A Gruta do Lou

Os ares da Galiléia

Faltam 7 dias

Durante quatro dias, andei com o grupo de judeus meus amigos. Dormimos uma noite no deserto, para experimentar a sensação do lugar. Não posso dizer ter sido a experiência mais cômoda da vida. O frio era cortante e me incomodou demais. Um dos guias percebeu meu desconforto e tentou amenizá-lo com mais uma túnica de pelo de camelo. Estava cansado, embora agradecido, de andar em busca dos feitos de David e das evidências deixadas por Salomão. Assim, decidi voltar e empreender uma busca pessoal segundo meus anseios mais pessoais.

Descansei no quinto dia. Meu maior exercício foi andar pelas lojas de Jerusalém e orar no muro das Lamentações.

Na manhã do sexto dia, deixei o hotel bem cedo no Land Hoover e segui rumo norte. Pouco tempo depois, passava por Jericó. Não parei, pois, tinha estado ali um dia inteiro e nosso guia não nos poupara em contar toda a história de Josué. Pelo jeito, eu conhecia melhor aquela história toda.

Enquanto dirigia, mantendo uma velocidade lenta (por volta dos 80 kms por hora) só consegui pensar no momento único, o qual estava vivendo. Aquele privilégio de andar onde ele andou. Reconstruir seus passos e relembrar suas palavras, seus gestos, sua missão e mensagem. E alguns momentos desprendi-me das amarras materiais desse mundo, acho.

Cheguei a Fasael. Parei junto a um comércio de beira de estrada. Bebi água, sentado junto a uma mesa suja e mal cuidada. Ninguém me serviu ou deu importância. Sentia uma estranha sensação de estar prestes a viver algo inusitado. Não consegui ficar muito tempo ali. Voltei para o carro e continuei a viagem. Os pensamentos voltaram. Via o mestre com Maria e Marta, no barco com os discípulos e suas palavras ecoando em meus ouvidos. Parecia uma peça teatral caminhando para o ápice.

Então, vi Sebaste. Meu pé direito estava adormecido. Precisei parar. Agora encontrara um lugar limpo e bem cuidado. Uma jovem me serviu com alegria. Primeiro tentou comunicar-se comigo em árabe (todo mundo fazia isso), depois em hebraico e, finalmente, em inglês. Foi possível manter uma conversa trivial com ela, durante uns minutos. Comi pão com um creme delicioso (sem saber do que era). Fiquei ali uma hora ou mais. Meu pé voltou ao normal e resolvi voltar à estrada. Estava resolvido a chegar logo em Nazaré. Despedi-me de minha nova amiga, ela, surpreendentemente, me beijou a face e me desejou paz.

Esse foi o trecho mais penoso da viagem. O tempo parecia não passar e minha ansiedade cresceu muito. Imaginar, então, pisar o solo da Galileia, finalmente, onde o Homem passou a maior parte de seus dias nesse planeta, tornou-se superlativo, agigantou-se em minha mente pecadora e começava a não suporta-lo.

Enfim, Nazaré. Um de meus amigos judeus me dera uma endereço ali. Era de alguém acostumado a hospedar pessoas em viagem pela Terra Santa. O nome do homem era Joshua. Não demorei muito a encontrá-lo. Ele estava me esperando. Alguém o avisará da minha chegada. Fui muito bem recebido ali. Embora cristão, todos me trataram como se fosse judeu. Muito embora, hospedar cristãos não era incomum para esse homem doce, de olhar esperto e atitude comercial. A família toda trabalhava na hospedaria de Joshua. Sua esposa e vários filhos. Não consegui entender quantos eram. Alguns eram filhos dele, mas, não de sua esposa, me pareceu. Isso levou-me a pensar na possibilidade dele ter mais de uma mulher. Eles não eram religiosos, mas, conheciam bem os rituais. Joshua conversou bastante comigo e deu-me informações preciosas sobre a Galileia.

Não tive uma noite de sono muito profundo. Acordei várias vezes e pensei muitas coisas desencontradas.

Na manhã seguinte, deixei meu amigo e sua família seguindo para meu objetivo maior. Passei ao largo de Séforis e apertei o acelerador, um pouco mais. A emoção estava crescendo, novamente. Finalmente, Tiberiades. Rumei para um hotel indicado por Joshua, de frente para o lago. Meu apartamento tinha duas janelas e eu as abri completamente. Era inacreditável: estava em frente ao lago onde tantas maravilhas aconteceram, envolvendo o Nazareno mais famoso da Terra. A margem estava grande devido à seca daqueles dias. Crianças brincavam, pessoas caminhavam. Interessante notar como até hoje há pesca no lago.

Não aguentei esperar. Sai do hotel, atravessei a rua e fui para a margem do lago. Pisei o solo sagrado. Andei para lá e para cá. Não consigo descrever minha emoção. Acertei em decidir por viver aquele momento sozinho, precisava disso. Sentei no chão e fiquei olhando as águas calmas à minha frente. Um cheiro chegou ao meu olfato. Virei e vi um homem, uns 50 metros de onde eu estava, assando peixes. Tive a impressão de um aceno. Levantei a caminhei em sua direção. Quando cheguei perto ele me disse: Venha comer. Não tive coragem de perguntar quem era ele. Sabia quem era: eis o Mestre. Aproximou-se, tomou o pão e me serviu e depois o peixe. Esperou eu terminar a refeição. Serviu-me um copo com vinho. Não me lembro de ter tomado nada melhor.

Depois de comer perguntou-me: “Luiz, filho de Nivaldo, você me ama mais do que a estes (apontando os pescadores que trabalhavam ali perto)?
Disse-lhe: “Sim Senhor, tu sabes que te amo.”
Disse ele:” Cuide dos meus cordeiros”.
Afastou-se e serviu uns meninos. Voltou a mim.
Novamente Ele disse: “Luiz, filho de Nivaldo, você me ama?”
Respondi-lhe: “Sim Senhor, tu sabes que te amo.”
Disse Ele: “Pastoreie as minhas ovelhas”.
Saiu de perto outra vez, foi até os pescadores e falou com eles. Logo retornou e direto em minha direção.
Pela terceira vez, ele disse: “Luiz, filho de Nivaldo, você me ama?”
Fique magoado por ter perguntado de novo se eu o amava e disse-lhe: “Senhor tu sabes todas as coisas e sabes que eu te amo”.
Disse Ele: “Cuide de minhas ovelhas. Digo-lhe a verdade: Quando você era mais jovem, vestia-se e ia para onde queria; mas quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde não deseja ir”.
Então me disse: “Siga-me!”
Não consegui me mexer dali, durante horas. Assisti o ocaso mais lindo que já vira. O Homem veio, colocou a mão em meu ombro, olhou direto em meus olhos e sorriu, levemente. Virou-se e desapareceu.

Voltei para o hotel, segui direto para o meu quarto e atirei-me na cama. Dormi o sono dos justos. Acordei com o calor do sol de um novo dia e perguntado-me: “Que sonho fora aquele?”

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6 thoughts on “Os ares da Galiléia

  1. Pude visualizar na minha mente cada pedaço desse sonho!
    Quase que pude escutar a mesma voz…terei escutado?
    E.. novo visual! Bonito! Simples…

  2. Vilma

    O preço por não escutar é incomensurável. Sei bem do que estou falando.

    Quanto ao visual, diz certa psicologia de quintal que mudar os móveis de lugar indica insegurança. Me pergunto: Por que estaria eu inseguro? Mas, por via das dúvidas, mudei os móveis de lugar.

  3. Se essa psicologia fosse certa eu seria a pessoa mais segura ao cimo da terra, pois mudo muito pouco os moveis de lugar! Lol

  4. Pingback: Lou Mello

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