A Gruta do Lou

Pastor da Caverna


Maria Madalena da Caverna

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Outro dia, em um desses inúmeros congressos, dos quais sou obrigado a participar, em igrejas e auditórios improvisados nas principais favelas e periferias de pequenas cidades, me perguntaram como cheguei a ser pastor da Caverna. Por um instante, hesitei em responder, pois a primeira idéia a surgir em minha mente foi a de uma resposta longa, imprópria naquele momento. Depois respondi com a velha evasiva da promessa de escrever a respeito no blog, qualquer dia. Essa semana recebi um E-mail de alguém me cobrando o tal texto. Ao ler, senti uma ponta de hostilidade naquelas palavras e achei melhor postar logo e parar de embromar. Bom, antes de mais nada, há  trinta e muitos  anos, fui orientado pelo Dr. Shedd sobre o embasamento necessário a um pastor de gruta. Segundo ele, após o domínio da língua inglesa, deveria estudar Teologia, particularmente teologia sistemática e dogmática, além da Bíblia, para a qual seria importante definir-me por um dos dois testamentos, já que seria impossível, em uma única vida, dedicar-me aos dois. Depois, incluir a história da igreja e a ética cristã. Em seguida, entrar pelo terreno da Filosofia, não esquecendo da Filosofia da Religião. Feito isso, dedicar um mínimo de dois anos pastoreando em congregações de beira de barranco, sem remuneração. A seguir, escolher um pastor renomado, ativo em alguma igreja grande e trabalhar como co-pastor do dito cujo. Alguma experiência em missões internacionais e nacionais seria bem vinda no processo, talvez servindo em uma agência missionária por uns três anos. Catei essa agenda e sai por aí a tratar de cumpri-la. A parte do seminário foi mole. As escolas de teologia por aqui são fraquíssimas e não exigem quase nada, além de funcionarem durante período noturno, na maioria dos casos. Para ser fiel a orientação de meu tutor, estudava muito além do cronograma das matérias e fazia leituras complementares em larga escala. Na verdade, não havia nenhuma escola com um currículo capaz de contemplar aquele programa, então procurei adaptar o melhor que pude. Matriculei-me no CEL- LEP e voltei a estudar inglês, abandonado desde os tempos de ginásio. Então me engajei no movimento de missões na cortina de ferro, viajando primeiro por minha conta e risco, e logo depois fui contratado para trabalhar na Missão Portas Abertas, devido a essa experiência. O barato é que meu chefe lá, não sabia nada de Bíblia e sua maior viagem havia sido uma descida da serra para Santos, a fim de comer frango com farofa na Praia Grande. Como todos sabem, acabei sendo defenestrado e fiquei alguns meses na rua da amargura. Mas, firme em meu propósito de vir a ser um pastor de gruta (ou caverna), arranjei um emprego na prefeitura para dirigir uma creche. Isso preenchia com vantagens a exigência de experiência em missões nacionais. Consegui completar dois anos nisso, antes de ser banido do serviço por agentes secretos do PT, com a devida anuência do prefeito à época, um safado (em minha opinião) chamado Mário Covas, todos ateus confessos. Logo consegui licença para pastorear uma congregação em uma pequena favela em Vila Madalena, que funcionava em uma casa prestes a desmoronar e acabou sendo demolida, tempos depois. Com o fim dela, a escola providenciou-me outra, dessa vez em Morro Grande, na divisa de São Paulo com Osasco, mais uma vez, em uma favela e das grandes. Concomitantemente, comecei a dar aulas de teologia em quatro escolas de qualidade duvidosa. Tudo isso, trabalhando do jeito que dava, dando aulas de educação física ou em algum negócio próprio. Nesse tempo já era casado e tínhamos a Carolina e o Pedro. Então fui aos Estados Unidos, para uma temporada por lá. O plano era trabalhar enquanto reunia mais condições para chegar ao glorioso cargo de pastor de Caverna (ou Gruta). Voltamos de lá, o Thomas nasceu e precisei adiar meu ingresso nesse pastorado. Assim foi, indo e vindo em missões e desafios, no Força Para Viver com o Volney, Exército de Salvação, Igreja Maná, Esquadrão Vida, Refúgio, Casas Taiguara, etc. até quatro anos atrás, quando finalmente fui admitido ao pastorado da Gruta, hoje Caverna. Fui convidado por uma junta de anciãos que avaliou meu currículo, considerando-me apto nesse quesito, faltando apenas eu concordar com as condições. Pensei tratar-se de grandes exigências, mas não era. Segundo os velhinhos, deveria pastorear com humildade, devoção e longanimidade. Sempre que possível, deixar o fruto do Espírito dirigir minhas ações e palavras, além de me conformar com um público cibernético e a famosa simplicidade do espaço. Ah, sem remuneração, claro. Só isso. Antão fui consagrado ao pastorado da Caverna.

4 thoughts on “Pastor da Caverna

  1. Pingback: Lou Mello
  2. Você foi co-pastor do Volney ? Ou eu perdi alguma parte nessa história?

    Só se considerássemos o Força para Viver uma igreja. Só um bom membro de igreja para perceber esse, digamos, furo de resumo. Não citei esse detalhe porque nunca aconteceu de fato. Acabei pulando essa etapa e indo direto pastorear. Mas bem que gostaria de ter sido co-pastor de, digamos, Carlos Lachler ou do Zenon, se bem que andei muito tempo como auxiliar do Zenon. É taí, acho que cheguei a ser um co-pastor informal do Zenon, se aquilo que ele faz em casa puder ser considerado como igreja.

  3. Ah, não! Esse negócio de pastor de gruta é muito trampo!!!! Tava até interesado, por ter um dos requisitos principais: estar desempregado. Mas depois de ler tua carreira, desisto. Continuo aqui no cantinho, bem discreto, vez em quando dando uns pitacos, mas só isso. Pastor de gruta, não!!!

    Sua carreira não é menos importante que a minha, para o evangelho tupiniquim, mas a ênfase está no final, aquelas características que chegam com o cabelo branco ou a calvície, as rugas e a perda do ímpeto, ou seja, a humildade, a longanimidade e essas coisinhas tolas. Formação acadêmica e as outras tolices do Shedd terão valor relativo.

  4. Apesar da ironia, ou justamente pelo fato de ela estar presente, fico feliz em saber um pouco mais da tua história.

    Muito bom.

    Ainda assim, esse é só um trailerzinho da missa.

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