A Gruta do Lou

Páscoa uma ova, digo, um ovo com o nome de Pentecostes.


Em dias como hoje, em que se comemora a paixão e morte de Jesus Cristo, a tal da Páscoa, o que se espera de um cara com algum conhecimento teológico e certo tino para escrever seria um bom post enaltecendo a data, se não me engano.

Entretanto, minha intuição sopra baforadas em meus ouvidos para não cair nessa. Mesmo porque, tenho certo asco desse negócio da morte de Cristo. Todo esse conjunto da paixão crística, das duas uma, ou foi um plano digno de Maquiavel, bolado pelo clero cristão para jogar sobre as costas da civilização ocidental a maior de todas as culpas, garantindo assim recursos inesgotáveis e infindáveis, afinal nada gera mais doações do que a culpa, ou Jesus teria capitulado à alternativa de morrer, depois de dar-se conta de que seu plano de redenção da humanidade através da via Ápia falhara retumbantemente, como explicou-nos Albert Schweitzer.

Se foi isso ou não, pouco importa, afinal hoje, as pessoas só estão preocupadas com o que comer na sexta-feira santa, substituindo a carne bovina ou porquinha, e com os ovos de chocolate para o domingo. No mais, todo mundo se empanturrará de carne duvidosa, cerveja e/ou vinho nesses dias.

Muitos anos atrás, era membro da Igreja Batista do Sumarezinho em São Paulo, aquela que o Carlos Bregantim acabou por desconstruir. Não o culpo totalmente, afinal me tornei em um desconstrutor de igrejas, também, se bem que, não tão especificamente quanto o Carlos. Meu negócio se restringe mais em alimentar as fofocas contra as igrejas institucionais. Se não é uma atitude das mais bonitas, tem sido bem prática. Pouco a pouco temos logrado êxito em nossos intentos maléficos, prevalecendo contra as portas das igrejas.

Mas como ia dizendo, o pastor daquela Igreja, que na época ainda não era o Bregantim, fez a asneira de me convidar para pregar exatamente cinquenta dias depois da páscoa, sem se dar conta de que nesse dia deveríamos comemorar o Dia de Pentecostes. Como eu disse, tratava-se de uma igreja batista e isso não ficaria muito bem, então. Não seria capaz de descrever a cara de asno daquele clérigo quando ele me viu subir naquela plataforma, postar-me atrás do púlpito e declarar solenemente: “Hoje comemora-se o Dia de Pentecostes”. Nesse dia deu-se a descida do Espírito Santo, como relata o Livro dos Atos dos Apóstolos.

O interessante nesse caso, a meu ver, é lembrar que Jesus Cristo em pessoa profetizou que para a vinda do Espírito Santo era necessário que ele saísse de cena. Não explicou direito qual seria a razão para que as coisas se dessem assim, de qualquer forma, sua morte acabou sendo providencial, tanto para limpar a própria barra diante do fracasso crasso, em não conseguir demover as pessoas do pecado, quanto para que seus seguidores pudessem ser brindados com o Espírito Santo, uma forma de Deus muito mais light, para dizer o mínimo. Jesus era muito introspectivo, exigente, autoritário, culto e pregava sentado, imagine. Nós preferimos pregadores que pregam em pé, pulando, dançando, se possível cantando, com alguma coisa exótica na cabeça, não importando tanto o que digam. Se tiver guitarra nas mãos, melhor ainda, caso contrário que venham vestindo camisas havaianas ou o tradicional terno com gravata, o símbolo fálico inventado por um costureiro francês gay.

Uma Páscoa nos moldes judaicos com um cordeiro assado e frito, para pagar os pecados de todos nós, tornou-se um argumento indiscutível. Bastava apenas ligar os fatos, ou seja, considerar Jesus, que se disse filho de Deus, como o cordeiro derradeiro e perfeito para o sacrifício universal e pimba na gorduchinha. A humanidade salva, mas com uma divida impagável e eterna a ser acertada. Com quem? Ora bolas, com a igreja lógico. Ele morreu em nosso lugar e agora só nos resta essa parte ou acertar as contas.

A igreja não valoriza muito esse negócio do Pentecostes e a vinda do ES. Há nisso certo conflito de interesses, sobretudo para os pentecostais. Nada muito difícil de compreender, com o ES a igreja ficaria meio sem ter o que fazer, além de arrecadar e encher o saco dos gays e dos candidatos que gostam de distribuir cartilhas contendo alusões ao sexo irrestrito para alunos do ensino fundamental. Fora suas posições retrogradas contra o aborto, a eutanásia e a pena de morte.

Com tudo isso, ficamos sem a melhor parte da história, ou o ovo que seria de fato um tremendo presente de Páscoa, contendo o Espírito Santo. Isso nos possibilitaria atividades incomuns como a cura dos enfermos, as profecias, visões, sonhos e tudo de bom. Enfim só nos restou ser batistas, presbiterianos, metodistas, pentecostais sem o ES ou como eu, um sem porcaria nenhuma.

Feliz Páscoa a todos e, claro, um beijo nas carecas.

2 thoughts on “Páscoa uma ova, digo, um ovo com o nome de Pentecostes.

  1. Olá! Estava a espreitar teu espaco e quase precisei fazer curso para isso. Está tudo muito diferente por aqui, ainda bem que consegui meio fácil…quase bradei vitóriaaaa!
    Gosto da maneira como escreves. Com uma rebeldia bem assumida e resolvida consegues bailar na mídia com assuntos sérios.
    Bem, por hora uma FELIZ E ABENCOADA PÁSCOA, por que o sentido nao te falta, brilha em ti.
    Abracos

  2. Oi Marlene
    Obrigado pelo comentário. Já faz algum tempo que não trocamos notícias. Bom ler algo seu. Estava aqui, justamente, tentando alterar o visual do blog. Fiz um alteração utilizando um tema que venho tentando equipar para obter um efeito que nos dê mais simplicidade e praticidade. Vamos ver se dará certo. Geralmente, precido experimentar durante algum tempo, até me decidir se fica ou não.
    Feliz Páscoa por ái também. Ah, acho que nós conhecemos o significado, né?
    Abraços
    Lou

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