A Gruta do Lou

Pensa, pensa que sai!

Duda


E, aproximando-se dele um escriba, disse-lhe: Mestre, onde quer que fores, eu te seguirei. E disse Jesus: “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”.

Em algum ponto de minha trajetória, descobri que educar era ensinar a pensar sobre tudo. Motivou-me a postura de Jesus, e até a do Pai dele, aparentemente, sempre forçando a barra no sentido de levar suas crias a pensar. Havia um professor no cursinho, essas aberrações de “ensino” a que fomos subjugados em nossa juventude, que gritava o tempo todo: “Pensa que sai”. Era grosseiro como o Lula (palavra do Caetano), mas sábio, ao contrário do nosso bizarro presidente.

Nossa filha (a primogênita) já estava nesse mundo quando a coisa aconteceu e ela não desfrutou muito da novidade. Foi o Pedro (o segundinho) quem vitimei 100% com minha nova teoria. Nunca respondi as perguntas dele, fiz o cara pensar, desde o primeiro instante. Com o Thomas (o caçula) fui mais indulgente, primeiro por causa da cardiopatia dele e depois porque já estava, secretamente, em dúvida com minhas teorias educativas.

Em 1984, participei de uma jornada de missões lá na Faculdade Teológica Batista, organizada pela esforçada Barbara Burns e que teve a presença de dois professores de missões, um indiano chamado Theodore Willians e a celebrada professora norte americana Dra. Louise Mackiney. O indiano me impressionou, como quase todo indiano faz, com sua reverência e devoção oriental, mas a Dra. Louise arrebentou as minhas ultimas estruturas reacionárias e autoritárias. Liquidou com meus conceitos do professor estrela sabe tudo e das aulas expositivas. O Vocacional já havia feito um serviço medonho em meu interior nesse sentido e ai veio a Louise para rebocar a parede do meu equilíbrio psicológico e teológico com suas idéias subversivas em favor do livre pensar, da participação e do viver democrático, mesmo em meio ao reacionário e dogmático ambiente cristão protestante.

Entretanto, não seria justo condenar a querida Dra. Louise e o vocacional, apenas. Mesmo escondidinho em seu canto bíblico evangélico, Jesus tem a culpa maior por eu ter me tornado nesse ser tão pouco ortodoxo. Claro, talvez eu tenha me equivocado redondamente em minha pseudo hermenêutica e entendido tudo errado, com minhas interpretações tacanhas. Enquanto o Lula fugiu da escola por preguiça e prazer na ignorância, eu fugi pelos motivos opostos, embora ainda tenha sido vítima da PUC, da FEFISA, da FTBSP, da GV e, mais recentemente, da UNISO e todos aqueles professores horrorosos e suas aulas expositivas. Só eu mesmo para aturar tanta imbecilidade.

Não sei quais foram os mestres de Jesus, sei que ele os teve, fora seu saber divino, algo relevante a meu ver. Não sou daqueles partidários de um Cristo meio homem, meio Deus, a tal Doutrina das Duas Naturezas, capítulo único no livro “A Pessoa de Cristo” do irreverente Berkouwer, que de tanto manusear, tem as folhas e capas caindo a cada fuçada e, tampouco, desejo fundar outra kenosis (esvaziamento de Cristo). Prefiro pensar, lá vou eu de novo, que Jesus desejava nos ensinar essa presente possibilidade, ou seja, através desse ato incomum, pensar, sermos capazes de lançar mão do saber celestial: Pensa meu, pensa que sai!

Então vem um cara, meio patzo, meio Woody Allen, meio Lou, e diz ao mestre essas ignóbeis palavras: “Aonde quer que fores, eu te seguirei.” Foram palavras tão ridículas que figuram na Bíblia até os nossos dias. Mas foi a resposta de Jesus, embora nada lhe tenha sido perguntado, que me impressionou sobremaneira. O Nazareno disse algumas palavras, aparentemente, desconexas ao puxa-saco da hora e suspeito veementemente que sua intenção possa ter sido levar o infeliz a pensar. Né não?

Para pretejar mais ainda a situação, suspeito também que esse nosso diretor espiritual continue utilizando-se desses mesmos métodos ultrapassados até hoje. Nossa cadela pastor alemão, a famosa Duda, está paralisada com uma das patas do tamanho da pata de um leão, em nossa sala de estar e sobre um colchonete qualquer. Dois veterinários formados nos bancos de escolas avessas ao livre pensar, sem olhar possíveis exames, embora os tenham preconizado, diagnosticaram que ela deva ser portadora de câncer. Sem a grana necessária para fazer o que qualquer ser humano sensível faria, levá-la aos exames e posteriores tratamentos, tenho dividido meu tempo em assistir a derrocada de uma linda e docilíssima cadela e orações intercessórias ao meu Deus, via Jesus Cristo, em favor dela, apesar de ser apenas uma cadela. Descuple o trocadilho, fora de hora.

Pasmem, nem assim ele muda seu método heterodoxo de educar. Varia entre não responder, ou ficar repetindo que “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. Não sei se repararam, mas Jesus não gostava muito de cães. O negócio dele era mais com as ovelhas, para ódio dos criadores de gado. Pelo menos não sei de nenhum personagem canino nos evangelhos. No Antigo Testamento, esses animais eram do mal, pois serviam de exemplo da prática insistente do homem em seu pecado: os cães voltam para lamber o vômito. Deus deve tê-los condenado a servir ao homem, secretamete, por causa desse pecado horrendo de lamber aquela coisa nojenta. Mesmo assim, eles continuam nessa prática, Duda inclusive.

Bom é isso. Agora, cansado de pensar e esperar, vou passar o chapéu. Se você leu isso antes de ser contatado, não atenda meus telefonemas, nem leia meus E-mails ou recados nos sites de relacionamento, sob risco de ser convidado a contribuir para a campanha: Salve a Duda.

lousign

3 thoughts on “Pensa, pensa que sai!

  1. Confesso que com muito algum custo consegui ler a tua postagem até ao fim e para variar gostei.

    Quanto aos cães no Novo Testamento, não esquecer o mendigo que vivia coberto de chagas e que tinha como únicos companheiros que o consolavam, uns pobres cães que vinham lamber-lhe as feridas. Quando morreu o mendigo foi para o céu e agora os tais cães correm e brincam com ele felizes.
    Está lá em Lucas 16:20-21.

    Um abraço.

  2. O “muito” aí de cima, era para aparecer cortado, mas parece que este desgraçado blogue WordPressiano não aceita código html na caixa de comentários.
    🙂

    Ele é fiel, só isso. Mas encontrei a operação feita, apenas cliquei no botão de atualização e pronto, está lá. 🙂

  3. Só entende um momento desses quem teve e tem, o velho amigo do homem como estimação.
    De certa forma eles fazem parte da família! Logo, meus pêsames a família.

    Obrigado! A Duda era, é, e sempre será parte de nossa família. Não dá para ser diferente. Mas tá doendo pra caramba.

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