A Gruta do Lou

Por uma outra igreja

Afinal de contas, há necessidade da Igreja?

Certa vez, Zenon e eu passamos bom tempo argumentando com uma mulher sobre a importância de fazer parte de uma Igreja, obviamente, as opções todas eram institucionais. Embora houvesse alguns prenúncios diferentes, formados por comunidades ou grupos domésticos, não conhecíamos nada que pudéssemos indicar a uma amiga.

Embora defenda, sem grande convicção, que Jesus não fundou porcaria de Igreja alguma, encontro na mensagem secreta dele, muitas evidências de que ele gostaria que caminhássemos juntos, em algum tipo de assembleia, comunidade ou grupo. Claro está, que em vista da Igreja existente, temos muito mais assunto para criticar, em oposição à possibilidade de elogiar ou enaltecer. Mas Jesus era um agregador, apesar daquele jeito meio taciturno, sempre com um ar de quem está escondendo o leite, irônico na maior parte do tempo e salpicado com um humor doce e não menos contundente. Havia nele, sem dúvida, alguma ideia parecida com uma Igreja, mas muito diferente de tudo que temos com esse rótulo, em nossos dias, se não me engano.

Tem gente por aí com a boa intenção de extrair da igreja vigente um igreja emergente. Outros gastam a vida fundando igrejas, para morrer sem ter encontrado a fórmula certa. Também acho que o Mestre escondeu algo nessa direção em algumas parábolas ou em seus enigmas. Afinal, ele confessou que sem essas figuras de linguagem não se pronunciaria.

Quando lecionava em seminários, e pode crer: eu já fiz isso, examinei com meus alunos essas afirmações, meio fora de ordem, presentes no texto bíblico. De certa forma, agradeço a Deus por elas terem sobrevivido a todas as pajelanças realizadas com o texto sagrado, por séculos, de gente interessada em manipular com todo o tipo de interesses, a maioria, espúrio. Um das passagens que me fez pensar assim, sem dúvida, é aquela em que Jesus diz para um cara que recém curara de enfermidade hedionda, não contar a ninguém o que sucedera. Isso me pareceu totalmente paradoxal e na contra-mão de muitas coisas que me ensinaram, quando eu estava no seminário como aluno. Verdade, sempre me disseram que deveria anunciar o evangelho aos quatro ventos, a tempo e fora do tempo, propagar, usar marketing, seja lá o que isso queira significar. Aprendi a Grande Comissão, participei de um número inimaginável de congressos de missões e evangelização, muitas vezes como um dos palestrantes, todos unanimes em nos convencer da necessidade de pregarmos o evangelho a todo o mundo, embora isso camuflasse a verdadeira intenção, ou seja, fazer proselitismo para nossa religião, e nem de longe, revelasse qualquer desejo secreto do Senhor Jesus, em relação às coisas do Pai dele.

Interessante notar que o próprio subversivo mestre de Nazaré já se opunha à igreja existente em seus dias, manifestando até sentimentos mais fortes contra aquela hipocrisia horrorosa que acabou por levá-lo à morte na cruz. Nem o pior dos homens ou gente da minha laia seria capaz de insistir com um modelo perverso como aquele, muito menos o rei do amor ágape. Sem dúvida, ele nos legou alguma forma de caminharmos juntos, pois nós precisamos disso tanto quanto beber água e nos alimentarmos. Entretanto, nós carecemos de uma outra igreja, uma assembleia que reúna os revelados, aqueles que descobriram a verdadeira intenção de Jesus, entranhada em suas palavras, embora isso não tenha acontecido até hoje, pasmem.

Sim a igreja é necessária, em outros moldes e princípios, provavelmente, uma dinâmica absolutamente contrária a tudo que conhecemos com esse nome. Acho maravilhosa a declaração de nosso mestre de que deveríamos ser o sal da terra, em mais uma provável alusão a uma possível ideia de igreja. Se quisermos alguns parâmetros para distinguir o que precisa ficar fora desse projeto, basta a firme convicção de que ela não pode abrigar personalismos, hipocrisias, individualismos, soberbas, arrogâncias e vai por aí, em outras palavras, tudo que menospreze algum semelhante não pode ter lugar nela. Com isso, somos apenas sal insípido. Ela precisará ser formada por gente capaz de bater forte no peito e declarar, de livre e espontânea vontade: sim sou um grande pecador e desejo perdão. Ninguém que não comece por aí, poderá receber a senha de acesso. Cada um de nós precisará saber que não é pior ou melhor do que qualquer outro ali. Aqueles que desejarem ser os maiorais que sirvam os demais, começando por lavar-lhes os pés.

Sim, Ele falou muito da Igreja que sonhava implantar.

5 thoughts on “Por uma outra igreja

  1. Que bom texto, Lou. Já houve em algun tempo a tal igreja?

    Se houve eu desconheço. Quem sabe, arriscar palpite nas igrejas de Atos dos Apóstolos, se bem que o Apocalípse não recomenda muito. Sei lá. Mas poderíamos pesquisar, quem sabe não há algo sob as nossas barbas? Completando, já que você levantou a bola, aí está a ideia bem sintetizada pelo Rubinho, mas suspeito que Jesus imaginasse as pessoas se tocando, frente a frente em carne e osso, essas coisas e sem exageros.

  2. Lou, sobre a segunda parte do seu comentário é mesmo uma pedra em nosso sapato sibernético. Mas nada como a distância para evitar problemas. Talvez por isso a nossa igreja (do Rubinho) funcione tão maravilhosamente bem!

  3. Sim sou um grande pecador e desejo perdão. Agora me manda a senha.

    Então, essa é a senha. Já está gravada e você não será mais detido na porta.

  4. Pena pensar que a igreja que hoje deveríamos buscar é uma igreja utópica.
    Jesus sempre soube que foi e sempre seria assim, e pagou nossos pecados cometidos e a cometer, na cruz. Esse é o único motivo no qual podemos dizer que somos a igreja.
    E como você bem disse, o que falta é: Sou um grande pecador e desejo (necessito) de perdão.

    Gostei de ler este texto, tenho uma pergunta… Lou, você tem frequentado alguma igreja? Se possível, qual?
    Obs: Desculpa da curiosidade hehehe. Não quero que você entre em detalhes, e nem quero debater o assunto.. como disse, é apenas uma curiosidade. Case não se sinta a vontade de responder, vou entender.
    Grande abraço.

    Para ser honesto e responder o que penso seja o cerne de sua pergunta, a resposta é não, nenhuma igreja no momento, nem em perspectiva.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *