeito só me resta voltar ao hotel e mandar minhas camisas sujas para lavar. Ele me olhou como se estivesse vendo um tubarão vindo em sua direção. “O que?” disse ele. Agora nós sabemos qual é o menor preço para camisas que há na cidade. Vamos voltar à primeira loja que entramos e lá nós compraremos. Na bucha, compramos três camisas novas, bonitas e de boa qualidade, pelo menor preço da cidade.

Quando saímos da loja, perguntei a ele como sabia que conseguiríamos toda essa vantagem. Então, com cara de malandro, ele respondeu: “Você não percebeu que o dono dessa loja era um brasileiro malandro? Então, enquanto você experimentava as camisas, contei pare ele havíamos visitado todas as lojas de camisa da cidade o qual o menor preço encontrado. Então ele nos fez um preço um pouco inferior ao menor preço encontrado por nós na cidade”.

Esses povos sofreram e sofrem muito e isso contribuiu para a cultura deles. Mas é inegável a habilidade deles nessa área. Desde pequenos o relacionamento deles é comercial. O pai diz ao filhinho: Dou-te dez reais por cada nota acima de sete que você tirar. A mãe paga aos filhos por cada ida ao supermercado. Lavar a louça do jantar vale um determinado valor e eles brigam por isso.

Uma vez o Varujan, ainda menino quis ser bonzinho e aceitou lavar a louça do jantar sem ganhar nada. Seu pai sentou perto e assistiu o trabalho dele até o fim. Quando terminou, o pai o chamou para fora da casa e deu-lhe uma surra inesquecível. No fim disse-lhe: Nunca mais trabalhe de graça em sua vida.

O Khalil me contou que a irmã dele estava tendo problemas com o namorado mulherengo, certa vez. Seu Eron chamou a filha e disse: Eu pago vinte mil dólares para você terminar esse namoro. No dia seguinte o idiota tomou o pé no ass.

Estranho que em meio a essas práticas, eles tenham desenvolvido práticas belíssimas. Sou fã do jeito deles. Invejo seus conhecimentos e habilidades em finanças, tanto quanto sua sensibilidade e razão. Acima de tudo, eles são mestres no trato com as pessoas.

Tenho notado que os grutenses têm um traço em comum. Somos péssimos em finanças pessoais. Alguns não têm problemas financeiros, mas por pura sorte, ou seja, não passaram por experiências mais duras onde esse conhecimento fosse extremamente necessário.

Não é a toa que essa história começou em Adulão com os endividados (pessoas que não lidavam bem com suas finanças, apesar de serem judeus) reunindo-se a Davi. Dizem as más línguas que eles acreditavam que dia mais, dia menos Davi lhes mostraria o caminho da prosperidade.

Em outras palavras, não era a beleza ou a habilidade de Davi com as armas, mas seu domínio das artes financeiras que encantava o povo. Essa habilidade aparece sobejamente nos salmos.

Dito isso, maior ainda é a minha miséria.

Acho que já há muito material ai para boas reflexões e discussões.

Bons negócios a todos.

4 thoughts on “Práticas Comerciais

  1. Vilma – Ufa! Ainda bem que você não disse que não gostou do post. Obrigado.

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