A Gruta do Lou

Os meus brinquedos


Recordo ainda…E nada mais importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…

Estrada afora após segui…Mas, aí,
Embora e idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino…acredita…
Que envelheceu, um dia, de repente!…

Mario Quintana

 

Em um dos meus aniversários, nosso amigo Ricardo Oliveira me presenteou com esse texto. Gostei muito e hoje descobri mais virtude nele, foi profético. “Veio um vento de desesperança”. Hora de colocar todos os meus brinquedos de criança na galharia da porta de novo.

Ah, poucas coisas nesse mundo são capazes de renovar nossas esperanças como um brinquedo novo. Steve Jobs sabia disso e os produziu em profusão. Eram bons os natais de menino, sempre chegava um brinquedo novo. Não era a coisa em si, mas a mágica envolvida, a declaração de amor contido e o senso de ser amado.

Alguém aí disse com sabedoria: este ano está passando rápido, mal começou e o Lou já está fazendo aniversário. Essa é a história da minha vida. Pena haver poucos amigos para celebrar, nessa época. Mas, tem aquela história do importante naquele instante é quem veio, então, sempre estive muito bem acompanhado.

Gosto de criar mensagens positivas e otimistas nos meus aniversários. Confesso estar com dificuldades de encontrar as palavras, este ano. Como diria meu amigo Paulo Brabo, elas não estão à vista, já olhei sobre e sob a mesa e nada. Uma das frases mais impressionantes que conheci na minha vida foi: “Elohim, Elohim, lama sabactani” (Pai, pai, por que me abandonaste?) e nunca imaginei me pegar pronunciando-a do mais profundo da minha alma, como fiz no ano passado.

Mas, aos poucos, começo a reconstruir minha teologia. Percebi o erro em meio às minhas crenças. Então não foi Deus quem me abandonou, mas a minha teologia equivocada que não foi suficiente na hora da minha cruz. Foi bom, também, pois acabei percebendo que aquele grito de Jesus era o meu próprio. Ele gritou por todos nós naquela hora, pois nada ali envolvendo o Cristo tinha caráter pessoal. Nossos deuses, teologias e conhecimentos não serão capazes de nos ajudar quando mais precisarmos deles. O Deus ideal não é aquele que nos livra da morte, mas aquele capaz de nos trazer de volta à vida, como fez com o próprio filho.

Não sei se houve algum conhecimento que tenha me custado mais. Foi tremendo, mas foi muito mais digno do que um cartão do bolsa família. Talvez ainda haja mais, de certo haverá, a aprender. Não sei quanto mais possa aguentar, portanto espero sejam mais suaves os próximos passos rumo ao paraíso. Agora entendo porque muitos se desinteressaram. Quem conseguir receberá a coroa da vida.

Entre meus brinquedos, havia um leão de pelúcia. Ele me livrava de minhas encrencas, sobretudo dos medos noturnos, pois dormia comigo. Nos últimos meses ele me fez muita falta. Como revelou o Mário Quintana, imprudentemente, sou um pobre menino… acreditem, apenas envelheci, de repente.

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