A Gruta do Lou

Os misericordiosos

Depois de uma semana agitada, trocando de provedor, agora com o melhor (Locaweb) e já desfrutando da mudança, a Caixa Postal não travou nenhuma vez mais e o blog está navegando em velocidade plena. Os planos são maiores, depois de estabilizar o blog vem a parte mais trabalhosa, que começa essa semana. Sem me preocupar muito com os contadores, não aceitei convites para pregar hoje e fiquei livre para lhes entregar mais uma página do procuradíssimo Evangelho segundo Khalil, esse amigo de tantas aventuras e momentos únicos de nossas vidas, neste domingo meio opaco, nesse nosso pouco pretensioso culto da Gruta, em nossa mini Capela. Bíblia espanada na mão, óculos fundo de garrafa na cara e vamos nessa com o Khalil em

Mateus 5:7�
“Bem – Aventurados os misericordiosos pois obterão misericórdia”.

O mestre disse essa bem – aventurança olhando para mim. Naquele instante lembrei de uma passagem em nossas vidas, engraçado ter lembrado disso assim, fiquei com a sensação dele ter consciência dessa minha experiência e estar me confortando, enquanto confortava todo aquele povo à nossa volta.

Nós, descendentes dos povos do oriente médio, temos a fama de ser zelosos quando o assunto é dinheiro. Talvez nosso zelo seja até exagerado, às vezes. Havia um homem em nossa vila muito simpático, mas tinha fama de ser pouco regrado em suas finanças. Era bom marido para sua bela esposa e um bom pai para seus filhos, pois os amava sem limites e por eles daria a vida sem pestanejar.

Ele me procurou, certa vez, estava endividado e aflito, não queria preocupar a família, mas corriam sério risco de serem despejados da casa onde moravam e não tinha idéia para onde levar a família, caso isso viesse a acontecer. Perguntei-lhe o montante da dívida e a resposta me assustou, pois ele devia mais de dois anos de aluguéis.

Incentivado por meu pai, vinha poupando dinheiro desde menino e tinha uma boa quantia guardada. O valor necessário para ajudar meu amigo era quase igual ao total em meu poder. Pedi um tempo para pensar, sem dizer a ele se tinha ou não condições de ajudá-lo. Não busquei conselho com meu pai e meus irmãos, pois sabia previamente a opinião deles sobre isso. Então tomei a decisão difícil e procurei o homem e neguei o empréstimo. Surpreendemente, ele me agradeceu e beijou minha face, antes de ir embora.

Passado algum tempo, aquele homem e sua família foram despejados da casa. Ele foi cuidadoso e procurou, de todas as formas não expor a família à vergonha e humilhação, se isso era possível. Não sei para onde foram, nem o que aconteceu com eles.

Eu tinha o dinheiro necessário para salvá-lo e tive a oportunidade. Considerei minha poupança e segurança importantes e neguei-lhe ajuda. Era um direito meu e eu não tinha nada a ver com a vida daquele irresponsável. Ele e sua família não valiam metade do meu dinheirinho querido.

O nome do homem em questão era Pasquim, José Pasquim. Belo dia, um domingo, depois do grande almoço da nossa família, ocasião reservada a grandes papos, meu pai começou a contar uma história desconhecida por mim. Filho mais novo, perdi boa parte das experiências mais duras de nossa história, sob as asas protetoras de meu bom pai.

Segundo ele, nossa casa foi desapropriada pelo governo autoritário sob a promessa de uma compensação qualquer, sabidamente não confiável. Da noite para o dia, meu pai recebeu a ordem para deixarmos o imóvel. Não tínhamos para onde ir e muito menos, dinheiro para resolver a situação.

Naquela época, um cliente de nossa loja, um homem simpático, mas sempre atrasado com suas prestações, apareceu para pagar a conta e foi logo dizendo: Hoje eu pagarei tudo, pois ganhei um bom dinheiro de uma herança deixada por um parente distante. Ele estava radiante, mas notou o semblante triste de meu pai. Perguntou a razão e o velho expôs nosso problema terrível.

José Pasquim não hesitounem um segundo e disse para papai. Olha, tome meu dinheiro, vá e compre uma casa na vila para sua família. Não dá para pagar o valor total, mas é a entrada necessária para fechar o negócio. Não sobrou dinheiro para quitar a dívida dele na loja, pois ele deu tudo para meu pai.

Deixei a sala e fui para meu quarto e chorei muitas horas. Nada poderia me consolar.

Quando o Senhor Jesus disse essas palavras olhando em minha direção, pela primeira vez em minha vida, senti o completo consolo. Percebi o perdão de Deus entrando por minhas veias e artérias, chegando até meu coração. Chorei de novo, compulsivamente. Acabara de entender quem são os misericordiosos, e porque receberão misericórdia.

Leia mais em O Evangelho Segundo Khalil:

  • A Testemunha Trans-secular
  • O meu grande amor
  • Uma Grande Luz
  • Pescadores de Homens
  • Levou sobre si as nossas dores
  • A felicidade maltrapilha
  • Lágrimas Valorosas
  • Herdeiros Miseráveis/a>
  • Os Famintos
  • Os Misericordiosos
  • Corações Purificados
  • Os Pacificadores/a>
  • Os Perseguidos/a>
  • Os Recompensados/a>
  • 4 thoughts on “Os misericordiosos

    1. Ontem ainda li a passagem de Marcos em que Jesus conta a parábola do devedor, o que é perdoado e não perdoa. Jesus tinha cada uma, perdoar dívidas enormes!… ai de mim se não fosse assim!

    2. É… essa história de perdão só faz mesmo sentido quando se trata de alguém te xingar um palavrão no trânsito, passar na sua frente em uma fila de supermercado ou gozar do seu time num dia de derrota.

      Mas quando a questão é dívida financeira, temos que entender que os evangelhos não podem ser entendidos ao pé da letra…

    3. Lou, estou fuçando na gruta em motivo de estar na prê da prê da prê da prê. Caca do mosquito do cavalo do bandido. tem um monte de post que sumiu né? Falando em sumiu, essa Bruna ai também sumiu não foi? Não precisa responder não porque eu não vou voltar aqui pra ler

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