A Gruta do Lou

Os iguais enredados

Algumas coisas não batem. José Saramago escreveu “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, mas não existe nada parecido e nada poderia ser mais anti Cristo do que um evangelho dele próprio. Diria o seguinte, se Jesus não fosse precipitado e não tivesse ressuscitado tão precocemente, ele estaria se retorcendo na Gruta, agora. Se o Mestre desejasse escrever qualquer coisa, não apenas um reles evangelho, um livro de auto-ajuda, um post ou uma tese, ele o teria feito. Entretanto, a única escrita dele, de que temos notícias, foram umas palavrinhas cunhadas na areia e logo depois levadas pela maré, enquanto esperava a turba pecadora decidir se apedrejava ou não uma mulher adúltera. Nenhum idiota presente teve a iniciativa de sacar seu celular com câmera a bordo e registrar o fato ou as palavras. Serviu, pelo menos, para nos informar que ele era plenamente alfabetizado.

Outro ponto importante, nenhum dos evangelistas ou dos seguidores deles jamais se referiu a algum tipo de ordem, desejo ou orientação de Jesus aos seus discípulos, no sentido de escreverem o que quer que fosse. Se não me engano, Jesus pensava em um evangelho vivido, compartilhado, integrado e não um monte de palavras em um livro discutível. Ainda escreverei um livro cujo título será: “O Evangelho que Jesus Cristo nunca escreveu”. Quem sabe não ganho um Prêmio Nobel, também. Tudo o que foi escrito em nome dele, foi escrito à revelia dele. Também, quem mandou ele se meter com os robos romanos.

Outro detalhe que não bate bem é essa história de discípulos ou fazer os tais. Todo mundo sabe muito bem que essas relações maior-menor, mestre-aluno, sabichão-sabichinha, patrão-escravo, pai-filho, pastor-ovelha, autoridade-cidadão, enfim a imensa classe dos formadores das autocracias da vida são relações que se baseiam na negação do outro. Sendo assim, não consigo encontrar a coerência de um Salvador todo amoroso submetendo os outros aos seus caprichos ambiciosos através de manipulações grotescas. Se Jesus pensou em discípulos, pensou em iguais, na plena liberdade de pensar e criar de quantos o seguissem por esse mundo afora.

Aliás, o processo de ajuntamento dos discípulos – não discípulos a Cristo é altamente sugestivo. Para mim ele não escolheu segundo currículos contendo amplos históricos de boa prestação de serviço e um monte de diplomas fornecidos pelas escolas decadentes e ultrapassadas, erigidas no modelo autoritário, mas libertou um grupo de homens de suas prisões. Para começar ele literalmente desenredou dois irmãos cujas mãos estavam atadas às redes de pesca de seu pai autoritário (paternalismo é uma forma disfarçada de autoritarismo), a seguir mais dois nas mesmas condições, depois livrou a cara de um sujeito com as mãos enlameadas na corrupção da captação espúria de impostos por parte de um governo tirano e assim por diante.

Quando decidiu enviar esses caras para testemunhar a “Boa-Nova”, não lhes ministrou nenhum curso ou seminário. Nada de Teologia de Missões, Evangelização ou Seitas Heréticas, muito menos estratégias antropológicas missionárias ou como fazer amigos e influenciar pessoas. Suas orientações não gastaram mais do que dez minutos de todos os envolvidos e se um desses doutores ou mestres da Faculdade Metodista de São Bernardo (que fica em Rudge Ramos) ou do Fuller Seminary as avaliasse, certamente as decretaria como simplórias e inadequadas.

Se não me engano, há dois mil anos, Jesus Cristo veio romper essas cadeias autocráticas de comando. Ele próprio deixou para trás seus pais, pastores, patrões, igrejas, empregos e tratou de gerenciar a si mesmo. Em todo o seu extenso ministério de três anos, nunca disse uma palavra sequer em favor desses vínculos diabólicos, antes os excluiu com sua vida pró libertação e desenvolvimento pleno do próximo, inclusive dos inimigos.

Jesus Cristo enviou seus discípulos a ensinar as mesmas coisas que ele ensinava, ou seja, não escravize ou subjugue ninguém, muito menos um filho, seu cônjuge, um amigo ou qualquer tipo de agregado. Somos todos iguais perante o Pai, ou não?

6 thoughts on “Os iguais enredados

  1. kkkkkkkkkkkkkkkkk

    Uma pergunta, esse Fuller Seminary foi onde o Billy estudou ?

    Você é mesmo um grande reporter. Nunca espera a primeira apresentação, assiste o ensaio geral (quando são feitos os últimos retoques no script) e já sai com a grande manchete na mão. O Fuller era a escola dos anos oitenta, onde era preciso estudar para ser pastor da Igreja Batista do Morumbi.

  2. Meu, se o Edward Deci, autor do livro que estou lendo – saiba mais no meu blogue – escrevesse a orientação que Jesus deu aos seus seguidores seria: “Vão, e promovam a autonomia individual com motivações intrínsecas!!!”
    Ô lôco, sô!

  3. Com todos os defeitos dos seus escritores e organizadores, a Biblia continua sendo fantástica, a uns ensina que escravizem e a outros que libertem. No fim, veremos se o que vai definir a salvação é o diploma dessas escolas ou o selo do ES. Uiiiii…

    Diplomas e selos são apenas símbolos de monopólio e manipulação. As escolas pretendem manter seus poderes demoníacos e o ES nunca lançou algo monopolizador no mercado. Negócio dele é mais para o lado da libertação, penso.

  4. Para o nosso Pai,somos iguais…mas entre os nossos iguais é que o bicho pega…as diferenças são absurdas.
    Ele conseguiu juntar um bando de diferentes,para levar a boa nova,eu entendo que isso seja exatamente o início do cristianismo,a primeira lição:
    Tolerância…aceitar as diferenças,ou seja amar o próximo,não apenas como a si próprio,mas amá-lo da maneira que ele é.

    Suas palavras são evangelizadoras.

  5. Pois é, coitados dos discípulos que não puderam frequentar as escolas e institutos bíblicos… Estavam tão desamparados que apenas tinham o Espírito Santo… hehehe ironia!!!

    Minha intenção era ironizar a tirania dos diplomas, mas não tive nenhuma intenção de petencostalizar a turma de Jesus. Juro!

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