A Gruta do Lou

Os muros de Sorocaba

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Há muitos anos atrás, discuti com uma amiga sobre o livre arbítrio. Ela acreditava em seres humanos livres e eu defendia a relatividade dessa crença. Essa conversa ficou em minha mente por muito tempo. No início da vida cristã protestante em igrejas, cheguei a aceitar a hipótese dela como mais provável, entendendo a Jesus Cristo como a porta da liberdade. Era bem jovem e, inocentemente, não dei maiores atenções a toda dogmática envolvida em torno do Mestre de Nazaré.

Aos poucos, fui percebendo que o Cristo pregado não era o mesmo, havia sido desfigurado pelos teólogos e pisoteado pelos psicólogos, fora as chibatadas e cusparadas desferidas pelos médicos, advogados, ateus de diversas matizes e até os professores de educação física tiraram a sua casquinha enquanto o salvador subia o morro com aquela cruz imensa e pesada sobre as costas.

Assim como a cirurgia do meu filho salvou a vida dele, mas depois de algum tempo começou a tornar-se um incomodo imprevisível e dolorido, minha conversão, se é correto chamar aquilo assim, também salvou minha vida espiritual por um tempo. Com o passar dos anos, essa decisão passou a mostrar a cara tornando-se desconfortável e irreversível, afinal, não há como trazer de volta a vida perdida em loquacidades frívolas.

Enquanto, meus amigos, aqueles que andaram em algum momento ao meu lado e depois se foram, para voltar em forma de Facebook, trataram de levar suas vidas na simplicidade de um viver medíocre mas funcional, desses cujo roteiro todos conhecem, ou seja: escola (fundamental, médio, superior, pós, mestrados, doutorado 1, 2, etc.), trabalho, casamento, filhos, divórcio, aposentadoria e cemitério, com algumas idas à igreja para fazer a penitência necessária e outras aos shows do Rock Memory, na falta dos Beatles ou dos Rolling Stones; o papai aqui perdeu seus dias atrás do vento das doutrinas, dos falsos profetas, aqueles anunciados por Paulo, conhecidos por fazerem ousadas asseverações sobre o que não entendem.

Resultado, hoje me encontro preso entre os muros de Sorocaba, uma cidade que trata seus doentes come se fossem lixo e o lixo como se fossem doenças terminais, abandonando-o aos urubus e cachorros sem donos. Embora todos varram a sujeira de suas portas para a do vizinho e o último da rua que se fregue.

Morro de inveja dos meus amigos obtusos e suas vidas aparentemente recheadas de idas, vindas, muita música, vinho e cachaça. Essas coisas me fazem sentir medo, culpa e por fim a velha angustia profetizada por Kierkegaard. Mas o pior é não poder ganhar o pão nosso de cada dia para mim e para minha família, honestamente e/ou dignamente. Aí cabe uma boa dose de culpa de minha parte, pois tenho enorme dificuldade em me adaptar ao way of life da maioria.

Alguns, como o Zenon e o Adalberto tentaram me ajudar mas falharam. Sou um caso perdido para a utopia da liberdade que a Bia ajudou-me a enfiar em meu coração naquela conversa tola e sem maiores ambições.

Liberdade custa muito caro, seu preço é a masmorra. Se havia alguma ideia na mente do criador no sentido de construir pessoas livres, elas próprias trataram de liquidar como essa insanidade teosófica e buscaram as grutas e cavernas. Melhor ver o filme do que a realidade, posto que nenhuma imagem digitalizada conseguirá ser real, jamais.

Então, Sorocaba serve como muro de lamentações tanto quanto qualquer lugar onde você resolva escolher como sua gruta ou local de fuga, quando descobrir que você é tão livre quanto cadáver enterrado no cemitério da cidade, dentro de um caixão, devidamente concretado dentro da lápide da família.

lousign

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