A Gruta do Lou

Pendor da Justiça

Interessante notar ou anotar as afirmações confirmatórias das crenças milenares.

Quando meu filhos estudaram no Colégio Batista (hoje em vias de demolição para dar lugar a um conjunto habitacional para pessoas de classe média) tivemos dois períodos distintos. No primeiro, paz e tranqüilidade com a direção segura, justa e dignificante sob a batuta do professor Wangles e no segundo, a turbulência gerada por um idiota chamado Nemésio, cuja experiência era a de bancário em Brasília, imaginem. Os problemas começaram e se multiplicaram.

Certa vez, o infeliz aumentou as mensalidades segundo orientação da Associação de Escolas Particulares (um grupo de escroques profissionais que existe no Brasil) da qual, claro, a figura fez questão de fazer parte. O aumento era abusivo. Alguns pais se mobilizaram e marcaram uma reunião no Anfiteatro da escola para discutir o assunto. Fui lá e, para minha surpresa, o comparecimento foi inexpressivo. Resultado, fomos todos rotulados de “personas non gratas” pelo caudilho. Na saída encontrei uma mãe, parente distante, que não havia participado da reunião e perguntei-lhe o motivo. A resposta foi sintomática: Acho bom que aumente, pois dessa forma, quem não pode pagar sai e melhora o nível dos alunos da escola.

Posso não ter gostado da resposta, mas agradeci pela sinceridade. Geralmente, essas crenças não são manifestadas, embora existam e sejam diretoras da sociedade pós-moderna. Quem não pode pagar não deve existir.

Vivemos em um mundo onde apenas um em cinco provedores de família tem emprego. Entretanto, pessoas desempregadas são consideradas vagabundas. Uma parcela não revelada da população ativa tem seus nomes arrolados em listas de devedores. No Brasil, essa inclusão é compulsória. Não pagou, toma. Fora as conseqüências judiciais, sempre favoráveis aos credores, na maioria das vezes, grandes corporações financeiras.Não há educação de qualidade disponível para mais de três quartos da humanidade, mas as pessoas deseducadas são encaradas como parias. Dois terços da população mundial não tem acesso a planos de saúde, sequer dos governamentais, mas essas pessoas são vistas como o lixo da espécie. São sujas e transmissoras de doenças. Sessenta por cento das pessoas existentes no planeta, não tem acesso à alimentação de qualidade mínima e são consideradas nojentas.

Quando duas pessoas são levadas diante de um magistrado, por qualquer razão, o julgamento já foi dado a priori. Julgamentos servem, apenas, para decidir a sorte futura das “minorias” raciais e sociais, que sempre saem no prejuízo, nessas ocasiões. Basta uma pequena visita, mesmo que cibernética, a qualquer prisão do mundo.

Acreditamos que se uma pessoa não paga uma dívida, ela é desonesta e fim. Ela deve ser executada, se possível, decapitada. Não importa sua história. Nessa base, a lei e os estatutos são construídos, sempre protegendo os privilegiados em detrimento dos menos favorecidos.

Jesus, aquele idealista meio maluco e adorável da Bíblia, desembarcou e vendo uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os enfermos. Esse personagem não deve ter existido. Imaginem vocês, ele teve o desplante de afirmar que seu negócio eram os doentes. Essa gente ridícula que não tem trabalho, é deseducada, tem aparência suja, subnutridos e, ainda por cima, a maioria tem doenças horríveis.

Vendo isso, seus seguidores mais próximos, para não ficar por baixo de tanta bondade, aconselharam o Mestre de Nazaré a despedir a multidão para que fossem às aldeias comprar o que comer. Pode? Em outras palavras, para que se virassem como pudessem. Exatamente como encaramos “as multidões” de hoje. Que se danem. Problema deles.

Jesus, porém, lhes disse: Não precisam retirar-se; dai-lhes vós mesmos de comer.

Eita Jesuzinho arretado! Paguem as contas de luz e água deles, seus hipócritas. Não os julguem. Não venha com aquela desculpa esfarrapada de Confúcio, que o cara vira vagabundo se ganhar algo sem merecer. Isso é paganismo da baixa. Se alguém se acomoda com a benemerência, está doente e precisa de ajuda psicológica, bom nem tanto, talvez piore o cara ainda mais.

Alimente o faminto, ampare o doente. Acima de tudo, estude cada caso com muito carinho, especialmente as demandas judiciais. Matar pode ser banal e isso é uma das mais insuportáveis consequências da desigualdade maligna que convive conosco. Mas pode ser, ainda, um grito desesperado, uma opção última daqueles que não tiveram nenhuma chance, nesse mundo de Deus, onde Ele pouco apita. A mesma coisa acontece com roubar, enganar, não pagar, não trabalhar, adoecer, ter fome, etc…

Jesus Cristo foi mesmo um equivocado. Onde já se viu tanta benevolência. Doentes (endividados, enfermos, sem educação, famintos, maltrapilhos, etc) devem ser excluídos. Prisão é pouco para essa cambada de desajustados. Será? Gostaria de dar uma chance, mínima que seja, ao Galileu sonhador da Bíblia. Ele pode ter alguma razão.

Texto: Mateus 14: 14 – 16

Capricornio PB

6 thoughts on “Pendor da Justiça

  1. Tem muita gente com muita forca na língua e na hora nem aparecem para marcar presenca como vc escreveu.
    Achei uma lástima a resposta de alguém que ocupava uma posicao daquelas num colégio desses.
    Nós temos pago muita conta de luz por aqui…você tem acompanhado as nossas lutas.
    Mas o mesmo nos acontece em relacao a Jesus e gracas a Deus que Ele foi o exemplo primeiro. Poucos voltam para agradecer o pagamento da luz, água, esgoto e comidae quando nao até nos viram a cara. É isso ai, mas a vida continua.

    Muito bem escrito como sempre Lou, parabéns!!!

  2. eu sabia que já te tinha visto em algum lugar!
    eu estudei lá a vida toda! entrei no maternal e saí no 3º colegial. é o mundo dá muitas voltas… e sem dúvida a sempre muitas contas a pagar… a minha de luz veio bem, bem salgada… tou precisando de água pra tanto sal! lutemos!

  3. “Que se danem. Problema deles.”
    isso dói de ouvir não é?
    mas é o que se vê por todo o lado…
    belo post, Lou!
    beijos,
    alê

  4. Pingback: Lou Mello

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